OBRIGADO, COMANDANTE!

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felix-valois-blogdafloresta_logoEm 2008, escrevia eu em “O Repórter”, um semanário alternativo, que viveu graças à dedicação dos jornalistas José Maria Castelo Branco e Orlando Farias, este, infelizmente já falecido. Naquele ano, o presidente de Cuba, Fidel Castro, se afastou do poder, recolhendo-se à aposentadoria. Publiquei, então, uma crônica curta, com o título acima. Eis o texto de quase uma década:

“É justo, guerreiro, que vás para o repouso. Afinal, comandas a luta há mais de meio século.

As gloriosas páginas que, com Guevara, escreveste em Moncada e Sierra Maestra foram alento para os da minha geração que sempre buscaram uma sociedade justa e igualitária, livre da exploração do homem pelo homem.

Não te curvaste ao gigante e a altivez de teu povo soube dar resposta firme às agressões e às provocações dos que se intitulam senhores do mundo.

Sais agora, alquebrado pela inclemência do tempo. Como disseste, sem apologética, mas, também, sem autopiedade.

E gralhas e abutres já se fazem ouvir. Até parece que, com tua saída, o povo cubano será alvo fácil para a rapinagem daqueles que se comprazem com a miséria humana, porque dela sempre viveram e com ela sempre engordaram suas burras.

Ledo engano. Como lembrava Jorge Amado, não volta atrás quem um dia abriu seu coração para o mundo e soube compreender o que é o verdadeiro sentimento de solidariedade, sem o qual não podemos ser considerados humanos.

Construíste uma nova sociedade. Erradicaste o analfabetismo e a fome, forjando teu povo nos ideais da mais sublime fraternidade socialista.

Entre teus erros computo um, gravíssimo: nenhuma justificativa para a manutenção da pena de morte, esse quisto jurássico que o direito penal moderno tenta extirpar. Mas a História vai ponderar teus erros e acertos, e estes hão de pesar muito mais na balança.

Sais coberto de glória e envolvido pelo manto de respeito de todos os verdadeiros democratas do universo, que te veem como o estadista e como o guia de teu povo.

Assim, mesmo em teu merecido repouso, podes ter certeza de que tua vida, tua presença e tua história sempre farão ecoar a advertência, quase prenúncio, com que o imortal Pablo Neruda coroou a saga dos teus feitos heróicos: “Abrid los ojos pueblos oprimidos; en todas partes hay Sierra Maestra”.

Muito obrigado, Comandante Fidel Castro. Pela ternura e pela esperança; pela vida, mesmo. Aquela que, para ser vivida, “hay que merecerla”.

Agora, Fidel morreu e eu não vejo motivo para retirar ou alterar uma vírgula que seja do pensamento que externei. Sei que dois jovens de mim muito queridos não concordam comigo. José Carlos Cavalcanti Junior, o Juninho, meu ex-aluno, ponderou algo mais ou menos assim: “Não consigo entender a grandeza do Fidel”. E meu filho Alfredo chegou a me dizer que o cubano tinha sido responsável pela eliminação de dez por cento da população da ilha caribenha.

Óbvio que lhes respeito as posições. Ao contrário de muitos “veneráveis juristas” da modernidade, nunca pretendi deter o monopólio da verdade. Tem esta muitas faces e, em se tratando, como no caso, de uma figura histórica, seria ingênuo (para não dizer tolo) pretender a unanimidade. Júlio Cesar foi um conquistar grandioso ou apenas um guerreiro sanguinário? Cristóvão Colombo foi um navegador visionário que reconstruiu o mundo ou somente um oportunista que, amparado por benesses reais, saqueou as riquezas das Américas? Que respondam os especialistas. Posso apenas dizer, em relação a Fidel, que minha geração se embalou em sua luta revolucionária e com ele ansiava pelo estabelecimento de novas condições de vida para milhões de operários e camponeses.

Se é verdade, como reconhece o vulgo, que não se faz omelete sem quebrar ovos, forçoso é reconhecer que houve sérios percalços no processo de libertação do povo cubano do jugo do imperialismo. O ideal era mudar radicalmente e hoje até o mais histérico reacionário é obrigado a reconhecer que a ilha erradicou o analfabetismo, todas as crianças estão na escola (e não nos semáforos) e a medicina preventiva alcançou níveis exemplares. Onde era escuro, fez-se a claridade. Onde havia exploração, implantou-se a solidariedade. Onde havia fome, surgiu a saciedade. Onde havia o jugo, brotou a liberdade.

Por isso, com perdão dos que não me compreendem e até dos que me execram, tenho que repetir, insistir e proclamar: obrigado, comandante Fidel Castro. Valeu a luta. O sacrifício não foi em vão.

Roberto Brasil