LATICÍNIO E DENTIFRÍCIO

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felix-valois-blogdafloresta_logoA história me foi contada pela professora Etelvina Garcia, verdadeira faiscadora dos casos que se hão passado nesta mui serena e bela cidade de Manaus. Nos anos quarenta do último século, vagou uma cadeira do magistério em uma das escolas públicas da capital. O concurso público ainda não era instituição obrigatória e o sistema de apadrinhamento corria solto como uma das facetas mais sombrias do coronelismo de barranco. Daí decorreu que a vaga foi preenchida por um jovem mancebo, elegante e muito cortês, cujo único mérito era o de ser genro de um figurão da época. Da disciplina mesmo que lhe competia ministrar ele entendia tanto quanto este modesto escriba está familiarizado com os meandros da física quântica.

Comprou ele um livro da matéria e, para ser justo com nosso herói, se pôs a estudar com afinco e dedicação. Acontece que um professor não se faz num dia e conhecimento não cai do céu nem brota no quintal. Igual dinheiro. Principalmente quando o conhecimento tem que ser transmitido a outros, é de comum sabença que ele deve estar enraizado nas estruturas do transmissor, no qual, para tal mister, ainda é indispensável o manejo correto da didática específica.

Vai daí que o período de namoro com o alunado durou pouco. Se, então, o charme pessoal do professor ajudou mormente entre as moças, era impossível esconder as deficiências por longo tempo. E elas começaram a aflorar. Era uma gafe aqui, outra acolá, numa sequência deplorável, até que a turma se convenceu de que o professor era uma besta. E como tal passou a tratá-lo.

Foi nesse ambiente que, durante o desenrolar de uma aula, uma jovem muito bonita se levantou e, dizendo-se porta-voz de um grupo que realizava uma pesquisa, ponderou com toda a gentileza imaginável: “Professor, no trabalho que estamos realizando, surgiu uma dúvida que não estamos conseguindo superar. Decidimos então, por unanimidade, reconhecer à sua sapiência. Pode o senhor nos esclarecer, se não for pedir demais, o que significa o termo laticínio?” O homem ficou branco e depois sua fisionomia passou por todas as tonalidades do disco de Newton. “Qual é mesmo a palavra?”, perguntou em manobra claramente protelatória. “Laticínio, professor”, respondeu com firmeza a jovem estudante. “Ora, minha cara aluna, com que então você e seus ilustres colegas não sabem que laticínio diz respeito a todos os produtos comerciais vendidos em lata, assim como as conservas?”, foi a genial explicação dada pelo “mestre”, que, assim, encerrou sua breve carreira.

A história se espalhou como fumaça na província de pouco mais de cem mil habitantes e a situação do temerário moço se tornou insustentável. Em qualquer lugar a que fosse, os cochichos e as piadas eram inevitáveis. “Lá vem o laticínio”, diziam uns. Outros, mais maldosos, asseveravam que o jovem estava sendo preparado para assumir a direção de uma indústria de conservas, o mais novo empreendimento de seu sogro, que a tudo assistia sobranceiro, certo de que aquilo não passava de inveja e maledicência. O certo é que o “professor” sumiu de Manaus, onde nunca mais foi visto, nem mesmo abrindo uma lata de salsicha. Dizem que se recolheu a um mosteiro no Rio de Janeiro, ali terminando seus dias entre pesadelos, nos quais via caírem do infinito milhares de latas, que, por sua vez, derramavam sobre o pobre demente uma quantidade infinita de litros de leite.

Hoje, neste exato momento em que produzo estas mal traçadas, não tenho certeza de que o nosso herói tenha sido merecedor de destino tão cruel. Muito pelo contrário, se me fora dado o poder de reverter o tempo, pediria com insistência aos próceres do meu país que lançassem a candidatura do moço à Presidência da República. Pelo PT, é claro. Não custaria nada antecipar a criação de tão nobre Partido, que vem de nos brindar com duas administrações duplicadas, nas quais, se é verdade que ainda não vimos boi voando, vimos voar dinheiro e besteiras, aquele para destinos não muito nobres e estas para gáudio de qualquer cartunista que se preze.

Diga-me, meu raríssimo leitor: qual é a diferença entre confundir laticínio com indústria de enlatados e confundir dentifrício com tubo de pasta de dentes? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Se o homem do laticínio morreu na demência, o que podemos esperar para dona Dilma e sua explicação de que, depois de a pasta sair do “dentifrício”, é impossível fazê-la voltar? Não pode estar normal. Mudo o verbo: não pode ser normal. O exercício do cargo de Presidente da República é a maior honra a que pode almejar qualquer cidadão nesta Terra de Santa Cruz. Exercê-lo, entretanto, de maneira leviana e irresponsável, dizendo besteiras como essa que acaba de ser relatada para o mundo inteiro, é um bofetão na cara dos mais de duzentos milhões de brasileiros.

Da minha parte, vou continuar escovando os dentes com aquela mesma e velha pasta que sai de um tubo. A este vou perguntar se ele tem noção de que ninguém menos que a presidente da República lhe concedeu uma promoção inusitada, elevando-o à mesma condição de seu conteúdo. O que, de resto, me leva a uma reflexão: se o dentifrício sai do dentifrício, de onde saiu essa merda que dona Dilma acabou de produzir para vergonha de todos nós?

Roberto Brasil