SONHO E ESPERANÇA

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Por mais chocante que tenha sido, não deixou de ser também engraçada a foto estampada nos jornais locais, mostrando um pinguço de Manacapuru devorando um gato a dentadas. Como o animal estava vivinho da silva, há de se pensar que o glutão não teve paciência de esperar a abertura da banquinha da praça, onde, à noite, poderia degustar um churrasco do mesmo felino, ainda com direito a molho vinagrete. Outros, maldosos, haverão de atribuir a cena a uma falha clamorosa do programa Fome Zero, com o qual Lula, antes de receber o prêmio Algemas de Ouro, brindou generosamente esta gente tupiniquim.

Cá comigo, acho que era apenas efeito de uma tremenda carraspana, dessas que, no dizer do sempre querido professor Carlos Gomes, são capazes de juntar meninos. Mas foi impossível não ligar o hilário episódio ao anúncio feito esta semana pela FAO a respeito da quantidade de alimentos que anualmente é jogada no lixo, por produtores, fornecedores e até por consumidores. Simplesmente joga-se fora e fica por isso mesmo, enquanto ascende a novecentos milhões o número de seres humanos que não tem o que comer pelo mundo afora.

 Como é possível conviver num cenário de tamanha contradição? Os religiosos invocarão o livre arbítrio, argumentando que seus deuses já fizeram muito nos dando o universo e a vida e que, a partir daí, cada um cuide de si e construa sua própria sorte. Não por coincidência a linha de raciocínio é a mesma que, enfrentando o problema, haverá de desenvolver o burguês plácido e calmo, apenas substituindo a palavra “arbítrio” por “iniciativa”, o que, no frigir dos ovos, vem a dar no mesmo.

Afinal de contas não é de hoje que governantes e poderosos vêm fazendo ouvidos de mercador aos clamores que se erguem das necessidades básicas da humanidade. Qualquer menino do curso ginasial conhece a história da rainha Maria Antonieta que, informada do grito da turba multa contra a falta de pão, indagou de suas cortesãs, com aristocrática singeleza: “Por que não comem brioches?” Essa placidez, é certo, não saiu barato para a austríaca, que teve sua bela cabeça separada do corpo na praça que hoje é denominada, por ironia ou conveniência, de Praça da Concórdia, bem ali ao pé dos Campos Elíseos e a um passo das Tulherias e do Louvre.

Mesmo afastada a excentricidade da aristocrata do século XVIII, o passar das duas centúrias que se seguiram não mudou em nada o quadro trágico. Não falo piegasmente do espetáculo horripilante de criancinhas estendendo a mão à caridade pública, sozinhas ou monitoradas por seus pais que com elas dividem o peso de uma miséria crônica, a arrastá-las pelo becos e guetos de grandes cidades, onde ninguém é de ninguém e onde a palavra solidariedade é mera criação de dicionários. Nem quero falar dos aleijões que usam suas deformidades com o mesmo fim, buscando despertar pelo menos a comiseração.

 São eles, todos eles, crianças, pais e deformados, apenas referências pontuais em um universo bem maior, em que se insiste em desconhecer a realidade, talvez por sua dureza pungente, talvez, quem sabe, porque seja bem mais fácil deixar a cada um o encargo de resolver seus problemas. Se nascemos iguais — não é assim que a boçalidade pensa? — todos temos as mesmas oportunidades, de tal maneira que ser pobre ou miserável se resume a uma questão de negligência individual.

 Se quase um bilhão de pessoas não têm o que comer, algo tem necessariamente que estar errado. O que seja e como resolver, por favor não me perguntem. Sou apenas um homem que, desde cedo, abriu seu coração para o mundo e nele passou a acolher, sem ciência e sem planejamento, o eco que ressoa das dores dos desvalidos, desses que, por o serem, não conseguem passar de estatísticas.

 Por isso, talvez, gostaria eu de ouvir hoje meu irmão Raymundo Valois declamar, com o mesmo fulgor com que sempre o fez, pelo menos o início do grito de protesto que saiu da pena privilegiada do poeta Farias Carvalho: “Hoje eu queria escrever um poema diferente/Sem o chiquê das formas elegantes nem a rotina das velhas tradições/Um poema duro e pegajoso como o suor e os músculos dos que sustentam o mundo/E carregam nos ombros todo o peso da opressão”.

                        Que nos perdoem os que passam fome.

 

Redação