A DITADURA DOS NETOS

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Nasceu Alice, filha de Fabiana e Marcos. É a primeira neta de Iramaia e Francisco das Chagas Santiago da Cruz. Convidado, fui-lhe ao mijo. Não cheguei a ver a mãe nem a bebê que, por certo, estavam às voltas com essa coisa primordial chamada amamentação, mais velha que uma catedral europeia. O que vi mesmo foi o nascimento e a implantação de uma ditadura implacável, daquelas que só quem é avô conhece e pode explicar.

Sob seu inclemente tacão, eu mesmo, este insignificante escriba, padeço há mais de dezenove anos. Os netos são efetivamente ditadores e o fato de serem incruentos não lhes tira a doce tiranis com que tratam os avós, deles usando, fruindo e abusando, se me permitem invocar o conceito do velho direito romano sobre a propriedade. Riem e choram, dormem e comem como qualquer ser humano, mas, até na primária satisfação de necessidades elementares (que em nada combinam com a assepsia), os avós, com um semblante de bem-aventurança, insistem ver as coisas mais prodigiosas que já possam ter ocorrido neste planeta aquecido.

Lembro-me de uma prática recorrente, adotada pela Bruninha, a primeira dos meus oito netos. Tinha indiscutíveis traços de um sadismo infantil, mas era apreciada por mim e pelos circunstantes como um espetáculo digno de registro. Consistia basicamente no seguinte: guiando-me pela mão, a pequenina me levava até à beira da piscina. Punha-se, então, às minhas costas e, com os dois braços, simulava o que deveria parecer um empurrão. Evidente que eu caía na água e, quando voltava à tona, estavam todos rindo e ela, entre gargalhadas, gritando “i vôvo, i vôvo”, o que, como dá para intuir significava que eu deveria voltar para o lugar anterior, a fim de que a cena tivesse repetição, diante dos pedidos de bis. E o “de novo, de novo” poderia seguir numa sequência infinita, não fora a pouca resistência atlética do abestado avô.

Mas os avós têm uma vantagem incomensurável sobre os pais: àqueles não lhes pesa sobre os ombros a terrível obrigação de cuidar diuturnamente (a Dilma acrescentaria: e noturnamente também) de todos aqueles intrincados e infindáveis detalhes de que se compõe o processo de educação de uma criança. Nada disso. Tendo cumprido tal dever em relação aos filhos, resta-lhes o lazer puro e simples, com o desfrute de tudo aquilo que a leveza da infância pode proporcionar. Não prego, por óbvio, a irresponsabilidade, assim como se um avô, só por o ser, tivesse a faculdade de transformar o neto num daqueles infantes insuportáveis e mal-educados, de que todos precisam fugir à simples menção de sua presença nas proximidades. Significo apenas que, atendidos os cuidados mínimos de segurança e higiene, aos avós todo o resto há de ser permitido, tal como usar e distribuir chocolate à vontade, tomar banho de chuva, andar de pedalinho e chamar a mãe ou o pai quando o neném faz sujeira.

Por que? Ora, pois, muito que bem: porque os avós têm foro privilegiado, desses que prorrogam a jurisdição ao infinito, com a vantagem de não haver o risco da prescrição. Porque o amor e a ternura dos avós estão fora dos parâmetros de qualquer definição pré-estabelecida, não podendo ser encontrada nem mesmo nos infinitos conhecimentos do doutor Google. Porque os avós somos os súditos mais fieis dos ditadores que nos governam e para com eles temos um respeito que só a velhice é capaz de ensinar e conservar. Porque somos avós, e pronto!

Por tudo isso, saúdo a chegada de Alice. Que ela comece a exercitar seus poderes ditatoriais imediata e desmedidamente porque quero ver seus avós entregues à mesma submissão em que hoje vivo e de que me orgulho. Sei que nasceu numa sociedade injusta e preconceituosa, em que a inversão de valores tem sido uma constante e onde a ausência de solidariedade causa dor e amargura. Não importa. Ela representa o futuro e nenhum de nós, por mais pessimista que seja, tem o direito de perder as esperanças na construção de um mundo em que “o homem confie no homem, como um menino confia em outro menino”. Que Alice veja a materialização desse sonho. Que com ela se cumpra a profecia de Martinho da Vila: “Vai ter que amar a liberdade/Só vai cantar em tom maior/Vai ter a felicidade de ver um Brasil melhor”.

Seja bem-vinda.

Mario Dantas