GRITO DOS INOCENTES E AS ESTRATÉGIAS DE LUTA

By -

Ademir-RamosA criança é uma pessoa em desenvolvimento a exigir da família, da sociedade e do Estado cuidado, respeito e o cumprimento das leis de proteção ao bem-estar social destes inocentes e indefesos.  Em Manaus, nos últimos dias os horrores tomaram de assalto os olhos e ouvidos das pessoas de bem com noticiários dando conta de maus-tratos, estupros e assassinatos de crianças, provocando na sociedade indignação que se transformaram em manifestações populares e protestos a reclamar das famílias e dos governantes responsáveis programas e projetos de salvaguarda dos direitos destas pessoas em formação. Os índices apresentados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado dão conta que duas a três pessoas são vítimas de estupro na capital do Amazonas quase todos os dias. No ano passado foram contabilizados 790 casos de estupro só em Manaus até maio deste ano, o número atingiu 316, dos quais 155 casos afetam diretamente menores de 14 anos e 161 acima desta faixa etária. Os dados apresentados à imprensa são imprecisos, não permitem conferir os números de assassinatos destas crianças e jovens que são vítimas destes homens bestializados que se comportam como verdadeiros monstros sociais a violar os fundamentos morais de nossa sociedade, afrontando desta feita a cultura em seus regulamentos, como bem denunciou Freud, na sua obra clássica “O mal-estar da civilização” (1930/1966i, p. 96), mostrando a distinção entre “nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos.” Em não havendo o cumprimento moral dos valores e nem do regramento do processo civilizatório estamos todos condenados a barbárie que nada mais é do que o império da corrupção e da impunidade, comportando-se como animais movidos pelos instintos do estado de natureza.

DECLARAÇÃO DE GUERRA: Saibam todos (as) que a mutilação moral e os assassinatos das crianças são verdadeiras declarações de guerra à vida em sociedade, comprometendo nossas relações sociais e afetivas, bem como também a própria força do Direito. Se assim for a ignorância e a ostentação da natureza ou do capital passam a reinar de forma desregrada, podendo ser compreendida no mundo moderno como involução ou retrocesso marcadamente relacionado à cultura de mercado, que induz as pessoas a buscarem satisfação e gozo regido pelo máximo de prazer compulsório de consumo, em não realizando o desejo voraz de ter, estes indivíduos embrutecidos age por instintos orientados pelo princípio de que “os fins justificam os meios” e para isso são capazes de matar, violentar o outro e cometer a barbárie.  Frente aos horrores que ameaçam a todos – a guerra declarada – a militante Pedrinha Lasmar  buscou apoio junto a União Geral dos Trabalhos (UGT), a segunda Central Sindical do Brasil, sessão do Amazonas, para  mobilizar as mulheres dos sindicatos associados, partidos políticos, bem como lideranças comunitárias e outros parceiros institucionais ou não para juntos definir uma política de enfrentamento, visando “orientar e acordar as famílias e os agentes públicos” denunciando os males que ameaçam diretamente a saúde e a vida das crianças do nosso Amazonas. Para tanto, unidos com o Projeto Jaraqui, observatório da política, sociedade e cultura, vinculado ao Núcleo de Cultura Política do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas, resolveram se organizar no “Movimento Grito dos Inocentes” de forma suprapartidária lançando no sábado (18), no Coreto do Projeto Jaraqui, na Praça Heliodoro Balbi, no Centro Histórico de Manaus, o Manifesto para “acordar as famílias e exigir dos governantes e agentes públicos” responsabilidade em atenção à população infanto-juvenil do nosso Estado, fazendo que se cumpra a Constituição, o Estatuto da Criança e Adolescente, assim como também as leis pertinentes que promovem a saúde e a dignidade destas crianças e jovens articulados com sua unidade familiar inseridas em programas sociais, que fortaleça a rede de proteção de combate à criminalidade que afeta diretamente a população infanto-juvenil da capital e do interior do nosso Estado.

ESTRATÉGIA DE COMBATE: Sabe-se que a violência contra as crianças e jovens é um fato social que traz em si vários determinantes – político, cultural, histórico, econômico, psíquico-social, entre outros. No momento deve-se discutir, definir e concentrar todo esforço para se combater os males que afligem estes sujeitos de Direito. Nesta hora é necessário recorrer ao poder de polícia do Estado para punir severamente estes monstros que molestam e matam nossas crianças, começando pela própria família e os agregados da própria casa. Nada justifica tal ato de barbárie que fere os bons costumes e, sobretudo, afronta à sociedade moralmente atingindo a todos (as). O Movimento Grito dos Inocentes quer romper as barreiras do silencio, da omissão e da indiferença, replicando sua voz em várias frentes a começar pela comunidade, partidos políticos, parlamentos, escola, sindicato, universidades, Igrejas, priorizando o diálogo com os pais e mães quanto à saúde e o bem-estar das crianças e jovens do Amazonas, atuando como um dos instrumentos de controle social a mobilizar os meios necessários para assegurar a saúde física e mental dos inocentes, promovendo uma prática pedagógica de orientação familiar pautada no diálogo, na observação participante e na força do Direito, amparada na rede de combate à violência contra as crianças constituída pelo poder público e de representantes da sociedade organizada capaz de responder com eficácia as demandas que lhe são postas de forma curativa (polícia) e preventiva (política social), valendo-se de manifestações públicas, campanhas publicitárias e intensa participação nas redes sociais informando e sensibilizando as crianças e jovens para não se deixarem seduzir pelos “presentes” oferecidos por estranhos e até mesmo por gente das relações próximas da família, escola e da comunidade, que muitas vezes se valem deste recurso para consumar os seus desejos bestiais, molestando e matando crianças e jovens indefesos.

CONTRA A OMISSÃO E A INDIFERENÇA: Na liturgia cristã a omissão é pecado. No Código Penal a omissão é crime. Portanto, seja parte desta Luta Social e junto gritemos para assegurar o Direito destas crianças e jovens e com isto garantir o ordenamento pleno da sociedade combatendo o crime, a desigualdade social e o desgoverno, que nada mais são do que “as maquinações do Demo”, como bem cantou o poeta Eduardo Costa, em seu livro “No caminho com Maiakóvski” (2003, p.116), quando traz a baila, o Segundo Sermão da Sexagésima de Padre Antônio Vieira, versando assim desta forma: “E em verdade vos digo, irmãos/ que essa febre de salvação/ esse anseio de lançar os botes ao mar e cada qual livrar a cara por si mesmo/ é mais uma das sutis maquinações do Demo: que ninguém se salva assim/ de afogadilho, a esmo/ A salvação nos vem do muito pensar, do querer com pertinácia, do conhecer o inimigo e sua audácia/ do agir confiando em Deus e em si mesmo e/ se possível, do amar.” Outras informações sobre o Movimento podem ser obtidas diretamente comigo ou aos sábados no Projeto Jaraqui, na popular Praça da Polícia, das 10 às 12h, quando promovemos os debates, facultando a palavra aos presentes numa perspectiva da Democracia participativa.

Roberto Brasil