O JORNALISMO EM QUESTÃO

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Ademir-RamosDe imediato pode-se pensar no julgamento de valor ou de fato, tentando diferençar sociologicamente a informação da notícia. Tudo balela, para Umberto Eco este papinho de escola se esfuma nas brumas dos interesses políticos quando se quer combater e dominar a oposição ou situação numa perspectiva de tê-los nas mãos, não pela força física, mas, pelo segredo andante seguido de suspeita das atitudes cotidianas de um certo ator na trama política mercantil. O romance, “Número Zero”, do autor do “Nome da Rosa”, lançado recentemente no Brasil pela Editora Record, tem como cenário o ano de 1992, marcado pela prática da redação de um jornal com uma política editorial voltada a achacar seus inimigos, chantageando e difamando. Um perfeito manual do mau jornalismo, que na Itália, segundo Umberto Eco foi chamado de “maquina de lama” ou jornalismo da lama.

O ROMANCE: Trata-se de uma obra fustigante faz pensar no local, nacional e no poderio da imprensa internacional, que popularmente foi chamado de quarto poder. Na Itália faz pensar no Berlusconi, no Brasil, no poderio da Globo, que como extensão da ditatura muito se beneficiou da concessão do Regime Militar, amealhando riqueza e acumulando poder. No Amazonas, os fantasmas não são diferentes é só levantar a pedra. Entretanto, em entrevista ao jornalista Juan Cruz – Cultura, ediciones El País (25.3.2015) – o autor de “Número Zero” é enfático em afirmar que: “Se quiser ver no comendador Vimecarte um Berluscone, vá em frente, mas há muitos Vimecarte na Itália”, e diríamos nós por todo este vasto mundo da modernidade aqui e alhures. Mas, calma trata-se apenas de um romance enlaçado com o realismo das redações com amantes perdedores. Saibam que Umberto Eco é jornalista de carteira assinada, com registro e tudo mais.  Portanto, qualquer “coincidência não é ficção”.

Ademais, o enredo está centrado na prática de um editor afoito de um jornal diário chamado Amanhã, onde “o passado assombra o presente e transforma o futuro”. Jornal este idealizado e produzido, sem circulação nas ruas, concebido, entanto, só para intimidar e assombrar os adversários, em exaltação ao magnata e ao mandonismo de força que opera neste campo amealhando poder e riqueza a favor de um determinado grupo.

 

QUALIDADE DO JORNALISMO: O professor, filósofo e semiólogo Umberto Eco “fala pelos cotovelos” é conhecido no meio literário como um “exímio contador de história” e quando questionado pelo El País sobre o “Número Zero”, quanto à qualidade do jornalismo, responde, fluentemente, que “para deslegitimar o adversário não é necessário acusa-lo de matar sua avó ou de ser um pedófilo: é suficiente difundir uma suspeita sobre suas atitudes cotidianas”, prática romana que também se repete nos tribunais ainda hoje. O que se sabe e conhece é que falamos de – jornalismo e jornalismo – e para Umberto Eco, o interessante é que “muitos jornais se reconheceram no Número Zero, mas agiram como se estivessem falando de outro” à moda Sartre. Dos diálogos construídos pode-se abstrair que o “o segredo mais poderoso é o segredo vazio”, explica o autor.

INTERNET: Ainda falando da prática do editor do jornal diário do Amanhã, personagem paranoico e obsessivo, Umberto Eco afirma em entrevista ao El País que a internet pode ter tomado o lugar do mau jornalismo porque não se sabe diferenciar a fonte credenciada da disparatada. Assim sendo arremata com a seguinte afirmativa: “basta pensar no sucesso que faz na Internet qualquer página da web que fale de complôs ou que inventa histórias absurdas – tem um acompanhamento incrível de internautas e de pessoas importantes que as levam a sério”.

 

MANIPULAÇÃO: O jornal idealizado pelo autor no romance subestima seus leitores e de forma pensada não tem nenhum compromisso com os fatos seu caso é vender dossiê, manipular e forjar documentação secreta e assacar seus adversários. Em um de seus diálogos, o autor expressa a seguinte máxima: “As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham. É bom não fazermos filosofia demais e trabalharmos como profissionais”, chafurdando na lama.

FUTURO DO JORNALISMO: Embora o enredo do romance desvele a trama de uma redação diabólico relativo à chantagem e toda forma de desinformação. Umberto Eco faz pensar sobre a leitura do jornal como a oração do homem moderno. Tal afirmativa está em sua entrevista no El País, fazendo referência ao idealismo hegeliano. Quanto ao futuro do jornalismo, nosso renomado autor espera por uma crítica a Internet e chama pra si a responsabilidade: “Depois de tudo que disse de mal sobre o jornalismo, a existência da imprensa ainda é uma garantia da democracia (…). Sua grande ameaça é a Internet”, a mesma que o autor acredita ter tomado o lugar do jornalismo da lama, na dúvida é melhor dominá-la como ferramenta de controle social credenciando suas fontes e responsabilizando seus agentes pela força do Direito nos Fóruns multilaterais das Nações.

Roberto Brasil