SEQUESTRO E ADVOGADOS

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felix-valois-blogdafloresta_logoNo Rio de Janeiro, soube que o doutor Marco Aurélio Choy foi vítima do que se convencionou chamar sequestro relâmpago. Meu filho Luís Carlos, que já passou por situação semelhante, assegura que essa denominação tem sabor de humor negro, tal como quando se diz que a velhice é a melhor idade. É que a rapidez do crime só existe aos olhos de quem o observa ao depois, no conforto de uma poltrona, enquanto para o sequestrado os minutos têm conotação de séculos e a privação da liberdade parece infinita e, o que é pior, mortal. Felizmente ambos saíram incólumes.

Mas o que me chamou a atenção no caso do vice-presidente da OAB/AM foi a reação manifestada em alguns setores das redes sociais. Delas fui informado já que tenho conseguido me manter relativamente infenso a essa praga dos tempos modernos. Segundo o que me disseram, um verdadeiro enxame de estupidez tomou conta da internet, com pessoas dizendo algo como “bem feito” e justificando essa postura pelo fato de os advogados “defenderem bandidos”. Li a posição do doutor Choy a respeito e a subscreveria sem nenhuma hesitação.

É que não consigo entender como pode estar numa sociedade, que se pretende civilizada, alguém que não logra distinguir a figura de quem é acusado perante a justiça criminal da figura do advogado incumbido da defesa. O que se passa na cabeça dessa gente? Qual será o modelo de processo por ela idealizado? Imagino que energúmenos desse tipo sonhem com chibatadas inúmeras nos costados dos presos, enquanto se preparam as máquinas para a consumação da tortura.

Pratico a advocacia criminal há meio século. Nunca estabeleci relacionamento pessoal com nenhum dos meus clientes. Não quer isso significar que esteja eu a me considerar melhor que eles sob qualquer aspecto. Nada disso. É que o verdadeiro advogado (principalmente o criminal) não pode esquecer nunca, em nenhuma circunstância, que da sua postura estritamente profissional vai depender a boa condução da causa, na busca do êxito. Vai daí que confundir o advogado com o cliente é de uma boçalidade tão grande que está além dos meus parcos recursos traçar-lhe as dimensões. Mas tenho certeza de que é uma boçalidade imensa, tão grande quanto a distância que vai de uma sonata de Mozart ao arrulho de uma dupla sertaneja ou ao barulho de um axé. Ousaria dizer mesmo, procurando evitar a prolixidade e na caça da síntese ideal, que se trata, sem mais nem menos, de burrice. Uma burrice chapada, opaca, impenetrável, manipulada no cadinho da ignorância e cultivada nos jardins da mais perfeita insensatez.

E é uma burrice que não se peja de si própria, tanto assim que bota a boca no trombone para publicar, nos meios ao seu alcance, os urros de sua estupidez. Coisas da modernidade, já que a internet, aberta ao mundo, não exige carteirinha para ser acessada e muito menos solicita atestado de sanidade da parte de quem quer publicar as besteiras que diz ou escreve. A respeito, vale a pena conhecer a opinião do romancista italiano Umberto Eco, de cuja erudição é impossível não ter inveja. O Conjur publicou uma entrevista por ele concedida à jornalista Ilze Scamparini. Vejamos um trecho.

A jornalista: “O senhor desencadeou uma forte reação quando foi duro contra uma parte da internet”.

O romancista: “É dar muita importância a uma coisa óbvia. É ou não verdade que no mundo existem muitos imbecis? Me parece que sim. Agora, podemos discutir se são a maioria ou a minoria. Mas existem muitos. No momento em que a internet permite que todos falem, permite que um grande número de imbecis fale. Então, é preciso também saber criticar o que está na rede e pronto. Acho que quem protestou foram eles, os imbecis”.

Eis aí, pela voz de quem entende, o que eu gostaria de ter dito sobre os estafermos que mugiram, via internet, no episódio do sequestro. Por singela comiseração, vou tentar fazê-los entender coisas primárias, que exponho em linguagem pré-escolar, bem no nível de suas inteligências. Idiotas, compreendam de uma vez por todas que, num Estado organizado com o mínimo de sentimento democrático, ninguém, seja quem for, pode ser processado sem defesa. Por que? Ora por que, meu símio de estimação! Porque num processo criminal, o Estado, por intermédio do Ministério Público, promove a acusação, via agentes devidamente qualificados. E você haveria de querer que isso não tivesse contrapartida? Nem você, meu bom bugio, pensaria nisso. Agora me diga: quem é que está tecnicamente preparado para enfrentar a acusação dos promotores? Já deu para perceber? Somos nós, os advogados, meu bobo. Nós não temos nada a ver com as condutas praticadas por quem quer que seja. Mas quando essas condutas têm reflexos judiciários, não tem jeito: o advogado é indispensável.

Com toda a sinceridade, espero que vocês, idiotas de todos os tipos, nunca tenham necessidade dos serviços de um advogado criminal. Mas, se algum dia tiverem, fiquem tranquilos: a defesa não apresentaria muitas dificuldades técnicas e mesmo um advogado sem muita experiência saberia o caminho correto a seguir. Bastaria levantar o incidente de insanidade mental.

Roberto Brasil