O VENTO E A MANDIOCA

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Tomara que o senhor Michel Temer não inicie sua caminhada palaciana exigindo ser chamado de “presidento”. Seria apenas uma impropriedade filológica, mas bem significativa como o foi a praticada pela senhora Dilma Roussef quando, empolgada pela aposição da faixa presidencial, começou um segundo governo repleto de equívocos e trapalhadas linguísticas, que oscilavam entre o ridículo e a estupidez.

Não me entendas mal, escasso leitor. Não estou tripudiando sobre os vencidos, até porque não vejo nenhum motivo para espocar fogos de artifício ou beber champanhe. Nada disso. O país está muito doente e, francamente, não sei se a medicação que lhe estão ministrando é a mais eficaz para o combate à patologia. Dizem-me que é a única conhecida e eu, ignorante em tais indagações (como em tantas outras), só posso torcer para que as drogas escolhidas promovam respostas positivas e imediatas do organismo combalido. Não sou, pois, o impiedoso. Apenas quero destacar que, se não é essencial para o êxito de um governante, o emprego correto do idioma, o desrespeito a este contribui, e muito, para a fragilização e ridicularização de sua figura. E isto, é impossível negar, aconteceu com a presidente afastada nesta madrugada.

Vejamos. O jornal O Globo, em sua edição de hoje, quinta-feira, selecionou trechos de pronunciamentos da senhora Roussef que, em sua maioria, dão a exata dimensão de seus transtornos. É claro que nem todos são imprestáveis. Muito ao contrário. Um, que encima o elenco, tem, de minha parte, o mais empolgante e decisivo apoio. Disse ela: “Não respeito delator. Quando você aprende Inconfidência Mineira, tem um personagem de que a gente não gosta, Joaquim Silvério dos Reis”. Ponto para a afastada. O delator, de fato, é uma figura execrável e só posso ter à conta de humor negro, o endeusamento que hoje se faz, no Brasil, da tal “delação premiada”, assim como se tivéssemos inventado a roda em matéria de investigação criminal. Delator é alcaguete e, por definição, não presta.

Mas nem tudo eram flores na embolada retórica presidencial. Referindo-se à bola, esse prosaico objeto que entrou sete vezes no gol da seleção nacional, a senhora Roussef deu-lhe status de magnificência, afirmando que a bola é “símbolo da nossa evolução porque nós nos transformamos em homosapiens ou mulheres sapiens”. Oh, minha senhora, o que lhe fez Charles Darwin de tão grave para merecer, em seu repouso tumular, ofensa desse jaez? Eu, que jamais tive a pretensão de ser um velho sapiens, fiquei abismado com o efeito deletério da tolice presidencial quando a Heleninha me perguntou: “Vovô, eu sou uma neném sapiens”?

Até nas relações matrimoniais do “aedes aegypti” se intrometeu a afastada senhora e, no episódio, revelando curiosamente uma tendência para inculpar o gênero feminino, dando-o como responsável pela proliferação dos males que hoje nos afetam. Foi assim que ela disse: “É a ‘mosquita’ que põe em média quatrocentos ovos. Se você considerar que a ‘mosquita’ transmite também, que é ela que pica, que ela que provoca a contaminação, há um grande risco de a criança ter microcefalia”. E assim a Nação ficou sabendo que, enquanto o senhor mosquito cumpre seu papel de respeitável pai de família, a senhora mosquita (que grande sem-vergonha!) sai por aí a dar suas inúmeras picadas, sem ter a mínima consideração com a saúde alheia. Não é uma mosquita sapiens.

A preservação do ambiente também entrou na linha de conta das preocupações presidenciais. Os ecologistas (alguns deles a merecer, com louvor, a denominação de ecochatos) hão de se ter regalado quando a senhora Roussef acenou para a possibilidade de encontrarmos mecanismos de limpar e baratear a energia, de tal maneira que tenhamos condições de pagar, no fim do mês, a conta (hoje estratosférica) que a Amazonas Energia nos apresenta. Assim ponderou Sua Excelência: “A energia hidrelétrica é mais barata. O vento podia ser isso também. Mas você não conseguiu ainda tecnologia para estocar vento”. Como não? E a senhora acha que havia o quê na sua caixa craniana quando criou esse quase apotegma? “O vento que sopra lá é o vento que sopra cá”, diz a canção popular. E o vento dessa tolice nos acariciou a todos.

E temos, finalmente, o glorioso episódio da mandioca. No lançamento dos Jogos Indígenas, a senhora Roussef mimoseou os gentios com esta pérola: “Nós temos a mandioca, nós estamos comungando a mandioca com o milho. E certamente teremos uma série de outros produtos que foram essenciais para o desenvolvimento da civilização ao longo do século. Então, estou saudando a mandioca”. Ave, mandioca. Jerimum, macaxeira, todos Ave. Ave a minha burrice que nunca me permitiu entender a importância da mandioca e de seus congêneres para o evoluir do ser humano.

Assim se passaram cinco anos, quatro meses e onze dias. A bola, o vento, a mosquita e a mandioca tiveram seus momentos de glória, coisa que já não se pode dizer do povo brasileiro. Será que vai mudar agora? Para ser absolutamente sincero não tenho completa certeza de que se aplique, sem restrições, a afirmativa popular de que “pior do que está não pode ficar”. Claro que torço por isso. Que o meu país se reencontre e que possamos continuar cantando: “Pátria amada, idolatrada, salve, salve”. E que compreendamos, de uma vez por todas, que as desigualdades sociais não serão superadas nunca com medidas paliativas e de caridade franciscana.

Mario Dantas