Parlamentares sofrem agressões em Manaus

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A violência contra a mulher no Brasil e, especificamente no Amazonas, tem crescido assustadoramente nos últimos anos e mesmo tendo um mecanismo que tipifica todo e qualquer violência contra o sexo feminino – a lei federal 11.340/06, mais conhecida como “Maria da Penha” – a agressão, a hostilidade e a opressão muitas vezes camuflada, não se vê apenas nas ruas e nos inúmeros lares do país, mas também pode ser sentida no Legislativo por parte das mulheres parlamentares.

Foi o que ocorreu na última semana na Câmara Municipal de Manaus (CMM), com a vereadora Joana D’arc (PR) durante um protesto de taxistas que pediam a regulamentação urgente do aplicativo Uber na capital.  Na ocasião, ao dirigir-se para conversar com o grupo de taxistas que se encontrava na galeria da casa, a parlamentar foi recebida com todo tipo de xingamentos, gestos obscenos e até mesmo ameaça de morte. O motivo seria por conta de Joana ser a favor da implantação do serviço Uber na cidade. Mas a vereadora não é a única da Câmara municipal a apoiar o serviço. Outros parlamentares, que também saíram em defesa do aplicativo, não sofreram nenhuma agressão verbal como a colega.

Vereadora Joana D’Arc

“Nunca imaginei passar por tal situação. Percebi que eles agiram contra minha pessoa simplesmente pelo fato de eu ser mulher. Durante meu pronunciamento na tribuna, tive que parar e recomeçar meu discurso pelo menos três vezes, pois eles não paravam de me xingar de ‘prostituta’ e outras palavras baixas”, disse a vereadora que destacou ainda estar amedrontada com o ocorrido.

Após sair do seu expediente de trabalho, Joana ainda se deparou com seu carro com a lateral completamente arranhada e disse temer que algo pior possa acontecer. Em busca de soluções e segurança, ela disse ter recorrido à Comissão de Defesa e Proteção dos Direitos da Mulher na Câmara, e que já deu entrada nos recursos jurídicos para identificar os infratores de todas as ações contra ela.

“Quando me deparei com os arranhões no meu carro, percebi que as ofensas do plenário tomaram um outro rumo, deixando de ser somente verbais e realizadas por meio de ações. Meu medo maior é porque, na Câmara, não temos policiamento como na Assembleia Legislativa, e minha equipe é toda formada por mulheres, o que, de certa forma, nos deixa à mercê se outra ação pior vir a ocorrer”, lamentou a vereadora.

Ela ainda afirmou que esta foi a primeira vez que sofreu uma agressão com estas proporções, mas que há tempos já percebeu que ser mulher no meio político não é uma tarefa fácil, e que muitas vezes, o desrespeito ocorre não por meio de agressões, mas com assédios e cantadas.

“Não é fácil. Nossa briga é diária. Sofremos com a dificuldade de apresentar projetos na tribuna, de nos impor, e quando fazemos isso, somos criticadas, dizem que estamos querendo ‘fazer cena’. Esses bloqueios também acontecem em eventos. Alguns homens acham que, pelo fato de ser mulher, podem dar em cima de mim, ficar com piadinhas e cantadas. Infelizmente, isso é muito comum”, relatou.

Durante a semana, a reportagem procurou a presidência da Câmara e, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que medidas cabíveis somente poderão ser tomadas se a parlamentar ingressar com uma representação.

Carro blindado

Dep. Alessandra Campêlo

A deputada estadual Alessandra Campêlo (PMDB) também convive com o medo da violência no Parlamento. Após revelar que está recebendo constantes ameaças de morte, ela passou a usar carro blindado.

Segundo a deputada, as ameaças surgiram logo após ela acusar membros e aliados do ex-governador José Melo (Pros) de ter arquitetado o assassinato do militante do PDT, Alessandro Gomes, morto dias após protestar e jogar notas falsas no rosto do governador cassado, durante a leitura da mensagem governamental na abertura do ano legislativo em fevereiro de 2016.

Alessandra é a única mulher entre os 24 deputados da casa e acredita que por não haver representatividade feminina no Parlamento, especialmente no Amazonas, as mulheres acabam enfrentando uma violência institucional praticada pelo próprio Estado.

“Somos um Estado com mais de 4 milhões de habitantes e, pasmem, com apenas uma Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher. Na saúde, nossas mulheres, principalmente no interior, não têm acesso a direitos básicos, como exames médicos, consultas, mamografia, educação e oportunidades de trabalho”, criticou.

Para reverter essa situação, a deputada destacou que é necessária maior participação das mulheres na política e que para isso acontecer, os partidos devem fortalecê-las e incentivá-las nas campanhas eleitorais, que ainda deixam muito a desejar.

Luta

Sen. Vanessa Grazziotin

Única representante do Amazonas no Senado Federal, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) também já foi alvo de agressões físicas. O caso mais recente ocorreu no da 1º de setembro do ano passado, quando ela embarcava no aeroporto de Curitiba (PR).

À ocasião, ela foi agredida dentro do avião por um membro do Movimento Brasil Livre (MBL), que tentou arrancar seu celular e fez com que a senadora batesse a cabeça em uma das poltronas. Apesar da violência sofrida, Vanessa destaca que a luta das mulheres no Parlamento tem conseguido vários avanços na sociedade, mesmo que o esforço e trabalho tenham que ser redobrados para a aprovação de projetos.

“É importante destacar que a sociedade em que vivemos ainda é um local em que a mulher é bastante discriminada. A lei que predomina é a que o homem manda e a mulher obedece. Mesmo assim, já tivemos grandes vitórias, aprovamos a Lei Maria da Penha e, recentemente, também aprovamos a Lei do Feminicídio, após um forte movimento da bancada feminina”, pontuou a senadora.

Roberto Brasil