O ROSTO MATERNO

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Ademir-RamosAinda é tempo, faça e veja o quanto é belo admirar e se deixar levar pela força arrebatadora do rosto materno. Alguns dirão que isto não é mais possível pela fatalidade do presente, no entanto, as lembranças imprimem na memória representativa imagens inesquecíveis que nos permitem não só ver mais sentir o belo rosto materno quando agregamos nesta relação momentos de alegria, tristeza e de encontro. Na manhã de domingo de Pentecostes ao avistar minha mãe pude me surpreender com tamanha alegria em seu olhar e uma face contemplativa a projetar paz e muita ternura, a se traduz em confiança, coragem e retidão que sempre nos ensinou.

 

Não sei se fui eu que mudei, dando mais atenção aos pequenos gestos das relações afetivas e fraternas frente aos fatos que se impõem sem que percebesse pelo embrutecimento “da falta de tempo” a beleza objetiva e presencial do rosto materno. Por esta razão é necessário sempre nos questionar sobre os valores afetivos e sociais na perspectiva de assegurar o que temos na sua integridade para que mais tarde não lamentemos a perda e com certa frustação sinta-se culpado de não ter se doado inteiramente em suas relações em vida.

 

A luz, a beleza e o rosto contemplativo que vi fez com que me reportasse a toda trajetória de vida, de luta e trabalho que nossa mãe e meu pai enfrentaram para criar, alimentar e educar o Ramos numa perspectiva moralmente justa e socialmente responsável. Ela sempre nos projetava para novos horizontes, motivando, cobrando, alertando sobre os males da vida e do mundo e de forma objetiva se posicionava com determinação e coragem de forma destemida em defesa de seus filhos e filhas.

 

Dos seus atos abstraíamos lições de vida, quando afirmava em alto bom tom, “é verdade que nós somos pobres, mas saibam que não somos sujos”. E assim, tanto o Pai como a Mãe nos conduziam nos estudos e no trabalho imprimindo em nossas condutas lições para toda a vida. Com apenas o terceiro ano primário, nossa mãe cuidava de nossa formação. Lembro-me como se fosse hoje, ela todo início de ano escolar prepara os nossos cadernos comprando papel almaço para cortar ao meio e assim fazia os cadernos com capa dura para os apontamentos escolares além de encapar os nossos livros e cuidar também de nossas fardas.

 

Não bastasse tomava conta da casa e nos colocava para auxiliar nas lições domésticas

quanto à limpeza e o cuidado das hortaliças que tínhamos no próprio quintal. Com apenas um ovo às vezes fazia o milagre do pão para alimentar todo clã além dos agregados que em nossa casa abrigava e os tratava como filhos e com eles aprendíamos muito, pois, quase sempre eram mais velhos que nós. A nossa Mãe sempre foi uma dona de casa, na acepção da palavra, não havia desperdiço, tudo era aproveitado, do sebo das carnes aproveitava-se para fazer o sabão, das gorduras animais fazia o óleo e das hortaliças os pratos mais variados como berinjela recheada e outras iguarias. As frutas do quintal eram todas aproveitadas em doces e sucos.

 

Nossa Mãe traz lembranças presenciais que se eternizam e nos faz pensar o quanto somos às vezes insensíveis por não valorizar o pouco ou o muito que nos deu de forma gratuita. Aprendi no curso de minha trajetória social que o tempo é implacável, por esta razão devo priorizar o que temos de mais sagrado – as nossa relações familiares, a se estender na vizinhança e na rede de amigos – às vezes conturbadas não por si mesmas, mas pela circunstância que muitas vezes nos encontramos socialmente marcados pela competição. Nossa Mãe, nosso Pai são personagens da nossa história, deles herdamos não só a herança genética, mas os ensinamentos, saberes, valores e lembranças que até hoje vivos ou mortos povoam a nossa memória afetiva a se manifestar na cama, na mesa e no canto. O rosto materno em si é um ótimo pretexto para que façamos uma profunda reflexão do presente e das veredas que buscamos trilhar sem perder a beleza das rosas, a ternura e a singeleza de amar enquanto é tempo.

Roberto Brasil