O MINISTRO QUE SABIA JAVANÊS

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Ademir-RamosO genial escritor Lima Barreto, autor de um memorável conto da literatura nacional, “o homem que sabia Javanês”, reporta-se a história do malandro Castelo, picareta maior que no começo do século XX, fingia saber Javanês para garantir um emprego e com esse feito ser cultuado no meio político por falar uma língua que somente ele dizia saber. As façanhas do Castelo, segundo Lima Barreto, iniciam-se por Manaus, onde o malandro dizia ser “obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.” Manaus, no curso da nossa história, continua atraindo espécies das mais variadas, que aqui chegam e começam a dizer que só eles falam Javanês, sabem ler o destino e como adivinho passa a dar palpite apontando um destino que, segundo eles, é o melhor para o Amazonas e para seu povo. A malandragem ganha corpo de político ungido pela ordem palaciana de Brasília, a desembarcar em Manaus, não só para falar Javanês, mas, o pior de tudo, querer que aprendamos com eles o Javanês, no formato de concepção de mundo, enquadrando a Amazônia no realinhamento da economia produtivista internacional articulada com o complexo verde das florestas.

Não se trata mais do malando Castelo, personagem do Lima Barreto, falamos do Ministro Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégico da Presidência da República, que passou por Manaus no dia 04 de maio, com a missão de ajudar a Presidente Dilma Rousseff “a construir uma agenda de desenvolvimento nacional pós-ajuste fiscal”, palavras do Ministro.

Para esse fim reuniu-se com o Governador José Melo mais o Prefeito de Manaus Artur Neto, empresários e outros agentes, falando de desenvolvimento regional, pautando como prioridade “a causa amazônica”. Frente à perversa desigualdade social aqui manifesta, o Ministro do Governo Dilma, falando em Javanês declarava que “a nossa responsabilidade é socorrer essas populações. Temos que descobrir maneiras de combinar prestação de serviços pelos governos locais com o socorro que vem de fora do Estado e o Governo Central. É o que chamo de federalismo cooperativo”.

A tese do Ministro em Javanês, não é nada mais do que o ordenamento jurídico-político determinado pela Carta Capital de 1988, que fala em Regime de Colaboração entre os entes federados, assegurando o respeito e autonomia política desses corpos federativos. Em não cumprindo, denuncia-se o centralismo tributário capitaneado pela União, inviabilizando desta feita, os governos Estaduais, Municipais e o Distrito Federal quanto à falta de investimento para se promover o desenvolvimento regional. O Ministro Mangabeira Unger, não conhece o Brasil real seus estudos em Javanês sobre a realidade nacional e, em particular a Amazônia, estão muito mais para o devir do que para “a verdade efetiva das coisas”. O Javanês ignora por completo a situação da precarização das políticas públicas na região, considerando a SUDAM e SUFRAMA como agência de desenvolvimento regional capaz de propor e formular políticas de desenvolvimento.

Confesso que não sei se traduzir corretamente a fala do Ministro por não saber Javanês. Contudo, a linguagem manifesta faz com acreditemos que a construção do Centro de Biotecnologia da Amazônia, bem como a ponte sobre o Rio Negro, são obras de empreiteiras realizadas unicamente para saquear o Erário e com isso garantir fartas propinas para os governantes de então. Obras construídas sem um projeto definido e articulado politicamente capaz de assegurar o pleno funcionamento destes equipamentos. Em não havendo, o investimento que fora feito nestas e outras obras públicas do Estado é uma afronta a nossa população e a inteligência local.

Em tempo: informamos aos nossos leitores que o Novo Jaraqui no formato de Tribuna Popular já está funcionando todos os sábados na Praça da Polícia das 10 às 12h, no Centro de Manaus. O espaço está assegurado para as denúncias oriundas das comunidades que queiram reclamar os Direitos na perspectiva de garantir políticas públicas de qualidade. Para esse fim sinta-se convidado.

Roberto Brasil