EXCENTRICIDADES

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felix-valois-blogdafloresta_logoNo tumultuado cenário político nacional, as próximas eleições de outubro serão o primeiro embate político pós impeachment. No caso específico de Manaus, a luta pela renovação de nomes na Câmara Municipal promete, e muito. Quando nada pela singularidade dos nomes com que se registraram diversos candidatos, segundo lista divulgada pelo Tribunal Regional Eleitoral. Escassos os recursos materiais, já que a hipocrisia proibiu formalmente as doações de empresas para as campanhas, os pretendentes usam da criatividade para tentar atrair e fixar a atenção do eleitor. Decorre daí a multiplicidade de apelidos no mínimo exóticos com que eles se apresentam para a liça, na esperança, cuido eu, de que a excentricidade se transforme em preferência.

Eleitos todos os que constaram de publicação feita aqui no Diário, dou-me à pachorra de imaginar a composição da casa legislativa e de como se poderiam desenvolver as atividades parlamentares, na fremente busca de aprimorar a ordem jurídica municipal. A bancada zoológica estaria composta pelos vereadores Tigrão, Leão, Jacarezinho, Tatu e Pica-Pau. Apesar de integrado por espécimes de faunas estranhas à região, esse bloco poderá cerrar fileiras em torno da preservação ambiental, levando a todos as lições mais caras aos ecologistas, com o esclarecimento de que, não importa o bicho, o importante é protege-lo para que se consiga o perfeito equilíbrio do meio. Ensinamento que, na minha santa ignorância, aceito com a devida parcimônia, porque jamais consegui entender qual é a utilidade das cobras e das baratas. Isso para não falar do “aedes egypti”, que tanta dor de cabeça e febre tem causado a todos, inclusive, as autoridades do setor respectivo.

Estando reunido o plenário da Câmara, é possível vislumbrar a ocorrência de um pequeno incidente que se daria mais ou menos assim. O presidente, zelando pelo regimento e pela boa ordem dos trabalhos, teria que assim se manifestar: “Ilustre vereador Zé do Fogo, peço a Vossa Excelência que não se aproxime do ilustre vereador Lamparina. Não podemos correr o risco de um incêndio; além do que, os ilustres vereadores Foguete e Tabaco poderão se acender com a chama lamparinal e, como é do conhecimento de todos, a prática do tabagismo é expressamente vedada. Peço, por isso, a Vossa Excelência que mantenha o seu facho com o mínimo de intensidade possível, ao fito de não termos que acionar o Corpo de Bombeiros”. Controlada a piromania, serenados os ânimos, estaria respeitada a grande conquista dos “tabachatos”, consistente em limitar a liberdade de escolha do ser humano, transformando o simples uso de um cigarro em uma ameaça apocalíptica para o futuro da humanidade.

Haveria de ser criada uma Comissão Gastronômica. Nela teriam assento, obrigatoriamente, os vereadores Macaxeira, Pirão, Da Empada, Pirulito, Pupunha e Café, cabendo a presidência ao vereador Chico Boquinha. Esse órgão setorial, como não pode escapar aos olhos do raro e atento leitor, estaria incumbido de disciplinar superiormente as atividades de compra e venda de alimentos nesta mui nobre e altiva cidade de Manaus. Imagino que seria objeto de preocupação saber por que o preço do pirarucu atingiu níveis estratosféricos, o feijão rareou e encareceu e uma simples banana, de tão cara, já mereceu o privilégio de cotação na bolsa de valores. Nada que não pudesse ser explicado pelo vereador Risadinha, o qual, sempre bonachão, culparia seu ilustre colega, o vereador Temporal, por todos os males já sofridos ou a serem suportados pela natureza. Singelamente assim, estaria posta ordem no caos e poderíamos todos desfrutar da bonança sempre pregada e sonhada pelo vereador Pai Amado.

Apenas uma pendenga ficaria por resolver. É que o vereador Seda pediu a interferência do vereador Baladeira para evitar que a vereadora Barata viesse a causar danos ao seu vestuário. Gravíssima intercorrência, principalmente depois que o vereador Baba pediu ao mesmo Seda que cobrisse o vereador Pelado. Questão a ser resolvida pelos vereadores Star Night e Apipica que, conciliatórios, demonstrariam a seus pares que o uso de paciência e de caldo de galinha nunca fez mal a ninguém.

Pura e parca imaginação da minha parte. Nada que se compare ao fenômeno a que assisti ontem no Senado da República. Declarar impedida a presidente e lhe permitir continue exercendo cargos públicos foi a mais deslavada e cretina ofensa que já vi ser perpetrada contra a Constituição. Para ficar com os ditos populares, ontem tão invocados, lembro este: “Quem não pode com o pote não pega na rodilha”.

Roberto Brasil