História de Um Atleta Campeão

By -

marcao-atletaDa Redação – O ex-atleta de vôlei e hoje professor de Educação Física na Rede Municipal de Ensino Marcos Evandro Johnson de Assis, resolveu contar ao Blog da Floresta, em primeira mão, com foi a sua carreira profissional nas quadras de vôlei de Manaus, Brasil e Europa desde os seus 12 anos de idade.

Marcão, como ficou conhecido no meio esportivo e pelos amigos, é filho do casal de negros barbadianos Severino Ramos de Assis e Cibele Johnson de Assis nasceu em Manaus, em 1958, na Rua 10 de Julho, Centro, zona Sul, onde ainda mora sua mãe. O pai, sua estrela maior, a faleceu. Estudou no ensino técnico do Senai e formou-se em Carpintaria e Marcenaria, mas o vôlei foi seu caminho no trabalho profissional.

A família Assis tem seu nome marcado nas páginas social, cultural e esportiva da capital amazonense. Seus irmãos, irmãs e parentes próximos tiveram destaque nas passarelas da moda, na música, nas artes plásticas e, claro, na esportiva.

Sua infância foi na Rua 10 de Julho nas proximidades da conhecida Praça São Sebastião, hoje nomeado Largo de São Sebastião, que abriga o Teatro Amazonas, a Igreja de São Sebastião e a mercearia Nossa Senhora de Nazaré, hoje Bar do Armando, português desafeto com seu pai.

Encontro

O cenário abriga uma tradicional feirinha de vendasde alimentos, localizada na Avenida Noel Nutels, ao lado do reservatório de água da Manaus Ambiental e próxima do shopping Sumaúma, o maior centro comercial do Bairro Cidade Nova, zona Norte.

Lugar onde se encontram pessoas de vários credos, etnias, jovens e idosos; uma gama de pessoas que frequentam a feirinha, principalmente nos finais de semana, para comprarem ou se reunirem em grupos para um bate-papo; conversas sobre tudo e todos os assuntos em pauta da semana.

Foi na manhã de um sábado bem manauara, com sol e muito vento, que encontramos Marcão e alguns amigos na feirinha. Após um primeiro contato por celular marcamos o dia, local e hora para falar de sua carreira profissional no voleibol brasileiro, do seu cotidiano de professor e do cidadão Marcos Evandro.

Antes de iniciar o bate-papo foi logo mostrando sua insatisfação com a falta de uma melhor estrutura educacional no ensino da Educação Física nas escolas municipais e críticas ao descaso das autoridades governamentais e da Federação Amazonense de Vôlei (FAV) com os atletas desse esporte que engrandeceram o nome do Amazonas no Brasil e no Exterior.

marcao-atleta 2Início

“Deus lhe deu pernas compridas e muita malícia, pra correr atrás de bola e fugir da polícia”, diz a canção de Chico Buarque de Holanda. Marcão está enquadrado nessa canção, não por fugir dos “homis”, mas por ter a bola como objeto de sua paixão pelo vôlei, já que no futebol nem no gol a turma o queria. Mas como diz o poeta Caetano Veloso, a vida é de viés. E nesse conceito de vida, Marcão criou asas no vôlei.

Marcão saiu muito cedo de Manaus, ainda na idade adolescente para viver e vencer nas quadras brasileiras e mundial de vôlei, sua paixão.

Sua estatura de menino magro e alto, para os padrões da idade de adolescente, Marcão chamou a atenção de um capuchinho muito ligado com o esporte. Frei FulgêncioMonacelli, da paróquia de São Sebastião, sempre gostou de reconhecer nos jovens a capacidade técnica e a desenvoltura nas artes esportiva e cultural de Manaus.

Foi com esse olhar genial que descobriu que Marcão era o “fora de série” da turma do voleibol. Não tardou muito para que o menino de pernas compridas e braços longos se tornasse jogador do time de vôlei do Grêmio Esportivo São Sebastião (GESS), treinado pelo capuchinho italiano.

A cada dia o garoto da Rua 10 de Julho se destacava nos torneios dos quais o GESS participava. Não durou muito para outros clubes se interessasse pelo vôlei agressivo de Marcão. Muito incentivado pelo se técnico Frei FulgêncioMarcão deixou o Grêmio.

Anos 1970

Em 1973, com 15 anos de idade, foi parar no seu time de coração Nacional Futebol Clube, que não tinha muita tradição no vôlei manauara. No “Mais Querido”, jogou ao lado de Beto Michiles e Marcelo Bode, quando se sagrou campeão amazonense de vôlei.

No ano seguinte foi para o Atlético Rio Negro Clube, o “Líder da Cidade”, por se destacar no meio social da capital amazonense. Ao lado dos irmãos Paulo e Sérgio Avelino foi campeão. Paulo tornou-se técnico da seleção brasileira em 1977.

Com grande destaque nas quadras manauaras, Marcão alçou voo para o sul maravilha. Ainda em 1974, em Poço de Caldas, Minas Gerais, foi eleito o melhor atleta de vôlei do Brasil na categoria infanto-juvenil, quando vestiu a camisa da seleção brasileira pela primeira vez, para depois vestir esse manto por muitos anos como profissional.

