RUA LEONARDO MALCHER

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felix-valois-blogdafloresta_logoNa margem esquerda do igarapé de São Raimundo, quando da vazante, formava-se um terreno de várzea que era utilizado pelos craques da redondeza para a prática de um futebol bem superior ao dos sete a um. Ficava depois da rua Benjamim Silva, nos fundos de onde funcionava a Olaria Grilo, esta com a sua parte frontal para a rua Leonardo Malcher. O “estádio” era conhecido pelo imponente nome de Rapapé. Embora nascido e criado nas proximidades (mais precisamente no número 122 da Leonardo), nunca pude ali mostrar minhas habilidades futebolísticas. Primeiro porque não as tinha. A bola sempre foi chamada por mim de Vossa Excelência, de tal maneira que nunca foi possível com ela estabelecer qualquer intimidade. Depois, porque o professor Valois e dona Lucíola não queriam nem ouvir falar do Rapapé, como se ali, além do esporte, atividades menos nobres, digamos assim, também tivessem lugar.

Quais fossem essas outras práticas, francamente não sei dizer. No meu tempo de infância e adolescência, tudo era muito simples, ingênuo e singelo. Fumar maconha não creio que se incluísse entre os temores que levavam à proibição paterna. Da “canabis”, naquela época, nunca ouvi falar e o tabagismo, que acabou por me dominar, se dava a partir do Continental sem filtro, para os menos favorecidos, até o elegante Colúmbia, com suas caravelas na embalagem, reservado ao consumo dos abastados. Tudo por culpa de Hollywood (também nome de um cigarro de intermediária qualidade), que nos fascinava com o talento de Humphrey Bogart, tão bom artista quanto fumante inveterado. Era chique fumar e pronto.

Mas não era só o Rapapé que emoldurava o cenário dos meus doces anos. O Chalé dos Urubus tinha presença marcante, com sua arquitetura “belle époque” e seus singulares moradores. Os quartos ali, ao que me lembro, eram alugados por preços irrisórios e não havia preocupação com luz elétrica nem com água encanada. Era uma estância. A energia, de resto, era escassa na cidade inteira. Quando se conseguia acender uma lâmpada, o fenômeno se dava, em tempos de sorte, no mínimo de dois em dois dias e por um período que raramente ultrapassava seis horas contínuas. As velas e os candeeiros a querosene eram imprescindíveis. Quantas vezes varei a madrugada com a chama trêmula a iluminar a página do livro, onde eu buscava meios de sair da escuridão maior da ignorância. Não era diferente com a água. Vê-la jorrar das torneiras era tão raro quanto ver um automóvel descer a rua. Mas a limpidez do igarapé não permitia aperreios. Só proporcionava o trabalho de subir com a lata d’água na cabeça ou optar pela frequência às cacimbas.

Não sei hoje se a natureza e o Prosamim ainda permitem o jogo de futebol. Sei que o Chalé foi demolido e que, no local onde existiu, hoje há nada, talvez nem a memória dos desvalidos que ali encontravam abrigo. Mas havia também o Pombal. Era menos imponente, mas servia aos mesmos propósitos de seu similar. Ficava bem em frente à nossa casa, encimando um barranco que ladeava a taberna do seu Raimundo. Nele morava a Loba. Nunca lhe soube o nome verdadeiro. Calculo, na minha perspectiva infantil, que andasse na casa dos trinta. Quando muito, quarenta. Avantajada de corpo, com biotipo pouco encontradiço entre nossas conterrâneas, dizem que se dedicava à prática do que acreditam ser a mais antiga profissão do mundo. Não sei, nem me interessa. Sei apenas que a molecada, eu incluído, ficava toda serelepe quando a Loba se dirigia, com a toalha no ombro, para o banheiro comum do Pombal. Acredito que tenha rendido inúmeros prazeres solitários.

Também ali morava o Paulo. Era, se não me engano, marceneiro de profissão. Magro e pálido, aparentava uma velhice precoce, ele que com certeza ainda estava correndo a terceira década. Os ombros encurvados e uma tosse persistente lhe eram as características. Paulo era tuberculoso. As mexeriqueiras da rua (e como as havia!) contavam que, a conselho médico, Paulo foi ao dispensário Cardoso Fontes fazer uma radiografia dos pulmões. Acrescentavam que a atendente, quando olhou a figura e soube da razão de sua presença, teria dito, sem nenhuma piedade: “Para que o senhor quer uma radiografia? Pelo seu jeito, dá pra ver que o senhor já está é oco”. Se tamanha inclemência é verdadeira ou produto da lenda, estou impossibilitado de esclarecer. O certo é que o pobre homem foi rebatizado, definitiva e irremediavelmente, como Paulo Oco e como tal baixou ao túmulo.

Velha Leonardo Malcher da minha infância! Hoje já não tens os buracos do teu leito de barro e ostentas, toda orgulhosa, iluminação pública. Carros por ti trafegam e a modorra residencial dos velhos tempos foi substituída por intensa atividade comercial. Em ti já não se veem as cadeiras nas calçadas e a dona Neném não está mais aí para consertar carne trilhada. Também já não existe o dominó na calçada da casa do seu Américo, cuja sogra, dona Rosa, podia esquecer de tudo menos da devoção por Nossa Senhora de Fátima, pois ela jurava que a Cova da Iria era próxima do lugar onde nasceu em Portugal. Tudo se foi, até o jogo de botões de tucumã, praticado com persistência no porão da minha casa paterna. Só não se foi a saudade. De ti me lembro, velha rua. E, com certeza, os prantos que tenho chorado ao longo destas mais de sete décadas foram por ti também.

Roberto Brasil