PROBLEMAS DE MEMÓRIA

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felix-valois-blogdafloresta_logoNa Universidade de Yale, os cientistas iniciaram os testes clínicos com uma substância chamada guanfacina. O objetivo é diminuir os problemas de memória ocorrentes nos velhos e nas velhas, de todos, enfim, que entram nesta fase chamada por algum cretino, com exacerbado senso de humor negro, de melhor idade. A explicação é complicada para os leigos como eu. Parece que, com o tempo, o organismo diminui a produção da substância, causando disfunções no córtex pré-frontal, seja lá o que signifique essa expressão de conteúdo nitidamente esotérico.

Sei, por experiência própria e pela convivência com os do meu tope (como se dizia nos longínquos tempos de infância), como podem ser no mínimo desagradáveis os lapsos de memória. Meu irmãozinho Alfredo Cabral, um dos mais revoltados com a inclemência e com a crueldade do passar dos anos, não consegue gravar as regras elementares para o uso eficiente de seu computador, o que leva à loucura seu colega de escritório, Seraphim Meirelles. Alfredo, na esteira do tio do meu amigo sargento Hygino, diz que pretende morrer deixando saudades e não, alívio. E não quer nem ouvir sobre a possibilidade de passar pelo constrangimento do velho que, ingerido o Viagra e resolvido o problema, teve que tomar um reforço para se lembrar qual a utilidade do órgão sobre o qual o remédio atuara. Estava criado o Viagra-plus.

Em casa, assisto diariamente às angústias de minha companheira de tantos e tantos anos. Ela detém a medalha de ouro em esquecimento do celular e desfruta de posição privilegiada no ranking de perda das chaves e de deixar lâmpadas ligadas desnecessariamente. Só não esquecemos, nem ela nem eu, da obrigação quase sagrada de paparicar os netos que, conscientes de sua onipotência, desfrutam de nossas caduquices. São soberanos. Quase soberbos.

O reforço da tal guanfacina pode melhorar esse quadro. Mas, convenhamos, os cientistas poderiam requintar suas pesquisas de tal maneira que a substância não tirasse do esquecimento senão aquilo estritamente necessário. Nenhuma necessidade existe, por exemplo, de lembrar a raiva que todos sentimos quando tentamos uma ligação pelo celular e aquela voz antipática informa que “não foi possível completar sua ligação”. Muito menos de saber que as operadoras de telefonia móvel resolveram estabelecer que uma ligação não pode continuar por mais de dois minutos.

Também não carece recordar que a internet de que dispomos é uma porcaria e que por ela pagamos um preço milionário, sem que haja qualquer vislumbre de esperança de melhoria. Reclamar só se for apelando para o humanitarismo de sua excelência, o senhor arcebispo.

Espero ainda que a guanfacina não intensifique minha recordação de que sou diariamente assaltado pelo governo para o qual pago um imposto de renda de 27,5%, além de outros penduricalhos que me levam metade do que consigo ganhar. Claro que recebo em troca ótimas estradas, um ensino público de alto nível e um serviço de saúde que pode ser encarado como propaganda de funerária.

Também não quero mais ficar sabendo que o governo petista deu outro golpe no erário e que lá se foram milhões e milhões de reais, desviados pera o mensalão ou para o petrolão, sem que os altos escalões da República deem qualquer importância aos reclamos populares. Aliás, isso traz à baila uma aplicação prática e imediata para a guanfacina: lembrar ao senhor Luís Inácio Lula da Silva e à doutora Dilma Roussef as coisas que se passaram bem ao redor deles, mas que ficaram inteiramente apagadas de suas respectivas memórias.

Mas que ela não me faça ficar recordando a imagem da criança síria, afogada em águas da Turquia, devido ao clima de beligerância que impera naquela parte do mundo, sempre fruto de inexplicável intolerância religiosa. Seria bom que a Humanidade conseguisse olvidar para sempre essas tolices que se arrastam há séculos, num movimento repetitivo e crescente, eis que a intolerância e o fundamentalismo não perdem oportunidade de mostrar suas faces ridículas.

Finalmente, quero esquecer, de forma definitiva, que no meu país existem crianças analfabetas e/ou famintas e que o governo insiste em não lhes respeitar o futuro, enganando-as com as farsas das bolsas escola e família. E isso porque não existe nenhum programa sério que reestruture o sistema educacional, muito menos algum que promova a geração de empregos, funcionando tudo na base do “deixa acontecer”. Seria bom mesmo se não estivéssemos sendo lembrados diariamente de que, há mais de uma década, o PT persevera em nos infelicitar, transformando a República em simples paróquia de seus interesses particulares, sem nenhum compromisso com o bem comum. Isso é cruel.

Seja bendita a velhice se me fizer esquecer essas coisas.

Roberto Brasil