Rodoviária de Manaus vira acampamento de venezuelanos

By -

Centenas de venezuelanos cruzaram a fronteira do Brasil e chegaram a Manaus

Um grupo de, aproximadamente, 14 venezuelanos, entre crianças, adultos e idosos, estão acampados, ao ar livre, nas dependências da rodoviária de Manaus, bairro Flores, Zona Centro-Sul de Manaus. Eles buscam auxílio no Brasil após a crise financeira que o país enfrenta por causa da inflação.

Centenas de venezuelanos cruzaram a fronteira do Brasil e chegaram a Manaus através da rodovia federal BR-174. Alguns são descendentes de indígenas e utilizam a identidade cultural do seu povo para comercializar produtos como artesanatos, chapéus e bolsas, na capital amazonense, gerando assim renda para custos com alimentação. Outros se submetem a humilhações em pedir esmolas nas ruas da cidade para, assim, ter o que comer.

Vivendo em condições precárias, sem higiene e segurança, o grupo arrisca a própria vida buscando abrigo em cabanas improvisadas com lençóis e mosquiteiros. As crianças dormem no chão frio apenas com uma fina camada de pano no piso. Nessa época de chuvas no Amazonas, o grupo sofre com a úmida temperatura no local.

O jovem venezuelano Oswaldo Apolphas, 22, que integrou a Força Nacional venezuelana, onde exerceu a patente de primeiro sargento, disse que há seis meses veio para o Brasil em busca de melhores condições de vida e, aqui, trabalha há 14 dias como pedreiro. Segundo ele, na Venezuela a situação é bem crítica e falta dinheiro principalmente para alimentação.

“Estou em Manaus há seis meses. Já passei fome e frio. Ouvi muitos nãos e enfrentei o preconceito da sociedade. Muitas pessoas julgam a gente sem conhecer, sem saber o porquê de estarmos aqui. Infelizmente foi a única opção que tivemos para fugir da miséria”, disse Apolphas revelando que tem um sonho de gravar um disco musical “Desde pequeno eu almejo um sonho de se tornar cantor. Já compus algumas músicas todas no ritmo musical do rap”, confessou.

Alguns são descendentes de indígenas

Ainda segundo o venezuelano, logo que chegou na cidade procurou a Casa do Migrante Jacamim, localizada no bairro Flores, há poucos metros da rodoviária, mas teve pedido de apoio negado pela direção do lugar. “Logo de cara me negaram apoio. As pessoas são desumanas. Eu não escolhi passar por isso. Sou um ser humano como qualquer outro. As vezes as pessoas precisam apenas de um apoio para conseguir subir na vida. Infelizmente esse apoio foi negado na casa do imigrante”, frisou Oswaldo.

Recém-chegados a Manaus, o casal Elia Peres, 26, e Josefa Peres, 28, grávidos de 5 meses, estão há três dias na cidade com o objetivo de melhorar de vida. Eles destacam que não procuraram apoio na casa do imigrante porque ficaram sabendo do descaso que os demais venezuelanos sofreram ao solicitar auxílio.

“Trouxemos conosco algumas mercadorias, poucas, mas é o que temos no momento. Estamos vendendo no Centro para a gente poder conseguir dinheiro para comer. Ainda não conhecemos nada na cidade. Não compreendemos o português brasileiro e tão pouco temos noção de preço de aluguel de casas. Não temos condições de pagar uma casa. Mas espero que logo isso seja possível. Estou a procura de emprego. Não sei como serão os próximos dias, pois me sinto um pouco ruim por conta da gravidez”, revelou Josefa.

Sem acesso a banheiros e espaço para higiene pessoal, os imigrantes tomam banho na calçada, onde também lavam roupas. Para as necessidades fisiológicas, o grupo utiliza a área localizada embaixo do viaduto de Flores. O mau cheiro, inclusive, causa transtorno para a população que passa pelo local diariamente.

O grupo sofre com a temperatura úmida no local

Medidas

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Manaus e o Governo do Amazonas, que possuem duas pastas voltados para questões sociais, como a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) e Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), respectivamente, para saber quais ações os poderes municipal e estadual realizam para tentar reverter esse quadro.

A Semasdh afirmou que, desde o ano passado, tem trabalhado para atuar nestas questões. No segundo semestre de 2016, a equipe de abordagem do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) identificou 10 famílias venezuelanas, todas com crianças, que utilizam a área do Centro – principalmente avenidas Getúlio Vargas e Eduardo Ribeiro – para pedir dinheiro. Foi constatado que essas famílias alugam quartos pelo Centro mesmo para que possam passar a noite.

A equipe do Creas Centro-Sul fez o cadastro dessas famílias como forma de controle das pessoas que se encontram nessa situação e, em dezembro, foi realizada uma reunião com o Departamento de Proteção Social Especial (DPSE), Seas, Sejusc, Consulado da Venezuela, Cáritas e Conselho Tutelar para discutir estratégias de atendimento e acompanhamento dessa demanda.

A prefeitura segue fazendo o mapeamento e triagem dessa população e informou que, atualmente, esse grupo está sendo atendido no Centro Pop, unidade da Semmasdh, responsável por atender pessoas em situação de rua com alimentação (café da manhã e almoço), higienização e guarda-pertences.
A prefeitura também afirmou que tem acompanhado esse processo migratório na capital.//Em Tempo

Roberto Brasil