Ex-nora acusa desembargador de abusar neta

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O ex-juiz da infância e da juventude e desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) Rafael de Araújo Romano, 73, foi denunciado nesta quarta-feira (21) no Ministério Público (MP-AM) por abuso sexual contra a própria neta, hoje com 15 anos. A mãe da adolescente, a advogada Luciana Pires, informou que os abusos ocorriam desde que a menina tinha sete anos.

Ela contou que, na semana passada, a jovem decidiu expor a situação, após a tentativa de suicídio de uma amiga da mãe. Luciana disse que a filha só teve coragem após pensar que poderia perder a mãe devido à morte da amiga.

“Ela achou que eu pudesse me matar, já que a possibilidade de falecimento da minha amiga mexeu bastante comigo. Além disso, ela percebeu que os veículos de comunicação, principalmente a TV, estão abordando sobre o assunto. Foi então que ela me ligou e disse que tinha algo muito grave para contar. Choramos muito e tive que levá-la ao psiquiatra”, disse.

Luciana explicou que os abusos contra a filha iniciaram quando ela estava prestes a completar 8 anos e que o último ocorreu quando a jovem tinha 14. Ela contou que o primeiro caso relatado ocorreu na casa do avô, onde a menina ficou por uns tempos porque Luciana teve que viajar para cuidar da mãe, em tratamento de saúde.

“Ela disse que desde que ‘ela se entende’ o avô ‘passa a mão’ nela. No banheiro, ele que limpava as partes íntimas, e ela me disse que sempre desconfiou porque ele demorava muito fazendo isso. O primeiro caso que ela percebeu o abuso foi enquanto estava sentada em uma cadeira de balanço dentro do quarto dele. Ele começou a ‘alisar’ as pernas da menina até chegar a calcinha. Ainda no mesmo dia ele (Rafael) dormiu com ela no quarto e continuou durante muito tempo até que os abusos se tornaram maiores”, afirmou.

A mãe da jovem, que também é ex-nora de Rafael Romano, disse que o desembargador chegava a dizer palavras chulas à neta. “Ele dizia à neta que ‘gostava dela bem lisinha’ e também insinuou que a menina também gostava desses atos. Esse homem chegava a machucar os seios da minha filha, além de arranhá-la com a barba. Algumas vezes cheia de marcas, mas nunca imaginaríamos que fosse abuso”, contou.

Post da nora acusando o desembargador (Imagem: Reprodução/Facebook)

Mais abusos

No termo de declaração da adolescente constam outros casos de abusos que teriam sido praticados pelo desembargador aposentado. Em um deles, segundo a mãe da vítima, houve uma situação que levantou desconfiança da família no ano de 2016.

“Eram as eliminatórias da Copa do Mundo. A família estava reunida em casa e o desembargador bebeu algumas doses a mais. Ele chegou até a tentar assediar a minha cunhada e ela começou a desconfiar. Mais tarde ela flagrou esse homem no quarto da minha filha. Mesmo assim só agora que conseguimos perceber o monstro que ele é”, desabafou.

Defesa do magistrado

O desembargador aposentado não quis dar entrevista. O advogado dele, José Carlos Cavalcanti, informou que o magistrado nega todas as acusações e tanto ele quanto a família se dizem surpresos em relação às declarações feitas por Luciana e a adolescente, durante o Termo de Declaração feito ao MP-AM. Ele disse que o cliente deve aguardar o posicionamento da acusação, já que até o momento, nenhuma notificação feita pelo Ministério Público ou Polícia Civil (PC) foi designada ao desembargador.

“Ele nega veementemente ter praticado qualquer ato contra a própria neta e que não tinha conhecimento de nenhuma das histórias relatadas nas redes sociais. Nós aguardamos agora algum posicionamento deles, para apresentarmos uma defesa clara e que comprove a inocência do meu cliente”, declarou.

José também comentou que Luciana está em processo de separação do filho do desembargador e que isso pode ser uma espécie de vingança em relação ao processo de divórcio.

“Não sabemos em que contexto a jovem decidiu contar essa história. Não sabemos também se houve influência ou até coação da acusação junto com a menina. Acreditamos que possa ser uma espécie de vingança contra todos os acontecimentos do divórcio entre Luciana e o filho de meu cliente”, afirmou.

À reportagem, Luciana negou que queira se vingar da família. “Meu processo de separação dura cinco anos e eu nunca botei o meu ex-marido na Justiça. Não precisamos disso. Eu só quero que esse homem pague pelo que fez”, declarou.

Um texto atribuído a uma filha de Romano que circula das redes sociais e que chegou a pessoas mais próximas da família afirma que a denúncia é “fruto da insanidade da minha ex-cunhada”. “Quero dizer que apesar de destruídos emocionalmente, nossa família está mais unida do que nunca e certos de que meu pai irá provar sua inocência e desfazer essa injustiça sem precedentes”, ressalta o texto.

Carreira jurídica

Rafael de Araújo Romano sempre foi considerado um magistrado exemplar e não recaí sobre ele nenhuma acusação anterior de crimes de qualquer natureza. Ele entrou para a Magistratura em 1977, onde por três décadas atuou como juiz da infância e juventude, se destacando por uma atuação rigorosa contra crimes sexuais, até ser promovido a desembargador em 2008 pelo critério de antiguidade.

No TJ-AM, em 2014, foi o relator do caso e autor do voto que levou à condenação do ex-prefeito de Coari Adail Pinheiro a dez anos e onze meses de prisão por pedofilia. Na 2ª Instância, entre 2014 e 2015, ele também relatou a ação originária “Operação Estocolmo”, que investigou uma rede de exploração sexual infanto-juvenil.

Em 2007, ainda juiz da infância e da juventude, Rafael Romano lançou a primeira edição do livro “Compreensão facilitada do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”.

Fonte: A Crítica

Roberto Brasil