PROFESSOR NÃO QUER SER HEROI, QUER SER VALORIZADO!

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No mês que se comemora o dia das crianças e o dia do professor, dois trágicos acontecimentos renovaram a narrativa de que o professor de ensino básico é uma espécie de superheroi, mas na verdade, nossa categoria quer tão somente ser valorizada, honrada e bem remunerada.

O atentado contra crianças numa creche no interior de Minas Gerais, feita por um porteiro louco, deixou nove mortos e muitos feridos. Logo se divulgou que uma professora salvou do fogo muitas crianças, sacrificando sua própria vida. Atitude heróica e que deve ser registrada por muitas gerações, mas que não lhe cabia se houvesse um cuidado na seleção de pessoas que dão apoio as escolas e estrutura de combate contra incêndio.

Dias após, um adolescente, portando arma de fogo, entrou na sala de aula onde estudava, sacou a arma e passou a atirar em quem estava a sua frente, matou dois colegas e feriu alguns outros. Da mesma maneira, elegeram uma supervisora educacional, professora de carreira, que com coragem e habilidade emocional conseguiu retirar o jovem infrator da sala de aula e controlá-lo até a chegada dos policiais. Em programa de televisão com abrangência nacional seu depoimento emocionou todos os brasileiros com sua atitude corajosa e responsável.

Porém, o Professor não deseja ser herói, não quer ter que agir para controlar a miséria que deságua nas salas de aula, que de fato são de responsabilidade dos governantes, dos pais e da sociedade em geral.

O professor quer, tão somente, ter salários em nível de parlamentares ou seus apadrinhados, nem sempre tão qualificados. Não é justo um professor de sala de aula no ensino fundamental ganhar salário de dois mil reais enquanto um DAS 2 ou DAS 3 ou sub-secretário de Manaus ganhe mais de 10 salários mínimos, fora os privilégios, para uma jornada de trabalho de 5 ou 6 horas por dia, num ambiente climatizado, com carro e comitiva a sua disposição.

Que se troquem os salários, pague para os comissionados apadrinhados e chupins da coisa pública salários de professor, e que se pague para o professor concursado salários de comissionados e subsecretários, estes últimos, arrogantes, preguiçosos e eivados do vicio da má administração. Quanto se gasta de combustível, por mês, para abastecer os carros, comitivas das autoridades e para as lanchas que transportam os alunos da zona rural?

Quanto à estrutura de trabalho, desde a segurança nas escolas até ar condicionado que funcionam e merenda escolar,  estão cada vez mais vulneráveis e de baixa qualidade.

Recentemente, numa escola municipal da zona rural, um sujeito passou a servir voluntariamente no ambiente escolar, com a anuência do juizado da infância, que o envio para aquela escola a fim de lhe dar alguma ocupação, mas sem ter as ferramentas necessárias para verificar se era ou não idôneo para freqüentar aquele ambiente. Este sujeito conheceu os detalhes do funcionamento da escola e, na hora oportuna, furtou televisões, computadores e outros objetos da escola, tendo sido reconhecido através do sistema de imagens.

Há notícias de bananas podres sendo entregues como merenda escolar, salas sem climatização e escolas sem qualquer condição estrutural de ser escola.

Pessoalmente, quando da campanha de 2016,  informei ao prefeito de Manaus e à sua esposa do segundo mandato, que haviam salas de aula sem climatização, onde as crianças fazem tarefas manchando as paginas do caderno com suor, sofrendo o calor desumano naquelas salas de aula.

Infelizmente, entrou por um ouvido, saiu pelo outro, entrou no outro ouvido ao seu lado e saiu pelo outro também, e os professores e alunos continuam assim, convivendo com mazelas que fazem de nós, professores, heróis do dia a dia! Mas não queremos ser heróis, queremos valorização e respeito!!!!

*Ananias Gomes de Souza é advogado, jornalista  e professor

Roberto Brasil