O QUE DIRIA PRO SEU FILHO SE PROFISSIONALMENTE OPTASSE POR SER PROFESSOR

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Ademir-RamosHá poucos dias atrás um pai de família, amigo meu, me procurou para discutir, segundo ele, um grave problema. Depois das introdutórias, ele passou a narrar a preocupação que lhe consumia. Saiba meu amigo, que o meu filho mais velho quer ser professor e os pontos que ele fez no ENEM lhe dá direito de optar por outra profissão, mas ele quer ser professor talvez por causa da influência da mãe, que é professora das antigas. Peço-lhe desculpa, eu sei que tu és professor, mas a carreira profissional do magistério do ensino básico ao nível superior não é promissor para que tenhamos uma aposentadoria tranquila. Eis a questão: O que tu achas disso tudo?

Inicio falando dos “professores da antiga”. Pois é, meu amigo será que no passado os professores tinham condições de optar para o exercia do magistério ou seguiam os moldes da cátedra, quando o pai ou a mãe afastavam-se do ofício designavam o filho ou a filha para a função que o exerciam. As funções de Estado eram regidas por força das relações de parentescos e pela cultura patrimonialista centrada num determinado centralismo de poder. Não havia concurso público, o acesso à escola e a universidade não era para todos e o campo de trabalho era muito restrito.
O fato é que, com o desenvolvimento das forças produtivas do capital e com a inserção do Brasil no processo de industrialização, o trabalho do professor foi pouco a pouco se desvalorizando, principalmente, a partir do momento em que a União – o governo federal – empurra de barriga para os estados e municípios a competência privativa do ensino básico, ficando a União com a competência das Escolas Técnicas e o nível superior. Os estados e municípios com pouco recurso e orientado por uma cultura dos bacharéis não priorizaram a educação e muito menos a valorização do magistério, criando desta feita uma grande lacuna entre os servidores do judiciário, legislativo e o poder executivo.

– Então, o que me dizes da opção do meu filho, não é pra se preocupar, pergunta o pai em tom de reflexão.
É, meu caro, não bastasse tudo isto, a política de massificação do ensino com o slogan “escola para todos” impulsionado pelas agências financiadoras internacional, em sincronia com a lógica produtivista do capitalismo, transferiu para o mercado a seleção dos trabalhadores criando uma falsa consciência de que bastava o diploma para ter a acesso ao trabalho. Com isto, a Escola e as Universidades Públicas foram sucateadas, bem como seus professores e demais trabalhadores da educação, criando as condições favoráveis para a privatização da educação, empobrecendo não só os professores mais toda classe trabalhadora.

Meu amigo eu sei de sua aflição, mas saiba, que nós professores não temos nem ouro e nem mirra, mas temos um capital intelectual capaz de transformar o mundo e no embate das lutas sociais somos capazes de construir pontes e de forma coletiva garantir condições materiais para que se viva dignamente numa sociedade justa e igualitária não mais como quimera, mas como um projeto em construção efetivamente histórico.

Roberto Brasil