O POETA NA CAVERNA DE PLATÃO

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Ademir-Ramos

Bem diferente de Homero que todos cantavam o seu nome por ser o mestre e o educador da Grécia inteira. O personagem desta narrativa, o Poeta por antonomásia, louvado não pelo nome, mas pelo título, pouco se sabe da sua origem social, étnica ou quilombola, desconhecendo até mesmo seu nome de batismo se batizado foi a criatura. Sabe-se que ele é um brasileiro nordestino, despossuído de qualquer salário, carreira e titulação. O Poeta responde por este nome no Campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), não por cultivar a arte da poesia, mas, por encarnar a ética dos filósofos pré-socráticos que por meio de aforismo sarcástico e hilário faz rir ou chorar sua preza quando laçada nas teias do seu pensamento. Diferente de certos mestres e doutores encerrados na caverna dos Departamentos de Ensino, a exaltar o monopólio de suas Escolas Acadêmicas como verdade verdadeira no campo das ciências semelhantes aqueles homens da Alegoria de Platão, que tem seus pescoços e pernas presos de modo que permanecem imóveis e só veem os objetos que lhes estão adiante.

Fora dessas grades do pensamento, o Poeta, assim como os sofistas, passa também a soprar aforismos relativos ao latifúndio da ciência instalado nos feudos departamentais desconectados das questões sociais e da própria história do seu (nosso) tempo porque, segundo ele: “A ignorância dos homens destas eras/ Sisudos faz ser uns, outros prudentes/ Que a mudez canoniza bestas feras.”

CABRA DA PESTE: O Poeta é uma dessas representações que se faz notar também em outras Instituições de Ensino Superior às vezes como livreiro, alunos, ex-alunos e agregados que se firmaram nas lutas estudantis e no próprio movimento cotidiano das Universidades, adquirindo legitimidade para circular nas Academias com certa desenvoltura participando das Assembleias e dos segmentos de estudo com propostas e questões referentes ao valor e o processo dos movimentos das ideias à revelia do poder das direções acadêmicas. Esta relação com o poder das instituições tem sido bastante tensa e muitas vezes carregada de preconceitos, sobretudo, a partir das instituições. Por aqui também não é diferente.

Contudo, é importante que se diga que o Poeta é um personagem de carne e osso com menos de 40 anos. Na década de noventa enquanto servia o Exército ingressou no curso Ciências Sociais, foi quando adquiriu a legitimidade de operar na UFAM como agente intelectual de articulação. Terminado o curso sem colar grau e muito menos atentar para as exigências legais, o Poeta ficou agregado ao Núcleo de Ciência Política contrariando a vontade e o interesse dos “bestas feras” de acordo com o aforismo de referência, fazendo suas pesquisas e oferecendo seus préstimos na formatação de trabalhos acadêmicos de onde capta alguns trocados para manter o viço de um Cabra da Peste que “ama e persegue sua presa,” diz ele. Nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, de onde guarda feliz memória afetiva e degustativa quase sempre recorrente.

O Poeta é um homem com aparência não convencional todo cheio de cadencia no andar, não bastasse, em pleno calor dos trópicos usa camisa de mangas compridas com camiseta por baixo, dizendo o Cabra que é para se proteger de “picadura de inseto”. Há anos usava uma das salas dos professores do Departamento de Ciências Sociais de onde foi destituído por ordem superior, embora os próprios professores da sala não tenham formulado nenhuma denuncia contra o Poeta e muito menos consultado e sabido das razões do ato de expulsão do colega da sala.

O POETA E OS SOFISTAS: Se os poetas foram perseguidos por Platão na Republica é porque afrontavam o projeto político pedagógico da formação do Estado ideal. Nesse contexto está em jogo a relação de poder. Pois, de todos os poetas, o Sócrates de Platão afirmava: “A começar por Homero, que, quando tratam da virtude ou de qualquer outra matéria em suas ficções, não passam de imitadores de fantasmas, e jamais chegam à realidade”, em síntese, eles criam na verdade um mundo de mera aparência marcado por “simulacro ou fantasma”. Da mesma forma pode-se falar da relação de Aristóteles com os pré-socráticos, chamado por este de sofistas, o que não deixa de ser um modo que Aristóteles encontrou para desqualificar esses pensadores e com isso se projetar nesse universo como pensamento único e dominante.

Entretanto, sarcasticamente Pascal, na narrativa de Hannah Arendt, de forma irreverente bem nos moldes do comportamento dos pré-socráticos declarou que: “Só podemos pensar em Platão e Aristóteles sob grandes vestes acadêmicas. [Mas], eles foram homens honestos e, como outros, riam com seus amigos; e quando se divertiram, escrevendo as Leis ou a Política, fizeram-no por distração. Essa é a parte menos séria de suas vidas: a [parte] mais filosóficas era viver simples e tranquilamente.” O resgate desta afirmativa desmistifica o poder dos mandantes, implodindo a arrogância e a prepotência dos velhacos que se valendo da titulação e da função são capazes de deificar sua própria imagem para dominar o outro, humilhando ou violentando a si e os demais para afirmação do mandonismo instituído. Os velhacos ofuscados pelo poder não percebem e muito menos querem sentir que o melhor e o mais filosófico, humanamente falando, “é viver simples e tranquilamente” longe do pântano da arrogância e da empáfia dos medíocres.

DA SALA PARA O CORREDOR: Expulso da sala dos professores, o Poeta destemido cujo nome não estou autorizado a pronunciar, com aval de alguns professores, servidores e alunos resolveu então permanecer no corredor de um dos Blocos do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) esperando talvez sofrer novas agressões e ameaças para que em definitivo seja obrigado a se retirar do Campus Universitário sob Vara, considerando que o Poeta é um Cabra da Peste este ato será uma grave ofensa moral. Ele, por sua vez, é mais assíduo do que certos professores e mais prestativo do que alguns agentes da administração superior do ICHL. O fato deve ser esclarecido pela Direção do Instituto para que não pairem dúvidas sobre o ocorrido e muito menos venha macular a biografia desse livre pensador, que nada tem a perder, “a não ser a aurora da manhã e o perfume das flores silvestres que respiro todos os dias no Campus Universitário”, mas, como ele mesmo declara, recorrendo a verve indignada do Boca do Inferno: “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:/ Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:/ Com sua língua ao nobre o vil decepa:/ O Velhaco maior sempre tem capa.” Para concluir, o Poeta sarcástico como Protágoras, gesticulando, como só ele sabe fazer, levanta e olha para o horizonte afirmando com todas as letras: “Sai da minha frente, eu quero ver o sol e não a falsa consciência projetada na Caverna, que os doutos fingem ensinar aos medíocres, que acriticamente balbuciam satisfeitos como aprendizado.”


(*) É Professor, antropólogo, coordenador do NCPAM/UFAM e do Projeto Jaraqui.

Mario Dantas