Em 1975, com 17 anos de idade, desembarca no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, para defender as cores do Fluminense Football Club, o clube da elite carioca, com muito destaque no cenário esportivo do voleibol.

marcao-atleta 4Ao lado de Bernardinho, hoje técnico da seleção brasileira de vôlei masculino, Bernard, o voleibolista do “Saque nas Estrelas” e Zé Roberto, técnico da seleção brasileira de vôlei feminino, Marcão foi campeão carioca em cima do Flamengo, que não perdia jogos para o Flu há 11 anos.

Embora tenha sido o primeiro Clube de Futebol do Rio, o Fluminense sempre se destacou no vôlei, revelando grandes craques para o cenário nacional. Foi nesse ninho de cobras que Marcão se alojou. No período de 1975/76 ganhou títulos com o Fluminense, quando o então presidente Francisco Horta priorizou o setor de futebol, entregando o vôlei tricolor às favas.

Em 1977, o pupilo do Frei Fulgêncio vai para São Paulocontratado pelo Clube Pinheiros, de muita tradição no esporte de rede da capital paulistana. Por dois anos (1977/78), Marcão defendeu o Pinheiros e foi bicampeão paulista. Em 1979, contratado pelo Guarulhos, foi campeão e teve grandedestaque no campeonato.

1980

Os anos de 1980 deram a Marcão o que todo atleta gosta de ter na carreira: sucesso e estabilidade financeira.

Contratado pela Clube Atlético Pirelli (CAP), que fez alto investimento no setor com a contratação de várias estrelas do cenário do vôlei, Marcão se destacou. De 1980 a 1984,ao lado de Amaury, Xandó, Willians, Montanaro, Maurício, Bernardinho, Bernard e outras feras, Marcão se consagrou como um dos melhores atacantes do vôlei brasileiro.

Com 19 anos estreou no time da Pirelli, que perdia para o Ferro Carril Oeste, da Argentina, por 2×0. Do banco de reservas, saiu para virar e ganhar o jogo por 3×2. Conta Marcão que ao entrar no jogo foi muito vaiado pela torcida, que o aplaudiu na vitória depois de tê-lo xingado “até de macaco”. “Eu era um desconhecido”, justifica.

Nesses cinco anos de Pirelli conquistou vários títulos paulista, nacional e internacional. No ano de 1984 ganhou o título de campeão do Mundial de Clubes ao ganhardo Bradesco na final, depois de derrotar o CSKA, da Rússia, All Star, dos Estados Unidos e Havana, de Cuba. Contra o time cubano, Marcão lembra que marcou 35 pontos dos 60 disputados, sendo 26 de bloqueio.

Em 1985, o Bradesco formou um grande time para a disputa do paulistão e contratou Marcão como a principal estrela do time. Foi campeão nesse ano e novamente chamado para a seleção brasileira de vôlei, após ser dispensado em 1984 por contusão.

marcao-atleta 3Seleção

A história de Marcão na seleção se inicia muito cedo. Em 1974, após ser eleito o melhor jogador de vôlei, jogando em Poço de Caldas, Minas Gerais, foi convocado para a seleção na categoria infanto-juvenil. Como profissional, vestiu o manto canarinho de 1978 a 1985.

Em 1984, treinando pela seleção olímpicana Escola de Educação Física do Exército, no Bairro da Urca, no Rio de Janeiro, sofre um lesão no joelho direito um dia antes de viajar para Los Angeles, Estados Unidos, onde a seleção participaria das Olimpíadas. O Brasil perdeu para os americanos.

Internacional

Com a fama de jogador de seleção brasileira e jogador de qualidades elogiáveis, Marcão foi para em Portugal. Contratado pelo Esmoriz Ginásio Club atuou no campeonato português de vôlei no período de 1986/87, onde se sagrou campeão e foi técnico.

Em meados de 1987 foi contratado pelo Milan da Itália, mas não chegou a defender as cores do time romano devido a uma gravíssima lesão no ombro direito, que o afastou das quadras e o levou a encerrar sua brilhante carreira de jogador profissional de vôlei.

Títulos

Marcão foi campeão por todos os clubes que atuou como profissional. Ganhou seis títulos brasileiros, quatro sul-americanos, dois intercontinentais e um Mundial de Clubes. Com toda essa gama de títulos, um dos medalhõesdo vôlei brasileiro, Marcão tem muitas histórias pra contar sobre sua participação. Aqui foi só um pedacinho.

Hoje

O ex-atleta Marcão, consagrado nas quadras do vôlei nacional, mora em Manaus no Bairro Cidade Nova, zona Norte. Está casado há mais de 25 anos com a psicóloga Lígia de Assis, pai de dois filhos e avô de três netos e mais um “a caminho”. “Estou separado”, corrige.

“O vôlei amazonense continua em pauta na agenda da Federação Amazonense de Vôlei (FVA), que tem emprestado seu nome para a realização de alguns torneios de destaques, muito mais voltado para as quadras de areia. A propaganda massiva do evento tem levado um bom público a esses torneios que contam com a participação de atletas de nomes reconhecidamente regional e nacionalmente”, observa Marcão.

“Está na hora de a Federação Amazonense de Voleibol (FAV) prestar sua homenagem a esse grande atleta do esporte amazonense, nacional e internacional”, concluiu. (Jersey Nazareno – Fotos: D´Castro – Arquivo Pessoal)

Roberto Brasil