JEITINHO E CORRUPÇÃO

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Jefferson-Praia-banner-500x167_lateralHá alguns anos, ninguém imaginava que iríamos ver políticos e grandes empresários, envolvidos em atos de corrupção, sendo presos. “O Brasil está sendo passado as limpo.” Um novo país irá surgir, eliminando ou reduzindo substancialmente a corrupção e a dimensão complicada do jeitinho brasileiro. Essa não será uma tarefa fácil. Temos, portanto, um grande desafio pela frente que deve começar pelas escolas e nas famílias. Hoje, compartilho com você um discurso que proferi no Senado Federal, em junho de 2009.

Por que será, embora todos concordem em que a corrupção é uma praga a

ser urgentemente extirpada da nossa sociedade, da nossa política, por que será, repito, é tão difícil combatê-la e puni-la neste País?

Finalmente, nós brasileiros temos a oportunidade de enfrentar essa questão

com apoio em evidências factuais sistematicamente quantificadas pelo sociólogo Alberto Almeida, autor do livro A Cabeça do Brasileiro, que, como ele próprio faz questão de sublinhar, tem por ponto de partida teórico as visões de notáveis explicadores do Brasil do presente e do passado, a exemplo de Roberto DaMatta, de Carnavais, Malandros e Heróis, Sérgio Buarque de Holanda, de Raízes do Brasil, e Gilberto Freyre, de Casa-Grande & Senzala e Sobrados & Mucambos.

No questionário idealizado pelo Professor Almeida, os entrevistados foram

confrontados com perguntas sobre a diferença entre jeitinho e corrupção.

Para começo de conversa, ampla maioria já admitiu ter dado algum jeitinho

em benefício de si mesmo ou em proveito de algum parente e amigo.

O que os respondentes classificam, sem sombra de dúvida, como corrupção?

São situações como: um político, um juiz ou alto funcionário público usar o cargo para ficar rico; driblar a Receita para pagar menos imposto que o devido; pagar propina ao guarda de trânsito, para não ser multado, por estacionar o carro em local proibido; trabalhar num único lugar, mesmo tendo dois empregos; ganhar bolsa de estudo em tempo integral e, mesmo assim, trabalhar sem o Governo saber.

E o que foi carimbado como inocente jeitinho inclui comportamentos como:

usar da amizade com o gerente do banco ou com a funcionária do posto médico para furar fila; o mesmo para garantir vaga para o filho na escola pública; dar gorjeta ao garçom para passar à frente na fila e conseguir mesa no dia em que o restaurante ou bar está muito cheio; conseguir de amigo ou parente no cartório a liberação rápida de uma certidão que leva dias para sair.

A conclusão do sociólogo é: quanto mais distante do dia a dia das pessoas

comuns, maior a probabilidade de elas tacharem um comportamento como

corrupção. Afinal, não é todo mundo que tem chance de fraudar uma licitação, ou tem a oportunidade de possuir dois empregos ou mesmo dirigir carro próprio.

Ao mesmo tempo, as situações classificadas como jeitinho estão ao alcance

de qualquer um.

Trocando em miúdos, a concepção ética e a conduta moral de muitos de nós

estão plantadas na areia movediça do relativismo: uma regra é violada, mas o que é corrupção para um não é considerado assim pelo outro; ou o que está errado numa situação é certo e aceitável em outra.

Ora, a partir das revoluções burguesas, como a inglesa, no século XVII, a

americana e a francesa, no século XVIII, os filósofos apontam que a convivência civilizada em uma sociedade moderna precisa estar alicerçada em uma moral de tipo consensual, onde todos os cidadãos sejam iguais perante a regra universalmente conhecida e aceita.

Quando isso não ocorre, o que temos é o retorno à lei da selva, à guerra de

todos contra todos, em que a preocupação de cada indivíduo exclusivamente em “se dar bem” acaba prejudicando a todos.

Como sempre fazia questão de lembrar o meu saudoso e estimado

antecessor, Senador Jefferson Péres:

“A universalização da cidadania depende de um firme consenso da

sociedade acerca das regras que diferenciam o certo do errado”, [pois], “sem

leis efetivamente válidas para todos, se o certo e o errado variam de acordo

com as circunstâncias de cada um, fica muito difícil reclamar e obter

tratamento impessoal e equânime aos cidadãos. As pesquisas já

comprovaram que quanto maior é a aceitação do jeitinho, maior, também, é a

tolerância à corrupção”. [Afinal, concluía o Senador Jefferson Péres nesta

mesma tribuna], “Entre furar uma fila e roubar dinheiro público, a diferença é

de gravidade, mas não de natureza das ações, pois em ambos os casos,

regras ou leis foram violadas”.

Uma das observações do estudo que mais me angustiam é a seguinte: foi detectado que, entre os jovens, a aceitação de comportamentos corruptos sob o disfarce aceitável do jeitinho é maior do que entre as pessoas mais velhas entrevistadas.

O que será do Brasil das próximas gerações se essa tendência não for

vigorosamente combatida na família e na escola?

E concluo, Sr. Presidente, com o desafio proposto, antes de mim, pelo

referido Senador Jefferson Péres, o meu pranteado amigo que simbolizou

brilhantemente as melhores aspirações éticas da nacionalidade. O Senador, que hoje, de onde estiver, tenho certeza, acompanha com atenção o tratamento que dispensamos ao seu nobre legado, assim disse:

“Todos nós, detentores de maior ou menor parcela de

responsabilidade no processo de formação da opinião pública, somos agora

desafiados a dar exemplo à sociedade brasileira. Chega de autoilusão, pois

existe um elo íntimo e fatal entre o jeitinho nosso e a corrupção dos outros.

Quem se atreverá a cortar esse nó?”

Sr. Presidente, eu me atrevo a responder dizendo: a família, na formação

do caráter dos filhos; a escola, na transmissão de valores éticos e civis às

crianças e aos jovens; a comunidade em que se vive e trabalha, bem como todas as demais instituições.

Espero que esta reflexão nos inspire a prosseguir nas investigações para o

esclarecimento das denúncias e suspeitas de sérias irregularidades em que

mergulhou esta Casa, numa das piores crises de credibilidade e legitimidade perante a opinião pública.

Também não terá sentido, Sr. Presidente, perseverarmos nessas

investigações, mas continuarmos insistindo nos mesmos e velhos erros, nas

mesmas e velhas práticas. Daqui para frente, o nosso desafio consiste em colocar a Lei sempre acima das conveniências pessoais de quem quer que seja. {…}.

Roberto Brasil