SOMOS UMA ESPÉCIE DE “CRONÓPIO”

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Em torno de 50% do eleitorado anulou seu voto, votou em branco ou absteve-se de votar nas eleições do último domingo para governador tampão do Amazonas.

A decepção com a classe política e a mesmice dos personagens que postulam o poder causa o marasmo cívico e a mornidão nas esperanças de um futuro novo, sem maldições hereditárias.
Mas como falar em futuro se o que passou para o segundo turno foi a volta ao passado mais nefasto e desastroso que se pode imaginar.

De um lado Amazonino, vulgo NEGÃO, figura que colocou o ovo e chocou cada uma dessas aves de rapina que chegaram ao poder na política baré. Gerou a marca do patrimonialismo, casuísmo político e apadrinhamento dos incompetentes que, governo a governo, condenaram nosso Estado ao fracasso econômico e social que hoje o corrói.
Aquele que deixou em escombros nosso Estado, agora postula reconstruí-lo em nome de um amor que não é o AGAPE, nem o PHILEO, nem tão pouco o EROS, mas sim um tipo de amor que os filósofos não cogitaram conceituar, pois, ao invés, trata-se de um sentimento mesquinho, tacanho e pequeno que asfixia o potencial político das novas gerações em nome do amor pelo poder. Esse amor pelo status-vaidade e pela manutenção no poder desse grupo político que elegeu Jose Melo, que não tem um projeto de prosperidade e boa governança e cujos esforços visa, tao somente, a manutenção de cargos e mamatas para seus apadrinhados.

De outro lado Eduardo Braga, vulgo DUDU, cria política do seu opositor neste segundo turno. Uma espécie de Sergio Cabral do Norte, que realizou obras grandiosas endividando o Estado para as próximas gerações e, ao lado de LULA e dos companheiros de corrupção, colocou o Amazonas dentro dos esquemas ora revelados pela LAVA JATO, passando o bastão dessa forma de governo para seu sucessor Omar Aziz e daí por diante ….

Apesar de ser jovem não inovou, com a ponte desrespeitou princípios de proteção do meio ambiente e ao deixar incompleto o prosamim, deixou de investir tudo no essencial como saneamento básico, para construir ponte, monumento e arena que sempre foram obras supérfluas.

Também, quando governou, tratou mal outros quadros políticos com sua proverbial arrogância, talvez isso explique seu atual isolamento político. Não foi bom para os políticos e não foi bom para o povo, conseguiu a proeza de desagradar a todos.

Com este fatídico quadro na mente, logo após os resultados de primeiro turno, desiludido com o quadro político revelado, investi algumas horas relendo “histórias de cronópios e de famas”, do escritor franco-argentino Júlio Cortázar, catei motivos para o que poderia ainda manter a chama dos sonhos acesa:

O que é cronópio? Essa foi a pergunta que fiz a mim mesmo quando li essa palavra em algum texto que não me lembro qual foi, nem quando foi… Fiquei curioso para descobrir seu significado, e ao pesquisar percebi que eu me identificava com sua definição… Os cronópios possuem uma visão diferente do mundo, são aqueles que sonham demais, amam demais, criam demais, viajam demais e se iludem demais. Iludem-se por optarem pelo lado subjetivo das coisas e que por isso acabam não vendo maldade em nada… São aqueles que preferem ver por de trás da superfície, que muitas vezes fecham os olhos para sentir e escutam a voz do coração como ninguém.

Cronópios são uns serezinhos duvidosos inventados por Júlio Cortázar, para reproduzir certos traços humanos muito freqüentes nas pessoas boas, ingênuas, irresponsáveis, alegres, sensíveis, temerárias, atrapalhadas, vacilantes, barrocas, amáveis. Se a pessoa se encaixar nestes traços, é um cronópio.

Não é difícil ver que essa palavra se compõe da justaposição de dois vocábulos gregos: chrónos (tempo) e ópion** (a substância da famosa papoula, capaz de deixar a pessoa em estado de euforia seguido de um sono onírico). — Assim, penso que não ficaria mal se definíssemos os cronópios como seres entorpecidos pelo sentimento do tempo.

Um trecho do livro de Cortázar, explicaria melhor o seu significado:

“Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.”

“Pois assim são os cronópios. Quando se põem a cantar suas canções preferidas, ficam tão empolgados que freqüentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas. Ao contrário dos famas, que são práticos e calculistas, os cronópios são desordenados e líricos. Se saem de viagem, sempre encontram os hotéis cheios, perdem todos os trens, a chuva cai sem parar e os táxis se recusam a transportá-los porque estão tremendamente molhados. Mesmo assim, à noite, dizem-se com alegria: “Que bela cidade, que cidade belíssima”. Depois de dormir e sonhar que foram convidados para grandes festas naquela cidade, levantam-se contentíssimos no dia seguinte, pois é assim que os cronópios viajam.”
Apesar dessa eleição a vida segue seu rumo, seu ritmo. Apesar das figuras “famas” que insistem em relegar a educação básica a um caos, que fazem da violência publica um espetáculo bárbaro que promove falsos heróis e apesar da insensibilidade com o semelhante que morre um pouco a cada dia nas filas intermináveis da rede pública de saúde.
Apesar dos “famas”, como diz o Buarque poeta, “amanhã há de ser outro dia”, essa esperança é própria dos “cronópios”, até que despertemos em uma sociedade com plena cidadania e respeito próprio.

Roberto Brasil