PROFESSOR NASSER

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felix-valois-blogdafloresta_logoA morte do professor Nasser Abrahim Nasser Neto foi um golpe duro para os estudiosos de direito no Amazonas e para o Ministério Público estadual, do qual ele fazia parte. Colhi o depoimento de duas de suas colegas e abaixo os transcrevo.

Assim falou a doutora Luciana Toledo: “O que dizer do meu convívio com o Nasser…pego-me pensando. Foi intenso, e por mais que haja durado desde o início dos anos 80, foi curto, porque dele sempre iria querer mais. Nasser era genial e pitoresco, carregado de idiossincrasias, cada uma delas construindo um pouco de uma personalidade diferenciada. Não nos considerávamos irmãos, amigos, dizíamos ser pedaços um do outro. A dor que um sentia incomodava o outro, a dificuldade que um passava machucava o outro, a injustiça que um experimentava indignava o outro. Assim fomos nós pelos anos que nos foram concedidos. Meu pedaço me fazia rir gargalhadas sonoras, ensinava-me todo dia sobre Direito e ética, com a qual sempre conviveu. Divertia-se em me ver agoniada com alguma peça que me pregava, como no dia em que pediu a todos os meus melhores amigos que fingissem haver esquecido meu aniversário. Mas ai de quem pensasse em me ferir…ele trava uma verdadeira cruzada.

Comigo era competitivo, ria das minhas dúvidas, mas de uma generosidade tamanha. Nunca, qualquer problema que eu levasse para ele seria resolvido por mim sozinha. Passava a ser problema dele também. A solidariedade que ele cobrava, e que se ressentia se não a enxergava, sabia dar de sobra.

Das histórias que dele sei passaria horas esquecidas contando. Histórias do estudioso e teórico do Direito Penal, que escreveu um livro a mão e quase sem citações. Histórias do estudante dedicado que terminava de ler um livro inteiro, rabiscando-o com observações, e comprava um volume idêntico, para começar tudo de novo. Histórias do professor realmente único, que certa vez fui buscar e encontrei saindo da sala de aula com o rosto inteiramente rabiscado de pincel, como penitência por haver errado o número de um dispositivo legal na frente dos alunos. Histórias do amigo divertido, que tudo dividia, ria e chorava junto. Histórias do homem honesto, do Promotor de Justiça idealista, vocacionado e inteiramente dedicado. Histórias do filho e irmão amoroso e orgulhoso de sua origem. Histórias, lembranças, saudade, e um eterno agradecimento pelo convívio com o Nasser”.

A doutora Lucíola Valois escreveu: “Nasser surgiu na minha vida como um bônus. A vida já havia me presenteado com a amizade da Luciana e da Rogeane. E a amizade dessas duas pessoas queridas, de tão especial, veio com bônus: a amizade do Nasser. E ser amiga dele era garantia de alegria, pois, com seu jeito único, ele nos fazia rir. Ríamos de situações, de histórias, mas principalmente ríamos de nós mesmos. Ao lado dele, confrontávamos com humor os nossos defeitos.

Ser amiga do Nasser era certeza de muitos questionamentos. Tudo queria saber. As respostas simples não o satisfaziam. Ele ia fundo, queria sempre mais. Não por uma curiosidade leviana, mas por um interesse verdadeiro pelas pessoas, fosse quem fosse. Era um ouvinte atento e sensível. Aliás, a sensibilidade era uma de suas características mais marcantes. Em sua atividade profissional, como Promotor, onde muitos muitas vezes veem o homem apenas como Réu, ele via sempre um ser humano. Compreendia o crime como fato social e tantas vezes enxergava no acusado a vítima de uma sociedade injusta e desigual.

Nasser era generoso. Todas as pessoas que tenham tido o privilégio de conviver com ele hão de concordar comigo. Inúmeras vezes presenciei o Nasser dar ajuda material a pessoas que atendia no gabinete. Bastava que a pessoa necessitasse.

Não tinha apego a bens materiais. Não tinha grandes anseios. Não sonhava em viajar ou construir uma casa. Sua alegria era estudar e transmitir o conhecimento que aprendia aos seus tão queridos alunos. E isso ele fazia magistralmente. Com alegria, teatro e irreverência. Ser professor foi com certeza a sua maior realização.

Nasser era amigo. Quando contei aos meus filhos que ele havia partido, Luciana me perguntou: “ele era muito seu amigo, né mãe?” Ao que eu lhe respondi: “Filha, eu perco um amigo e você e o seu irmão também, pois embora vocês nunca tenham precisado dele, eu dormia mais tranquila sabendo que ele existia e que vocês, como eu, sempre poderiam contar com ele”.

Do meu convívio mais próximo com ele, quando atuamos juntos na comarca de Manacapuru, tenho muitas histórias para contar. Como têm todos os que tiveram um pouco do Nasser em suas vidas. Histórias que mais parecem folclore, pela excentricidade e pelo humor, mas que são histórias reais, de uma vida breve e genial. Histórias que vou contar para os meus filhos e que vão me trazer um pouco dele cada vez que eu lembrar. Nasser se foi. O último ano não foi fácil para ele nem para seus familiares e amigos. Hoje não há mais sofrimento, apenas uma saudade sem fim”.

Fui professor do doutor Nasser na velha Faculdade dos Remédios. Com a humildade que o tempo a todos nos impõe, posso dizer, até pelo que isso possa conter de elogio, que o discípulo superou o mestre. Ele era tudo o que suas colegas disseram. Minhas saudades, professor Nasser Abrahim Nasser Neto.

Roberto Brasil