Garçom demitido por Temer, Catalão foi íntimo de Lula e ousava com Dilma

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José Catalão foi demitido por medo que repasse informações à equipe de Dilma Rousseff

José Catalão foi demitido por medo que pudesse repassar informações sigilosas à equipe de Dilma Rousseff

Dilma Rousseff lamentou a um dos poucos auxiliares de quem se despediu naquele 12 de maio. “Tchau, Catalão. Não posso levar você comigo”. Mas o alvo da despedida, o garçom José da Silva Catalão, na verdade estava satisfeito em permanecer no Palácio do Planalto.

Imaginava que, a partir dali, prestaria seus serviços ao terceiro presidente consecutivo. Não foi assim. Catalão foi demitido no fim do expediente de terça-feira (17) pela equipe do presidente interino Michel Temer.

Disse que precisava do emprego e pediu para ser realocado na copa de outro andar do palácio. Mas ouviu que estavam apenas cumprindo ordens. Desconfiavam que Catalão pudesse passar informações que ouvisse nos gabinetes entre um café e outro para a equipe de Dilma.

Aos 52 anos, oito deles com livre acesso ao gabinete presidencial, o garçom nega ligação com o PT e ficou surpreso com a demissão.

Desde a exoneração, foge do assédio da imprensa. Assustado com a repercussão de sua saída, não atende jornalistas, apenas amigos.

Tinha orgulho e —conforme relatos— se lembrava de cabeça das ocasiões em que serviu o então vice-presidente: durante a campanha à reeleição, em 2014, e em algumas ausências de Dilma, quando Temer assumia o comando do Planalto.

Da disciplina militar, herança de sua trajetória como oficial do Exército, restaram a pontualidade —era o primeiro a chegar e o último a sair— e as batidas de continência, que distribuía a todos que o cumprimentavam.

Certa vez, Catalão levou lanche e café para três ministros que estavam no gabinete de Dilma, mas deixou a presidente de mãos abanando. A ousadia tinha explicação: dias antes, Dilma havia brigado com o garçom na frente de sua equipe, por ele ter levado torradas e suco somente para ela durante uma reunião com outras pessoas.

Repreendido mais uma vez, apressou-se na resposta: “a senhora disse que visitas tinham preferência”. Dilma gargalhou: “então trate logo de trazer para todo mundo”.

O bom humor dele se destacava no clima sisudo do terceiro andar do Planalto. Mas era no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seu primeiro chefe presidencial, que Catalão tinha mais intimidade.

Ao servir o petista, escondia o dedo mindinho da mão esquerda, em uma brincadeira para imitar o ex-presidente e sua marca famosa. Lula respondia sempre com um palavrão, aos risos.

Com Dilma, porém, a relação era bem mais formal. “Presidenta” e “sim, senhora” eram indispensáveis. Ninguém dizia que Catalão morria de amores por ela. Com um broche em que se lia “maître” na lapela do paletó, tornou-se um dos alvos das tão famosas broncas de Dilma.

Recentemente, a petista deu falta de um queijo que guardava em sua geladeira particular, na copa presidencial. Cumprindo rigorosa dieta desde o começo do ano passado, o queijo produzido com 98% de leite era uma das únicas coisas que ela poderia comer no fim da tarde.

Dilma controlava de perto a própria geladeira, invadida naquele dia por uma assessora. Sobrou para Catalão. A presidente dizia que o garçom, com tantos anos de experiência, não poderia permitir que alguma coisa desaparecesse sem explicação.

Mas ele não se abalava e permanecia destemido. Da tal copa presidencial, saía um suco de laranja natural, feito na hora, bem diferente daquele de caixinha que era servido para o restante dos gabinetes. Catalão era o responsável por fornecer o “suco da presidente” aos outros assessores. Virou ídolo.

Ex-auxiliares de Dilma dizem que Catalão tinha mais horas de voo em aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) do que qualquer outro. Ele viajava com a então presidente para diversos destinos. Em Washington, dizem que cumprimentou com apertos de mão o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

No Brasil, acompanhou com olhos atentos a ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner trazer suas próprias garrafas de água mineral em visita oficial ao país.

Catalão era acostumado com aviões. Quando militar, era paraquedista e Dilma, que já assistiu a um dos saltos, brincava que ele tinha “caído ali”, em seu gabinete.

Catalão não era concursado. Na função de garçom da Presidência da República ganhava R$ 3.870 e agora procura um novo emprego.

(Com FOLHAPRESS)

Roberto Brasil