População continua sendo prejudicada pela falta de calçadas em Manaus

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Calçadas de Manaus são retrato de descaso que começa no poder público e “contagia” muitos cidadãos (Foto: Márcio Silva)

Cinco anos após Manaus ser considerada como a capital com a pior calçada do País, conforme um estudo realizado pelo Mobilize Brasil, em 2012, a situação continua a mesma, ou até mesmo  pior do que anos anteriores. Em várias zonas da cidade, a reportagem de A Crítica encontrou  buracos, pisos escorregadios, degraus, rampas e dezenas de outros obstáculos que obstruem a passagem dos pedestres. O fato levanta discussões e há até quem propõe ao poder público municipal a elaboração de um projeto em conjunto com moradores para a confecção do calçamento de pelo menos das ruas e avenidas principais dos bairros da cidade. 

Este pensamento é do radialista Hélio Ferreira ao perceber todos os dias o descaso de moradores e órgãos fiscalizadores com as calçadas. “Há tempo venho observando as dificuldades que os pedestres enfrentam diariamente quando circulam pelas ruas ou avenidas dos bairros de Manaus. Lamentavelmente alguns moradores ignoram as leis construindo escadas, garagem ou mesmo ampliando sua casa. O resultado é eminente: pessoas são obrigadas a transitarem na rua correndo risco de acidente. No meu ponto de vista, isso só ocorre por falta de fiscalização dos órgãos municipais”, disse.

Num rápido giro pela cidade é possível notar que onde falta fiscalização sobra desrespeito (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Para Ferreira, as calçadas deveriam ser padronizadas com a medida de pelo menos 1,5 metros de largura como determina a Lei, oferecendo assim as condições ideais para trânsito de pessoas, especialmente idosos, crianças e cadeirantes. E a responsabilidade pelas mesmas é mista – dos moradores e da prefeitura – que deveriam se unir para resolver o problema. “Tentei agendar uma reunião com o prefeito, moro A poucos metros de seu gabinete, mas infelizmente existem algumas pessoas que não deveriam exercer cargos se não tem habilidade de lidar com o público”.

A doméstica Creuza Alves de Souza, 68,   moradora da Compensa, na Zona Oeste, reclama das obstruções das calçadas pelos vendedores ambulantes e lojistas e conta que chegou a cair por causa dos buracos e desníveis presentes nas calçadas. Para ela, é um perigo andar a pé pelas ruas do bairro, principalmente as mais movimentadas. “Não podemos caminhar com segurança, pois o risco de tropeçar e cair é grande. E os vendedores ainda tomam conta das calçadas. Não tiraram os camelôs das ruas lá do Centro? Deveriam fazer isso aqui também”, comentou.

Comerciantes utilizam as calçadas existentes como parte do negócio e os pedestres ficam sem o direito de ir e vir (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Transitar com autonomia e segurança também é um desafio para os moradores do bairro Santo Antônio, na Zona Oeste. Em muitos lugares, as calçadas foram invadidas por construções de residências ou servem até mesmo de estacionamento. Quem precisa passar todos os dias com criança ao lado não é fácil, que o diga a técnica de enfermagem Beatriz Lima, 31, que deixa e busca a filha Sofia, 5, na escola. “São muitos buracos e defeitos. E às vezes ainda tem os carros estacionados fazendo com que a gente compartilhe o espaço dos carros. Com criança isso é um perigo”, afirmou.

Jaime Kuck, Presidente do CAU/AM

Manaus tem um grande problema de entendimento com relação à responsabilidade das calçadas, na opinião do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU/AM), Jaime Kuck. Ele explica que o Plano Diretor da cidade coloca essa responsabilidade ao proprietário da residência, que não tem entendimento nenhum e faz a calçada do seu jeito. Mas, a rigor, a calçada é um espaço público e quem cuida desses locais é a administração pública, neste caso, municipal.

“Então tem esse impasse. Mas quem tem conhecimento técnico para construir as calçadas é o poder público, ele não pode impor ao proprietário privado a responsabilidade sobre a qual não tem entendimento. Isso é um absurdo, pois ele vai fazer calçadas como vemos hoje, com pavimento inadequado, escorregadio, com escada, desnível, entre outros que se tornam um problema para pessoas com deficiência, idosos, crianças e pessoas em geral”, disse.

Outro problema apontado por Kuck é a falta de execução do Plano de Alinhamento do Passeio Público. “Esse plano foi previsto pelo Plano Diretor de 2003, quando foi dado prazo de cinco anos para que fosse executado, portanto até 2008, o que não aconteceu. Em 2013, a atualização do Plano Diretor veio com a mesma história, mais cinco anos para implementação, estamos de novo finalizando esse prazo e nada. E a cidade continua nesse caos que reflete na qualidade de vida da população”.

(Com PORTAL A CRÍTICA)

Roberto Brasil