FIFALÃO

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Ponderação do meu filho Alfredo, ortopedista dos bons, antes de assistir ao desastroso empate do seu Flamengo com o Sport: “Ninguém aprende a roubar depois dos cinquenta anos de idade. Como a idade média dos presos no fifalão é superior a setenta, dá para imaginar há quanto tempo a roubalheira corria solta nos domínios da FIFA, se forem verdadeiras as acusações que levaram à prisão dos cartolas”. Deu para perceber que o neologismo foi inspirado no mensalão tupiniquim e a conversa me fez lembrar o Bruxo do Cosme Velho que, marcado sempre pela ironia, já dizia em pleno século 19 e muito antes das Copas do Mundo: “A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”. O que, a ser procedente, permite também inferir que o dinheiro é sempre meio e fim da atividade laboral dos gatunos, tendo pouca influência nesse mister o decurso do tempo que, por definição, deveria impor sobriedade.

Diz o jornal O Globo que a coisa foi um tsunami no futebol. A fortuna e a nomeada dos detidos dá respaldo à ideia. Mas convenhamos que o gigantismo da onda vinha dando sinais claros de sua ocorrência, sem necessidade da operação de sismógrafos de última geração. Quer ver uma coisa? Os grandes clubes de futebol pagam às suas estrelas salários que, em um único mês, fariam a felicidade perene de qualquer trabalhador. Ora, o futebol é “association”, como não cansava de lembrar o saudoso Belmiro Vianez, significando dizer, nesse campo específico, que a unidade é impensável, por isso que cada time há de ter pelo menos onze jogadores. Sabendo-se que o conjunto vai muito além disso (há reservas, treinadores, comissão técnica e quejandos), não fica difícil concluir, mesmo para um leigo como eu, que a folha de pagamento de uma organização desse tipo há de atingir cifras astronômicas, digna dos mais modernos computadores.

E de que vivem esses clubes? Existem as contribuições dos associados, é claro. Ao depois, têm eles seus mecanismos internos de produção de renda, como publicidade, comércio de material esportivo e de propaganda, além da participação, acredito, no valor decorrente dos direitos de imagem vinculados estes à transmissão televisiva das partidas. Cuido que se sobressai, nesse aspecto, as rendas colhidas nos estádios e aqui a questão se pinta de indisfarçável curiosidade. Um clube não joga mais que duas partidas por semana, mesmo na chamada alta temporada. E não é toda vez que a casa está cheia. De onde vem, então, essa dinheirama que se derrama a mancheias, permitindo remunerar um único jogador com valores que fariam corar um monge de pedra, diante da imensa injustiça social?

Tem boi na linha, diria a sabedoria popular, com o improvável aplauso do Conselheiro Acácio, nada propenso ao plebeísmo da expressão. Mas que tem, tem. Dinheiro não cai do céu nem brota no quintal, sendo-me permitido estabelecer que os dirigentes futebolísticos (falo dos grandes, é claro) conseguiram driblar essa assertiva e encontraram um meio só deles conhecido de alimentar as burras de seus clubes por meio de inesgotável cornucópia. E não me venha, raro leitor, com a maldade de insinuar que a cartolagem fez curso intensivo na Petrobrás ou no Parlamento! Antes, muito antes, de Dirceu e Cerveró já era comum o curso da caudal pecuniária nos terrenos do ludopédio, como a esse jogo haveria de se referir meu querido e ausente mestre Antônio Gonçalves da Encarnação.

Em paralelo, mas com vinculação ao tema, aqui mesmo nesta terra de Ajuricaba, temos exemplo marcante da quase irresponsabilidade com que se atua na área. Um estádio pronto e acabado foi jogado ao chão para que outro, novinho, fosse erguido no mesmo lugar. Por que e para que, “ninguém soube até hoje explicar”, para dar o tom romântico da voz divina de Dalva de Oliveira. Como também ninguém sabe dizer ao certo o quanto fluiu de dinheiro público na brincadeira de mau gosto, ficando o dito pelo não dito e indo todos à praia, segundo a recomendação de Melina Merkouri. Eu, por uma questão de pudor e o mínimo de respeito pela história, insisto birrentamente em continuar chamando o estádio de Vivaldão.

O senador Romário (gratíssima surpresa na atividade parlamentar) aplaudiu de pé as prisões. E botou a boca no trombone. Segundo ele ainda está faltando muita gente na lista do fifalão. Deve saber o que fala, pois, como ninguém, viveu sua vida inteira no e do futebol, não sendo exagero o reconhecimento de que foi dele a vitória nacional na Copa de 1994. Vou acreditar no seu discernimento e, sem perder minha crença inabalável na presunção de inocência, esperar que o futebol seja passado a limpo e deixe de ser fonte de enriquecimento ilícito. Afinal de contas, sendo uma paixão nacional, não pode e não deve misturar o grito entusiasmado do “gol” com o pênalti marcado à sorrelfa, contra as regras e contra a moralidade. Quer-se o jogo limpo, de preferência sem faltas e sem agressões, que estas nada de bom trazem em si. Quer-se, acima de tudo, a transparência no trato do dinheiro, pois mesmo eu, que pago apenas a meia entrada concedida ao idoso, não gosto de saber que meu rico dinheirinho foi parar, por portas e travessas, no bolso de algum espertalhão.

Traquinagens à parte, amanhã meu querido Fast Clube parte para a vitória. Com ou sem fifalão.

Mario Dantas