O NOBEL DE LITERATURA LEGITIMA AS VOZES DOS DESERDADOS

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Ademir-RamosPelo fato de o Brasil não conhecer o Nobel de Literatura, a escritora e jornalista Svetlana Alexandrovna Alexievich, recorri aos saberes do professor e mestre Luiz Antônio Albuquerque, que viveu no leste europeu e fala com proficiência a língua da autora premiada, conhecendo como ninguém a geopolítica, as culturas e a economia da Bielorrússia e da Ucrânia. Nesta edição sou apenas o copidesque, todo mérito e crédito deve-se ao professor Luiz Albuquerque que é um dos nossos comunados do Projeto Jaraqui.

Svetlana Alexandrovna Alexievich é a primeira jornalista a ganhar o prêmio Nobel de Literatura. O reconhecimento de sua obra imprimiu legitimidade aos gritos e protestos dos sobreviventes das grandes tragédias que assolaram Bielorrússia e a Ucrânia, o constrangimento maior é que no Brasil sua obra é desconhecida pelos agentes literários. Em Portugal, ainda encontra-se uma de suas obras traduzidas –“O Fim do Homem Soviético.” Nos Estados Unidos, a autora havia sido relegada ao sebo das grandes corporações (Amazon, Barnes&Nobles etc..).

Svetlana (cujo nome significa Iluminada) vem clarear os porões dos dramas individuais daqueles que passaram por provações. Numa prática bem conhecida de nossos pesquisadores, ela constrói uma narrativa baseada na história oral dos “amaldiçoados socialmente” dando luz e voz a estes agentes.

Em seu primeiro trabalho, “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” (1985) – tradução livre – a laureada denuncia o tom machista dos relatos nas histórias da guerra. Para ela, “A guerra ‘feminina’ possui suas próprias cores, seus próprios odores, sua própria iluminação e seu próprio espaço de sentimentos. Enfim, seu próprio verbo.” De posse de um gravador foi à busca das veteranas de guerra. Descobriu, primeiramente, a diversidade de funções ocupadas pelas mulheres. Diferentemente dos exércitos ocidentais, os soviéticos usaram mulheres no front, sem distinção de funções, nem ocupações subalternas. Foi na Grande Guerra Patriótica, nome soviético dado a Segunda Guerra Mundial, que elas se notabilizaram na morte, na luta e na dor.

Muito embora na guerra e no esforço industrial soviético, as mulheres fossem tratadas como iguais, ainda é muito forte a diferença de papeis entre homens e mulheres nos dias de hoje. Ademais, os dados apontam para uma alta taxa de divórcio nestes países, como também a alta transmissão de DSTs por traição entre os casais. Quanto à homossexualidade é de pouca visibilidade social ainda. Nesta obra, a autora recolhe vários depoimentos sobre a temática, não sendo sua proposta formular uma teoria, mas informar ao leitor um panorama das razões pessoais de cada mulher na trajetória da história.

Aliás, a abordagem de relatos da Grande Guerra Patriótica é interrompida por três novos livros que buscaram abordar temas mais recentes. O “Fim do Homem Soviético” sobre a derrocada do regime soviético, “Meninos de Zinco” sobre a Guerra no Afeganistão, e sua maior obra, segundo os juízes do Nobel, “Oração de Chernobyl” encena o drama humano após a contaminação radioativa de Chernobyl.

Nesta obra, a autora registra o drama da Bielorrússia (população de 10 milhões). Para ela, o desastre de Chernobyl foi monstruoso. Depois da segunda grande guerra, que matou um de cada quatro bielorrussos; Chernobyl toma o lugar principal. Em Gomel e Mogilev (regiões mais afetadas), a taxa de mortalidade excedeu a taxa de natalidade em 20%. O saldo da tragédia: 23% do território de Bielorrússia foram contaminados por radionuclídeos com uma densidade de mais de 1 Ku/km² por césio 137. A área de terra cultivada contaminada é de 264.000 hectares. Bielorrússia é um país de florestas. Mais 26% de suas florestas e mais da metade dos prados das várzeas de Pripyat, Dnepr, Sozh também foram afetadas pela radioatividade.

Na Bielorrússia é comum encontrar pessoas jovens com deformidades e por todo canto encontra-se museu de horrores com fetos deformados e abortados, vítimas da radiação. Um curioso resultado do acidente de Chernobyl foi a insurgente consciência ecológica presente nos países atingidos. Os soviéticos, por sua vez, antigos campeões de DDT (pesticida), são atualmente um dos maiores consumidores de plantações e animais orgânicos. No Brasil, isto fica evidente pelos sucessivos embargos alimentares que eles impõem aos nossos produtos, principalmente a carne de corte.

Mas, a narrativa de Svetlana Alexandrovna Alexievich nos toca fundo e lembra-nos também das histórias dos povos indígenas do Brasil e das Américas. Vejamos: “O primeiro medo? O primeiro medo caiu do céu… Água flutuou… Eu me ajoelho… Eu vou perguntar… Encontrou nossa Sushko, Anna? Ela vivia em nossa aldeia… A aldeia Kozhushko… Nome – Anna Sushko… vou lhe dizer todas as características dela e você anota. Ela morava sozinha… Sessenta anos… Durante a deslocação levaram no carro, “primeiros socorros” com destino desconhecido. Ela não tinha estudo, por isso não temos notícias, nós nunca mais soubemos dela. Só e somente dos pacientes, que foram transferidos para abrigos maiores. Enterrada talvez. Mas não se sabe onde.”

Os tocantes relatos nos envolvem pela comoção humana de vozes embargadas e silenciadas. Rogamos aos editores brasileiros que nos brindem com uma bela tradução; até lá, posso indicar alguns bons tradutores de russo e que nossos pesquisadores da tradição oral inspirem-se a produzir relatos tão comoventes ampliando as vozes dos deserdados cultural e socialmente que foram e são silenciados em nossa história.

Roberto Brasil