Sorteios da Caixa são confiáveis?

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caixa-sorteioSe não fosse por um auditor popular, o rateio do concurso 1.800 da Mega-Sena poderia ter demorado alguns minutos a mais para ser confirmado. Isso porque o locutor da Caixa Loterias –promotora da modalidade lotérica–, depois de ter mencionado as 15 bolas sorteadas na Lotofácil, as cinco na Quina, e as 20 na Lotomania, esqueceu de citar a primeira das seis dezenas da Mega-Sena.

“Na hora em que o rapaz da Caixa estava fazendo a confirmação, ele acabou pulando um número. Ele tinha falado número 56, só que esqueceu do 31, que veio antes. Aí eu logo levantei a mão”, diz Vlademir Antunes, 33, que foi escolhido, entre os espectadores, como auditor popular voluntário no sorteio de 16 de março.

Em função da desconfiança que alguns apostadores têm sobre a lisura dos concursos da Caixa, o UOL acompanhou como é o processo feito para a realização dos sorteios. O local foi o Espaço Caixa Loterias, instalado, desde dezembro de 2015, no Terminal Rodoviário do Tietê, na zona norte de São Paulo. Mas os sorteios também podem ser realizados no “Caminhão da Sorte”, que é itinerante.

Desconfiança

Uma das principais suspeitas de alguns apostadores recai sobre as bolas usadas no sorteios, que teriam pesos diferentes. Para o gerente nacional de apoio a produtos lotéricos da Caixa, Carlos Leite, essa é uma demonstração da “criatividade” dos brasileiros. “A Caixa é uma empresa conservadora, legalista. As bolinhas são mensuradas, são pesadas, são medidas pelo Inmetro [Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia] a cada três meses. Então, assim, não há como você fazer nada de errado no sorteio”.

A última vez que as bolas foram medidas pelo Inmetro foi em 21 de março. Após essa verificação, elas ficam dentro de maletas lacradas, que só são abertas momentos antes dos sorteios, na presença do público e dos auditores populares, que checam a numeração dos lacres.

Imediatamente depois desse procedimento, as bolas são colocadas nos globos dos sorteios. Após saírem do equipamento, elas são recoladas nas maletas também na presença do público e com a checagem dos auditores. 

Na sequência, as maletas, já lacradas, são colocadas em um ambiente protegido da Caixa acessível apenas por meio de senha.

Além dos auditores populares e de auditores do Ministério da Fazenda (que não acompanham todos os concursos no local), há uma equipe na sede da Caixa, em Brasília, que, durante e após o sorteio, confere, por meio de vídeo e contato telefônico, todos os movimentos no local. Apenas depois que o processo de auditoria termina na capital federal, o resultado é oficializado no site da Caixa Loterias.

Em nota, o Ministério da Fazenda diz que a fiscalização dos sorteios da Caixa “é realizada regularmente e acontece em todos as etapas, desde a arrecadação até o pagamento do prêmio”. A pasta informa que seus próprios auditores não estão presentes no local em todos os sorteios por causa da “intensa frequência” com que são realizados, o que “impõe a racionalização do uso dos recursos humanos disponíveis”. A preferência é pela presença física em sorteios de “valores consideráveis”.

‘Não é só para arrecadar’

“É importantíssimo deixar claro para o cidadão que as loterias da Caixa são feitas visando o benefício dos beneficiários legais. Não tem sentido ter uma loteria só para arrecadar”, afirma Leite.

Além da auditoria popular, a loteria da Caixa também é avaliada na prestação de contas que todas as áreas da instituição devem dar à CGU (Controladoria-Geral da União), ao TCU (Tribunal de Contas da União), e à Ernst & Young, auditoria independente.

Em resposta, os órgãos públicos e o Ministério da Fazenda dizem que nenhuma denúncia recente foi identificada em seus arquivos a respeito de fraude nos sorteios das loterias da estatal. A EY, por questões contratuais, disse que não pode se pronunciar.

Sobre as últimas polêmicas envolvendo os sorteios, que fizeram crescer os comentários sobre suspeitas quanto à lisura das loterias, o gerente diz que tudo foi esclarecido.

No ano passado, o MPF-GO (Ministério Público Federal de Goiás) denunciou um esquema de fraude nas loterias. “Sobre a operação Desventura, não se comprovou nada até agora que tenha alguma coisa errada na Caixa, pelo contrário. Fizeram-se auditorias, várias auditorias, e não se encontrou absolutamente nada”, aponta Leite. A denúncia foi acatada pela Justiça e o caso corre sob sigilo atualmente.

Já a demora de dias para a divulgação do rateio do primeiro sorteio do ano foi por questão de segurança, segundo Leite. No sábado 2 de janeiro, foi feita uma atualização no sistema que demorou mais do que o previsto. “A Caixa prefere atrasar do que fazer uma coisa tempestiva. Tem que fazer com segurança. Tá superado isso daí. Eu espero que não aconteça mais”.

‘Muitas histórias’

Apesar de acreditar que os sorteios da Caixa são feitos corretamente, a outra auditora popular escolhida no dia 16 de março diz que já ouviu “muitas histórias” sobre manipulação nas loterias. “Falavam que ‘os números que devem ser sorteados são esses, as cidades são essas’, por exemplo”, lembra Virgínia, que acompanhou um sorteio de loteria pela primeira vez.

Para Carlos Leite, gerente da Caixa, isso mostra que “o brasileiro é bem criativo”. “Ele tem o direito de estar falando. E eu costumo dizer: as loterias são o único tributo voluntário. Mas, no fundo, no fundo, ele acredita nas loterias da Caixa. Ele tem que dar sorte à sorte”, comenta.

Virgínia diz acreditar que essa visão de alguns apostadores pode ser “recalque”. “‘Já joguei a vida inteira, não ganhei, mas…’, as pessoas falam. Acho que é mais isso: recalque porque não ganha, né? Deve ser”, brinca a auditora.

(Com UOL)

Roberto Brasil