PORQUE CHEGAMOS A ISTO

By -

felix-valois-coluna-blog

Sem nenhuma razão aparente, veio-me à lembrança o trecho de uma antiga canção brasileira, em que o autor assim filosofa: “Por isso, não adianta estar no mais alto degrau da fama, com a moral toda enterrada na lama”. Feitas as ressalvas quanto ao valor poético da composição, tenho que seu afloramento foi consequência dos tempos que vivemos. Não há dia em que não surja um escândalo; é impossível passar uma semana sem que os jornais revelem o número de mandados de prisão expedidos e cumpridos. As operações espetaculosas recebem nomes bíblicos e/ou supostamente científicos, mas seu ponto comum é a suposta descoberta de que altos figurões da República estão ou estiveram envolvidos em alguma atividade ilícita. O que, se de um lado excita a ânsia de combate à corrupção, de outro dá ensejo a que, em nome dessa bandeira, as garantias individuais sejam desrespeitadas, fazendo-se tábua rasa da Constituição e das regras de processo devido e legal.

É inegável que os treze anos de governo petista nos conduziram a esta situação de calamidade. Só para lembrar, vou transcrever abaixo parte de um artigo que aqui publiquei nos idos de 2011. Foi assim:

“Dá-se o seguinte: a economia dos Estados Unidos da América está capengando, ao que pude perceber em razão de insondáveis mistérios que também rondam a comunidade europeia. Apesar disso o Brasil tem comprado títulos do tesouro norte-americano em quantidade acima do comum, ficando atrás, nessa atividade, apenas da China e do Japão. Qual é o significado dessa mutreta? Como tenho respeito pelo público, vou deixar a resposta com o professor Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). O repórter do Terra Magazine lhe formulou a seguinte pergunta: “O Brasil tem títulos da dívida. O que o senhor acha dessa prática financeira?” Eis a resposta: “Ah, sim. Isso mostra a estupidez da política brasileira. Porque o Brasil é o maior comprador de títulos do tesouro norte-americano, antes dele, só a China e o Japão. Isso é um absurdo”.

O repórter insistiu: “Por quê?” E ouviu isso: “Nós atraímos uma quantidade enorme de capitais de curto prazo especulativos para dentro do Brasil. Esses dólares que entram a mais no Brasil vão parar nas reservas do Banco Central. O BC emite dívida pública brasileira e paga 12,25% de juros e aplica em títulos do tesouro norte-americano que, na melhor das hipóteses, são 2% ao ano. O Brasil contrai essa dívida que só rende 2% e, ao mesmo tempo, paga 12,25%. Um dos piores negócios do planeta. Estamos fazendo isso em escala colossal e aumentamos nossa dívida por causa disso. Isso é de uma estupidez monumental”.

Só podia dar no que deu. Já no ano passado, menos de um lustro depois daquela operação de comércio internacional, todos se recordam de qual era a situação do país: inflação e desemprego em alta; o governo federal capengando entre as, digamos, idiossincrasias da sra. Dilma Roussef e a visível falta de governabilidade. Tudo a conduzir, como era inevitável, ao impeachment presidencial, numa tentativa de fazer com que o Brasil volte a ocupar um patamar decente na escala de desenvolvimento.

Continua-se a falar (e eu até chego a compreender o desespero) que foi golpe, à cata, por certo, de manchar com a ilegitimidade a atuação dos novos governantes. Em termos estritamente técnico-jurídicos, é de evidência palmar que não houve golpe nenhum. Foram seguidas as regras constitucionais, afora, é claro, aquela deprimente palhaçada de fatiar a votação no Senado, que se transformou no pior e mais vergonhoso exemplo que um ministro do Supremo Tribunal Federal poderia dar à Nação. Ademais, o que importa agora é saber se o governo Temer está à altura do desafio que buscou e se vai conseguir enfrentar essa tola onda de divisionismo que o lulopetismo vem pregando, assim como se todo o Brasil estivesse revoltado com o justo destino que foi dado aos coveiros do país. O certo é que do jeito que estava não podia mais ficar. Era irresponsabilidade demais para o meu gosto.

  1. S. FÚNEBRE – Tive o desprazer, esta semana, de comparecer ao sepultamento do corpo de um querido amigo. O doutor Pedro Augusto de Vasconcelos dias morreu, vitimado por um câncer, que o liquidou em menos de quinze dias. Em contraponto com o que acontece hoje no país, posso lhes dizer que era um homem honesto e com um senso humanitário muito profundo. A convite meu, quando fui Secretário de Justiça, ele aceitou dirigir a cadeia pública Vidal Pessoa. Encontrou um estabelecimento superlotado, mas se empenhou, sempre e sempre, no sentido de que a dignidade dos presos fosse respeitada. Nós, da Sede, da qual ele era fundador, estamos de luto, tanto quanto sua família. Pedrinho vai nos fazer muita falta, mas encontraremos lenitivo proclamando que perdemos um amigo digno e honrado. Que coisa brutal é a morte!

 

Mario Dantas