Haitianos são abandonados por companhia aérea no Eduardo Gomes

By -

Um grupo de pelo menos 50 haitianos, que chegou à capital amazonense na madrugada de segunda-feira, está abandonado no Aeroporto de Manaus depois de perderem seus voos de conexão para outras cidades do País por conta de problemas com a companhia aérea Insel Air.  

A companhia, que tem a ilha caribenha de Curaçao como base, atrasou por semanas a saída de muitos passageiros do Haiti, fazendo com que eles ficassem sem passagem para seguir viagem para seus destinos finais.

Muitos dos passageiros sequer falam português e têm imensa dificuldade de comunicação com os funcionários do Aeroporto, que chegaram a retirar os computadores do stand da Insel Air no aeroporto temendo que os haitianos quebrassem os materiais. “Nós não vamos quebrar nada, nós só queremos respeito”, afirmou Ernest Cadet, 27, que mora em Manaus há quatro anos e esteve junto ao grupo para tentar ajudá-los a encontrar uma saída para a situação. De acordo com ele, para muitos, a jornada começou em janeiro.

Alguns haitianos mostraram passagens comprovando agendamentos para 30 de janeiro, saindo do Haiti, fazendo escala em Curaçao e Manaus, e da capital amazonense seguiriam para outras cidades onde iriam trabalhar. No entanto, a saída do Haiti foi sendo atrasada sem explicações. E quando eles chegaram ao Brasil, imaginando que a espera finalmente acabaria, se depararam com problemas ainda mais sérios.

“Eu tinha serviço para pegar dia 9 de fevereiro. Agora eu não posso chegar na minha empresa, já passou um mês e não consegui entrar no Brasil”, afirmou Renan Saint Aubin, que mora em Lajeado (RS), onde trabalha na Companhia Minuano de Alimentos. O voo dele seria Manaus-Brasíia-Porto Alegre, mas até o momento ele segue sem qualquer perspectiva de chegar à cidade. “Eu não tenho mais nem meus remédios, que preciso tomar”, lamentou ele.

Marckens Vikygelin já morava em São Paulo e voltou ao Haiti apenas para rever a família. Ele tinha a passagem marcada para o dia 15 de fevereiro para São Paulo, onde esperava chegar no dia 16. No entanto, até agora, ele não conseguiu chegar à capital paulista e já teme os prejuízos. “Eu tinha emprego mas agora não sei mais como vai ficar. Você sabe que a situação está difícil para conseguir trabalho no Brasil”, lamentou ele.

Sem auxílio e sem condições

A situação de fome e de desespero é comum entre os haitianos que estão no Aeroporto de Manaus. Qualquer aproximação da reportagem era vista por eles como uma saída, um socorro, já que eles não encontraram suporte nem da companhia aérea nem dos funcionários do Aeroporto. Eles chegaram a pegar formulários da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mas relataram que sequer foram atendidos por ninguém da administração do aeroporto. “Isso é preconceito. Eles sabem que se a gente falasse português a gente iria no Procon, iria fazer algumas coisas, aí eles não fariam isso com a gente. Então a gente pede pro Governo do Brasil, para as pessoas que têm poder para ajudar a gente, por favor cheguem aqui porque precisamos de ajuda”, afirmou Ernest Cadet.

Ele lembrou que os haitanos chegaram ao Brasil com os devidos vistos e que vieram para cá esperando por algo melhor. Muitos deles já tinham empregos no País e foram ao Haiti apenas para ver as famílias. Na tentativa de voltar, no entanto, se depararam com a situação de completo abandono. “Meu vôo era dia 20 de fevereiro e vim só domingo passado para Manaus. Quando chegamos aqui, não tinha voo”, relatou Pierre Andre Du Pevil, com um português de vocabulário raso mas compreensível, fruto do tempo vivido em São Paulo, para onde ele tentava voltar para trabalhar.

De Manaus, ele vai levar as lembranças do almoço sem direito a água que era “dado” no hotel onde eles ficaram hospedados, por conta da Insel Air. “Aqui está tudo muito ruim. Estamos sem dinheiro, no hotel pagavam comida mas não davam nem água. Só comprava quem tinha o dinheiro”.

Histórico de problemas

A Insel Air começou a operar em Manaus em 2015, iniciando com a rota para Aruba e depois, em julho do mesmo ano, oferecendo os voos para Curaçao. Desde o ano passado, no entanto, os problemas enfrentados pelos passageiros da empresa são recorrentes. Muitos cancelamentos vem sendo registrados, tanto saindo de Manaus quanto saindo de Curaçao, o principal ‘hub’ –  base para os voos – da companhia.

A situação levou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a oficiar a empresa para que ela preste esclarecimentos a respeito dos motivos dos problemas. A Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur) também procurou a empresa, e segundo a diretora-presidente do órgão, Oreni Braga, a posição oficial da Insel é que ela está em fase de venda para a Avianca, que deve assumir seus voos.

Do PORTAL A CRÍTICA

Roberto Brasil