Mais de 50 mil aguardam consultas e outros 10 mil esperam por cirurgias no Estado

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Dezenas de pessoas dormem no chão, no pátio do hospital Adriano Jorge, para tentar senha de agendamento de uma consulta com o ortopedista (Foto: Antônio Lima)

Após inspeção na Fundação Hospital Adriano Jorge (FHAJ), o Ministério Público Estadual (MP-AM) pretende pedir o afastamento da direção da unidade, que possui uma das maiores listas de espera por cirurgia no Amazonas. São 2.372 pacientes, que somados aos 8.601 de outras unidades totalizam 10.973 pessoas aguardando indefinidamente para serem operadas. O drama provocado pela ineficiência do sistema público de saúde fica mais claro quando se adiciona a essa conta os 52.769 cidadãos que ainda não conseguiram sequer a consulta médica.  

Segundo a promotora de Justiça Silvana Nobre, o hospital Adriando Jorge foi entregue ao Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Amazonas (Itoam), a gestão é omissa e não planeja os procedimentos cirúrgicos. “Eles (FHAJ) informam que se filtrar essa lista tem muita gente que já morreu”, disse a titular da 58ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos à Saúde Pública.

As filas à espera de consulta médica e procedimento cirúrgico é um dos maiores gargalos do sistema público estadual de saúde. “A gestão da ortopedia não é do Adriano Jorge e isso está claro. Estão tratando o hospital como propriedade. Há cancelamentos contínuos de cirurgias e eles na verdade entregaram todo o planejamento de cirurgias para o Itoam, onde o coordenador (Alfredo Valois) faz o que quer, diz o que quer e quando ele quer. Ele disse “quem manda aqui sou eu”, enfatizou a  promotora de Justiça.

Diretor não estava durante insperação

O local foi inspecionado na terça-feira. Na ocasião o diretor da FHAJ, Alexandre Bichara, não se encontrava, somente Alfredo Valois. Entre as irregularidades encontradas estão: a disparidade de opiniões clínicas entre o médico que avalia e o que vai operar o paciente, que tem gerado adiamento de cirurgia ortopédica; existência de um acordo de cavalheiros, entre o diretor e o Itoam, pelo qual ficou limitada a realização de cirurgia, uma a cada meio plantão, e duas de pequeno porte, a cada plantão inteiro; existência de leitos ociosos, entre outros.

“Eles tem um grupo de WhatsApp do Itoam, onde jogam os casos dos pacientes para ver se algum médico vai pegar a cirurgia. Então se ficam escolhendo paciente esse contrato tem que ser quebrado, esses médicos têm que sair. Vários casos eles mostram e ninguém quer pegar. Na sexta, já encaminhei recomendação ao secretário (Vander Alves) pedindo a instauração de processo administrativo contra o diretor. Na segunda-feira encaminho denúncia ao Denasus, em Brasília, pedindo a auditoria”, informou Silvana.

A promotora destacou o caso da paciente Odete Martins, de 74 anos, internada há 54 dias na FHAJ, que  foi impedida de deixar o leito, porque se sair perde, segundo os médicos, a vaga para a cirurgia, retornando assim para o final da fila.

“Nem cachorro merece isso”

De sandália, sem agasalho e carregando uma lona utilizada como lençol para cobrir o chão de barro onde passaria a noite, Nonato Castro, 48 anos, chegou às 17h de quinta-feira (21) na Fundação Hospital Adriano Jorge para mais uma vez iniciar a vigília na fila de agendamento de consultas e cirurgias ortopédicas, que tenta fazer há três anos.

“Há três anos estou tentando a cirurgia para os joelhos. Os dois estão com ligamento rompido. Nunca tem vaga. Agora eu estou tentando uma consulta com o médico que acompanha o meu caso. Nos meus exames já deu até osteoporose”, contou Nonato.

Ele contou que hoje   sobrevive com um auxílio do INSS no valor de R$ 920.  “Esse já é o terceiro mês que eu tento a consulta. De manhã quando eles distribuem as senhas para você tentar agendar a consulta, colocam a gente tudo amontoado lá dentro, igual jumento. Ficam pra lá de mil pessoas num corredor, um tratamento que nem um cachorro merece isso”, denunciou.

“É cinismo dizer que vão zerar filas”, diz médico ativista

“Toda a estrutura do sistema está falido. É cinismo dizer que vão zerar, diminuir as filas. Daí ficam apegados a medidas paliativas. O município não assume a sua responsabilidade, que é a atenção primária. Do outro lado, o Estado está entregue  às cooperativas, que só estão interessadas no dinheiro. Aí vira um faz de conta. Faz de conta que atende, faz de conta que é atendido. O hospital Adriano Jorge é uma referência em ortopedia, mas vai lá para ver como está funcionando. Há técnicos em enfermagem fazendo o trabalho de enfermeiros. No hospital Platão Araújo faltam gases, luvas, e cirurgias são adiadas por causa disso. Falta o mínimo. Os governadores e gestores não têm responsabilidade sobre a vida humana. Inclusive precisam ser responsabilizados criminalmente. A cada quinzena o Fórum em Defesa do SUS se reúne para discutir temas relacionados à saúde. Participam pessoas de todas as áreas da saúde, mas é aberto a qualquer cidadão que queira participar, levar a sua história, denúncia, é um canal de debate”, afirma Mena
Barreto Segadilho, membro  do Fórum em Defesa do SUS

Responsáveis não foram encontrados

A CRÍTICA esteve na quinta-feira na Fundação Adriano Jorge e acompanhou parte da vigília na busca por uma consulta ou cirurgia ortopédica. Muitos eram idosos que se preparavam para enfrentar uma madrugada ao relento. Procurado, o titular da Susam, Vander Alves, não foi localizado. A assessoria informou que ele estava fora de Manaus. O diretor da FHAJ, Alexandre Bichara, não atendeu as ligações pelo telefone 981xxxx26.  A reportagem não conseguiu contato com o  Itoam. As ligações para o telefone 33xx-xx71 do consultório do médico  Alfredo Valois não foram atendidas.

(com Portal A Crítica)

Roberto Brasil