Pesquisadores tentarão desvendar mistérios dos botos

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Considerado um dos símbolos da Amazônia, os botos – tanto o rosa (Inia geoffrensis), quanto o tucuxi (Sotalia fluviatilis) – ainda são considerados um mistério pelos pesquisadores que estudam o bioma amazônico.

Apesar de serem vistos com alguma frequência e serem fonte de diversos mitos dos povos tradicionais, ainda existe pouca informação científica disponível e confiável sobre esses animais. Na lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN (um banco de dados que mostra o status de conservação de diversas espécies animais do mundo) o Inia geoffrensis é classificado como Data Deficient, ou seja, “dados insuficientes”.

Para tentar resolver este problema – e também garantir a conservação desta espécie – um grupo de 10 pesquisadores, de 5 países amazônicos (Peru, Bolívia, Colômbia, Equador e Brasil), se reúne em Manaus (AM) na próxima semana, para pensar em maneiras inovadoras de gerar conhecimento científico sobre os botos amazônicos e como usar esse conhecimento para criar estratégias de conservação mais eficazes.

Coalisão

O workshop Estratégias Regionais para Estudo e Conservação dos Botos da Amazônia ocorre no Amazon Ecopark, um hotel de selva localizado nas proximidades de Manaus, e vai reunir, entre os dias 12 e 14 de junho, especialistas de diversas instituições como Instituto Mamirauá (BR), Fundación Omacha (COL), FaunAgua (BOL), Pro Delphinus (PER) e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CEPAM/ICMBio).

Participam do evento, ainda, profissionais dos escritórios WWF de Brasil, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.

A programação do workshop vai priorizar a troca de experiências, a identificação de pontos fortes e fracos na conservação dos botos realizada hoje em toda a Bacia Amazônica e a articulação de uma coalisão regional, sulamericana, para gerar conhecimento sobre os botos e desenhar estratégias de conservação integradas.

Tecnologia

Segundo um dos organizadores do evento, o especialista de conservação do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira, o encontro terá um forte viés tecnológico também.

Ele contou que a ideia é trazer, para a América do Sul, a tecnologia das “tags satelitais” – uma metodologia que consiste em colocar “localizadores” nos botos. Esses equipamentos permitirão o monitoramento da localização dos animais em tempo real, via satélite. O objetivo é estabelecer padrões de comportamento, como deslocamento, área de vida, quanto tempo permanecem nos ambientes, diferenças entre machos e fêmeas e como projetos de infraestrutura, como barragens, podem influenciar nos padrões naturais dessas espécies.

“Nossa meta é instalar 5 localizadores em bacias hidrográficas estratégicas nos 5 países. Vamos começar a instalar os primeiros sensores satelitais na primeira quinzena de outubro deste ano”, afirmou.

Marcelo acredita que o uso de tecnologia é “fundamental” para a aquisição de novos conhecimentos sobre os botos. “Além disso, queremos reunir esses pesquisadores para formar um grupo de governança e formatar uma iniciativa regional de conservação desses animais”, explicou.

O WWF-Brasil também possui um projeto que usa veículos aéreos não tripulados – os drones – para monitorar botos. “Tudo isso faz parte do nosso esforço de gerar informação sobre esta espécie e assim, protegê-la com mais eficiência”, disse o especialista.

Botos na Amazônia

Os estudos científicos mais recentes mostram que existe, hoje, quatro espécies de botos na Amazônia: 3 vivendo na bacia dos rios Orinoco e Amazonas, e uma vivendo na Bacia Araguaia-Tocantins.

Das 4 espécies amazônicas, uma é classificada pela lista da IUCN como “vulnerável” (a Sotalia fluviatilis) e uma segunda, a Inia geoffrensis, faz parte do grupo de “dados insuficientes” – ou seja, não há informações suficientes para avaliar sua situação ecológica. Uma terceira espécie, a Inia boliviensis, é endêmica da porção boliviana do bioma, e também tem poucos dados científicos disponíveis.

A quarta espécie (Inia araguaiaensis) foi descoberta na bacia do Rio Araguaia em 2014, se tornando uma das mais interessantes descobertas de biodiversidade de anos recentes. Acredita-se que ela tenha surgido há mais de 2 milhões de anos atrás, quando a bacia dos rios Araguaia e Tocantins se separaram da Bacia Amazônica.

Problemas

Nos últimos anos, ameaças aos habitats e à sobrevivência dos botos tem aumentado por toda a Amazônia. Grandes projetos de infraestrutura, como hidrelétricas, estão modificando a circulação desses animais dentro do bioma, e a extração de ouro e petróleo contamina as águas e prejudica os animais.

Espécie que ocupa o topo da cadeia alimentar de onde está, os botos também são perseguidos por pescadores, tanto por engano quanto propositalmente, já que são utilizados como isca para pesca da Piracatinga (Calophysus macropterus).

Eles também são fonte de diversos mitos para as populações tradicionais: na Colômbia, eles são respeitados por, em tese, terem “poderes mágicos”. No Brasil, são famosas as histórias de que ele se torna um rapaz atraente que engravida as jovens ribeirinhas.

(Com PORTAL A CRÍTICA)

Roberto Brasil