Sem salários, deputados venezuelanos têm de levar papel higiênico e água

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Opositores gastam recursos próprios ou dependem de doações para ter itens básicos

Ser deputado numa Assembleia Nacional (AN) dominada pela oposição na Venezuela de hoje não implica, apenas participar de marchas contra o governo do presidente Nicolás Maduro e enfrentar uma repressão cada vez mais violenta nas ruas. Implica, também, não receber salário — suspensos há quase um ano — estar proibido de viajar em companhias aéreas estatais e ter dificuldades para comprar passagens em empresas privadas; trabalhar sem tinta para imprimir, entre outros produtos básicos que deveria haver num Parlamento, como papel higiênico, café e água mineral.

Para muitos parlamentares da Mesa de Unidade Democrática (MUD), sobretudo os que vivem em estados distantes da capital, exercer um cargo legislativo está se tornando cada vez mais complicado, sem falar nos obstáculos impostos pelo Palácio de Miraflores para boicotar as ações da AN.

A deputada Milagros Paz, por exemplo, que representa o estado de Sucre, já quase não consegue pagar o aluguel do apartamento que ocupa com uma colega. Por terra, são sete horas, no mínimo, e a única companhia que voa a Sucre é a estatal Conviasa, onde os opositores não podem comprar passagens.

— Estamos todos numa lista de pessoas bloqueadas. Quando telefonamos, nos dizem que não podem nos vender uma passagem, que não existe disponibilidade… — contou Milagros ao GLOBO.

Em Caracas, alguns hotéis também se negam a hospedar deputados da oposição, e muitos, como a congressista de Sucre, acabaram alugando apartamentos.

— Contamos com a ajuda de doações privadas, os partidos nos ajudam dentro do possível, mas está ficando muito difícil. Eu acho que daqui a um mês não poderei mais pagar o aluguel, terei de procurar a casa de algum amigo — disse Milagros.

Os deputados deveriam receber 12 salários mínimos, mas há quase um ano não ganham um centavo.

— Moramos num país que tem 780% de inflação anual, estamos financeiramente asfixiados — desabafou a deputada. — Congressistas de estados mais distantes estão em situação ainda mais difícil.

Na opinião do deputado Jorge Millán, a asfixia financeira à AN faz parte de uma estratégia para impedir o funcionamento do Parlamento.

— Hoje a AN funciona graças à ajuda de pessoas anônimas, partidos, da colaboração de todos — disse. (Fonte: Agência O Globo)

Roberto Brasil