MEDOS E REALIDADE

By -

felix-valois-blogdafloresta_logoNos longínquos tempos da minha infância, fantasmas e demônios povoavam minha mente pueril. Criado em rígida observância aos dogmas e preceitos do catolicismo romano, era certo acreditar na existência de almas e bastava a notícia da morte de alguém para que, no meu inconsciente, se operasse a imediata transformação do indivíduo numa alma. Como, pelo que me ensinavam, era quase impossível alcançar o céu e a convivência com anjos e querubins, tinha eu como indiscutível que o espírito então desgarrado havia de se encontrar, pelo menos, no purgatório, onde aguardaria, com pesados sofrimentos, a purificação completa. Sem esse requisito não lhe seria possível obter o passaporte que permitiria o salto definitivo para o paraíso e o desfrute da visão do próprio ser supremo, este implacável em seus julgamentos.

Confesso que o aspecto a seguir nunca me foi esclarecido, mas eu o abordo por se tratar de interessante questão doutrinária, com alguma conotação dialética: o tal purgatório seria apenas a sala de espera do céu, ou de lá a alma poderia ser enviada aos domínios de lúcifer? Sem a profundeza do conhecimento teológico, tenho para mim que tal hipótese se apresenta inviável porque, cuido estar acertando, o espírito em si mesmo é incapaz de pecar, incapacidade essa absoluta e insuprível nos moldes, talvez, do respectivo código civil. Em assim sendo, a alma encaminhada ao purgatório não teria condições de aumentar sua carga de pecados, a ponto de acumulá-los em quantidade suficiente para o rebaixamento de categoria. Em síntese: ou ficaria sempre na série B, ou seria promovida à série A.

Mas no meu imaginário infantil, os do purgatório eram os que causavam menor preocupação no que diz respeito à intensidade do medo que as almas me causavam. A coisa complicava mesmo, adquirindo tonalidades de pavor puro e simples, se se entendesse que o infeliz transformado em ectoplasma tinha sido encaminhado diretamente, por Sedex 10, digamos assim, para as insondáveis escuridões do reino das trevas. Aí eram outros quinhentos. Acutilada pelo satanás em pessoa, convivendo com temperaturas de fissão nuclear, mergulhando em camburões de aço líquido, a alma não podia ser nada que prestasse e tinha, como dever precípuo, vir atormentar os que ainda permaneciam no “vale de lágrimas”. Era um terror. Conhecidas como almas penadas, essas diáfanas criaturas poderiam surgir em qualquer lugar e a qualquer momento, sendo certo, porém, que pareciam ter estranha predileção pelos locais onde predominasse a escuridão, talvez para não serem submetidas a um impacto muito violento entre o ambiente de onde provinham e o onde atuariam na sua faina de assombrar.

Porque era de assombração pura e simples que se tratava. Como lembro dos meus medos e dos meus terrores noturnos! Mas, estranho e complicado masoquismo, não me vem à lembrança o nome de uma criança do meu tope que não gostasse de ouvir “história de alma”. Ouvíamos embevecidos, com atenção insuperável, e depois íamos curtir nossos assombrosos delírios na noite sem eletricidade, sob o inútil abrigo de um mosquiteiro, à espera de que a aurora empurrasse os malditos de volta para sua infame morada. Era uma forma de libertação.

Em dezembro, essa busca pelo acirramento dos medos atingia o seu auge. Deixe-me explicar. Era o mês em que ia à cena a “pastoral do Luso”. Tratava-se de uma espécie de auto de natal, produzido e encenado na sede do Luso Sporting Club, ali na esquina das ruas Monsenhor Coutinho e Tapajós. Religiosamente, íamos assistir a pelo menos uma apresentação, levados sempre pelas bondosas mãos de minha madrinha Irene, negra que me pegou nos braços desde os mais tenros dias. Começava o espetáculo e estavam no palco o carpinteiro José e sua esposa Maria, esta, suponho, já devidamente inseminada pelo espírito santo. Maria se ausenta para cuidar de seus afazeres em outro compartimento do modesto lar, e eis senão quando, das profundezas da terra, aqui representadas por conveniente alçapão, salta, entre labaredas, horrenda figura, vestida de vermelho e preto, com chifres, rabo e patas de bode. Era ninguém menos que o Cão do Luso, a cuja visão era inevitável, porque instintivo, que eu enfiasse minha minúscula cabeça no colo maternal da madrinha e assim permanecesse até que a encarnação do coisa ruim fosse recolhida ao mesmo buraco de onde saiu. E à noite era impossível dormir pela perseverante lembrança do mal em pessoa.

Fugazes e agora inexistentes pavores! Chego a lhes lamentar a ausência diante dos outros que, na crua realidade e mais persistentes, vieram tomar conta da minha vida adulta e, sem nenhuma cerimônia, ousam perturbar minha velhice. Por que? Ora, por que? Porque o Cão do Luso com certeza não seria capaz de chegar a um aeroporto e matar dezenas de pessoas inocentes e mutilar tantas outras. Ele podia ser o cão, mas não era estúpido a ponto de acreditar que o terrorismo e o fanatismo religioso são meios viáveis para solucionar os problemas da humanidade. Seria ele, também, incapaz de assaltar a Petrobrás e praticar o mensalão. Ele era apenas o Cão do Luso. Não era lulista. Melhor para ele que está lá pelo quinto dos infernos sem que lhe pese na consciência ter violentado e vilipendiado toda uma grande Nação.

Roberto Brasil