VAI VERÃO, VAI VERÃO E O IMAGINÁRIO DOS AFOITOS

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Ademir-RamosA sedução é um impulso que mobiliza toda e qualquer relação seja ela tangível ou intangível. Esta força faz-se presente em variados produtos agregado ao desejo de consumo exposto por meio dos veículos de comunicação. Trata-se, em particular, de uma peça publicitária de uma determinada marca de cerveja apresentada num cenário de boteco de praia, a beira do mar, focado nos contornos de uma garçonete que de forma escultural se move com balanço, molejo e de forma insinuante servindo a bebida com gosto de quero mais. Frente a esta mulher monumental que se move, servindo de mesa em mesa a sevada, os clientes ficam embriagados não só de álcool mais também de prazer e desejo, imaginando consumi-la em atenção ao fogo que lhe consume.

Vai Verão, vem Verão e assim de forma circulante o calor toma-nos de assalto e a razoabilidade é minimizada em favor do acaso movida pela paixão desmedida do desejo tal como o mar em fúria a se rebelar contra os recifes no sentido de removê-los para bem longe, embora saibamos que em tempo normal a natureza não permita. No entanto, em tempo de cólera ungido pela paixão somos todos bestializados não pela forma, mas pelo impulso de realização ou de consumo. Às vezes quase sempre somos todos antropofagicamente devorados pela fantasia sem pernas e meios para operar determinada vontade que se desmancha no ar como hálito do desencanto.

A natureza tem cheiro, podendo aproximar ou distanciar o Verão dos muitos que buscam domá-la por força animal para satisfação da carne, a cometer a doce loucura de se entregar ao outro na certeza de que do outro lado o porto não existe. O fato bem que poderia ser assim ou já foi assim. Ao contrário, as relações presentes tornaram-se mercantis e o prazer converteu-se em custo, na indústria do sexo, excluindo os despossuídos e os famintos das redes a provocar o mal-estar nas condições objetivas do coito e de suas formas vitais.

A dor do cio é reclamada pelas fêmeas que se não domada, assim como a Fortuna, a Deusa da Sorte pode se voltar contra o seu algoz e o que era prazer pode se tornar em dor Mas, para os amantes prazer e dor é interface do mesmo corpo a se consumir na fogueira do gozo do Verão ou no desencanto dos broxantes que recorrem ás muletas das drogas para se afirmar como ativo de um processo, que não se reduz somente na altivez do membro fálico, mas no em torno do contorno do corpo elevado pelo imaginário da sedução. Neste campo do “vai Verão, vem Verão” vende-se o corpo como um todo no formato de um produto em si ou para si de forma que o cliente tenha um fugaz prazer de imediato destituído de qualquer perspectiva, quando não tomada pela ambição de saquear o outro, valendo da sedução como instrumento de arrimo existencial.

No palco das mídias o Verão é unanimidade, não só pela criatividade dos seus autores, mas, sobretudo, por ter na estampa, a beleza da mulher brasileira que se faz mulher por ser bem dotada dos predicados singulares com marca nacional. Nesta circunstância, não só de agora, mas desde os tempos do Paraíso que a sedução é uma extensão do vício ou da virtude a tornar a todos “coitados” no reino dionisíaco a celebrar vida, prazer e arte num contexto das representações míticas, onde morremos e vivemos sem dívida a pagar.

O mesmo já não se pode dizer do presente. Visto que, as relações mercantis tomaram de assalto à afetividade, o sentimento terno de amar e de forma corrosiva transformaram os seus agentes em peças institucionais. O Verão além de vender a cevada e circular nas mesas dos clientes sedentos de tudo provoca também nos animais domésticos, os ativistas do sofá, a descoberta de reconquistar o bem bom da vida, não só cheirando, mas quem sabe degustando o seu Verão em coito e sem subterfúgio buscando novas formas de amar desde que seja permitido tanto a si como o outo (a) viajar na fantasia e quem sabe se descobrir como pessoa sem medo dos cânones impostos e das regras idealistas que projetam aos céus as frustações dos amantes terrenos. O Verão vai, mas ela pode voltar como furacão, colocando de ponta cabeça a nossa existência. Estamos todos (as) de sobreaviso.

Roberto Brasil