MÃOS DA MATA

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Jefferson-Praia-banner-500x167_lateralUma iniciativa fantástica, formulada coletivamente, assim foi a Feira indígena Púkaa-Mãos da Mata. Com os índios aprendi uma lição que, até hoje, tem me sido muito útil no mundo do empreendedorismo.

Em 2006, tive a oportunidade de estar à frente da Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico Local – SEMDEL.  Nesse órgão logo senti a necessidade de valorizar a cultura Amazônica; os índios residentes em Manaus precisavam de atenção em diversos aspectos, fato destacado em matéria jornalística da época. Foi então que pensei em formular uma política pública que pudesse contribuir com a melhoria da qualidade de vida dos índios.

Contatamos os índios e os convidamos para uma reunião cujo objetivo era discutir como poderíamos fazer um projeto sobre Empreendedorismo Indígena, para que eles tivessem trabalho e renda. Diversas etnias compareceram à reunião. O resultado desse primeiro encontro foi a formulação da feira indígena Pukaá – Mãos da Mata.

A feira era realizada na Praça da Saudade, no último fim de semana de cada mês. Era um grande encontro indígena! Nas dezenas de barracas cobertas com lonas pintadas com grafismo indígena (60 barracas), tínhamos, em cada barraca, um banner explicativo correspondente à etnia que a estava ocupando com artesanatos ou comida típica. Participaram da Púkaa dezenas de índios oriundos das etnias: Apurinã, Arapaso, Baniwa, Baré, Desano, Kabeba, Kokama, Marubo, Mundurucu, Mura, Pira- Tapuia, Sateré-Maué, Tariano, Tikuna, Tucano, Wanano, Wai-Wai e Wapixana. O apresentador do evento era um indígena escolhido pelos participantes.

Na Pukaá – Mãos da Mata, encontrava-se o artesanato, a gastronomia e ouviam-se boas músicas indígenas.  Na gastronomia saboreava-se o Caxiri – bebida alcoólica indígena que se bebia na cuia, o peixe assado na folha da banana e a famosa formiga no chibé – a formiga assada tinha um gosto de cravinho. Muitos turistas provaram essa iguaria indígena e, certamente, nunca esquecerão esse momento ímpar na Amazônia.

Os grupos musicais tornaram aqueles momentos mágicos. Confesso que me emocionei muitas vezes ouvindo o som da floresta de Wotchmaúcú, Mypynanguri, Bayoruá, Inhaã-Bee (com a participação especial de Fidélis Baniwa), Waikihu, Banda Hirá, Mudurukus e Claudia Tikuna.

Reuníamos com frequência para avaliarmos o projeto. Momentos de diálogos construtivos que aprendi, dentre outras, a seguinte lição: Os índios nunca me trouxeram um problema individual – esses eles resolviam entre si; as dificuldades eram sempre coletivas. Faziam suas sugestões, nós as analisávamos, e tomávamos as decisões.

Além do encontro (a feira) os indígenas participaram de diversos cursos proporcionados pela Secretaria – curso de Qualidade no Atendimento, Higiene e Limpeza nos Alimentos, entre outros.

Esse projeto de empreendedorismo social além de elevar a autoestima e fortalecer a cultura indígena gerou centenas de postos de trabalho e renda. O faturamento ao longo de dois anos de feira foi em torno de R$ 300 mil. Os amazonenses e os turistas adoraram o evento.

Acredito que aqueles que vêm à Amazônia querem conhecer sua rica biodiversidade e sentir o calor humano dos povos indígenas.

Roberto Brasil