UM SONHO QUASE IMPOSSÍVEL

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O doutor Mário Bezerra de Araújo é um economista amazonense que já exerceu cargos da maior relevância na administração pública, em todos os níveis. Tenho o privilégio de desfrutar de sua amizade e sou testemunha da sua dedicação às coisas da terra, principalmente das que se relacionam com o setor primário da produção. O texto que abaixo transcrevo é de autoria dele e me foi fornecido por Tadeu Nery, outro querido companheiro. Mantive o título original e cuidei de meu dever fazer a transcrição porque é uma lição de amor e de angústia, que merece ser conhecida por quantos aqui nasceram e por quantos optaram por viver aqui. Confesso que não pedi permissão para o que estou fazendo. Mas, Mário Bezerra, coração grandioso, há de me perdoar a ousadia de compartilhar com meus conterrâneos seu quase poema sobre Manaus. Aí vai:
“Hoje, como faço sempre no período da seca, quando o Rio Negro está próximo à sua cota mínima, fui rever a praia do Mercado Adolfo Lisboa que se estende dos fundos do próprio mercado até a foz do igarapé dos Educandos, (bairro de Constantinópolis) passando em frente onde um dia foi a escadaria dos remédios.

Mais uma vez, embora sabendo o que iria encontrar, quedei-me triste, envergonhado e decepcionado com o quadro que vislumbrei quando me debrucei no parapeito do muro de arrimo da rua conhecida como Manaus Moderna.
Do alto, em relação à praia, pude observar a imundície que se acumula naquele logradouro. São toneladas de lixo orgânico, e de não degradáveis que se amontoam como que cantando loas ao descaso, aliado à falta de vergonha de nossas autoridades e a falta de educação e urbanismo do povo que aqui vive.

Do ponto de observação onde me encontrava, viam-se os barcos de passageiros que viajam ao interior, acostados com a proa sobre a praia ou, presos às balsas que funcionam como plataforma de desembarque. A água do nosso majestoso rio que circundava as embarcações, praticamente não se via, pois nela sobrenadavam tal qual matupás, peixes podres, frutas estragadas, folhagem de olerícolas de toda ordem, garrafas de plástico, causando uma polução visual e pútrida sem precedentes. Vi dali, passageiros que demandam ao interior, disputando espaço com carregadores que transportavam, entre outras coisas, bananas, farinha, frutas e verduras em geral e inclusive peixes em caixas vazadas, derramando golda fétida por todo o trajeto.

Quase a chorar de raiva e angústia levantei a cabeça e avistei a margem direita do Rio Negro. A praia está encoberta por uma relva verde-cana que a cobre da beira-d’água até o seu encontro com a selva, de um verde escuro intenso, como soe ser a floresta amazônica de terra firme. Por cima da selva, dei com o céu de um azul pálido-acinzentado, como acontece sempre em nossos “verões”, em decorrência da névoa seca que se forma sobre as nossas águas. Então, sonhei acordado.

Sonhei com um grande muro de arrimo a exemplo do já existente, porém, margeando a beira d’água que se estendia da altura do mercado Adolfo Lisboa até a foz do igarapé dos Educandos sempre acompanhando a curvatura do rio. Entre os dois muros, havia um grande aterro onde se construíra um parque de estacionamento, e alguns mirantes para a observação do rio. No centro do estacionamento uma estação de passageiros onde se encontravam boxes para a venda de passagens, salões de espera, lanchonetes, sanitários, venda de artesanatos e escritório do PAC para atender principalmente os recém-chegados.

Com início no muro de arrimo adentrando ao Rio Negro, quatro ou cinco pistas flutuantes que desembocavam, cada uma em um píer, semelhante ao nosso cais do porto (ROADWAY) – construído pelos ingleses há cerca de um século – onde as embarcações se acostavam e aconteciam os embarques e desembarques de passageiros com muita tranquilidade.

Seria este sonho, a mais perfeita realidade se os recursos públicos não fossem desviados para coisas de somenos importância como o caso da “arena da Amazônia” – um verdadeiro elefante branco – que será erigida no local onde derrubaram um estádio em perfeitas condições de uso, com a justificativa de falta de espaço como se Manaus fosse localizada em um quintal e não tivéssemos espaço para satisfazer o ego megalômano de alguns políticos locais.

Creio não ser difícil a construção de nossa estação hidroviária. Um esforço conjunto do Ministério dos Transportes, do Governo do Estado e da Prefeitura de Manaus, e em pouco tempo teríamos a obra pronta, sem falarmos na iniciativa privada que – quem sabe? – poderia se interessar. Para isto, é preciso vontade política e vergonha na cara para que não se desviassem os recursos porventura destinados à obra.

Finalmente posso inferir que tal estrutura seria um dos mais belos cartões postais de Manaus a encantar os turistas que nos visitassem”.

Redação