Eleição na França é marcada pelo embate entre otimista e pessimista

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Franceses elegem neste domingo (7) seu próximo presidente convencidos por questões como desemprego, migração e ameaça terrorista.

Entre esses temas, seu voto é filtrado por uma visão mais ampla: o que pensam dos dias que estão por vir.

O país vive um embate entre otimistas e pessimistas, diz à Folha o analista Bruno Cautres, da Sciences Po. “Há uma divergência cultural.”

Uma pesquisa do instituto Ifop aponta que 72% dos eleitores do centrista Emmanuel Macron são confiantes em relação ao futuro do país, mas 71% dos eleitores de Marine Le Pen, da direita ultranacionalista, têm receios.

“O eleitor de Macron é mais otimista devido a sua composição sociológica”, afirma. Ele tem mais capital cultural, por exemplo, e está mais aberto à globalização. “Essa visão de mundo é mais direcionada para o futuro.”

É uma perspectiva que a Folha encontrou, por exemplo, em um piquenique de simpatizantes de Macron.

“Uma coisa de que vou me lembrar desta campanha é o otimismo das pessoas. Nós queremos mudar o mundo”, afirma Anne Fahmy, 43.

Seu marido, Thierry, 45, trabalha na campanha do centrista. Ele diz: “Muitos de nós têm uma situação confortável, mas há também pessoas de outras classes, sempre com uma atitude muito boa. Mesmo na adversidade, somos otimistas.”

Ao olhar brasileiro, pode causar estranheza a negatividade do eleitorado de Marine Le Pen em um país que, além de ser a sétima economia do mundo, tem bons índices de saúde e educação.

O problema reside, porém, no efeito comparativo. Antigo império colonial e farol intelectual, o país viu decair sua importância no mundo depois da Segunda Guerra.

O fato de isso ter coincidido com a ascensão dos EUA faz com que a desconfiança quanto ao capitalismo liberal tenha na França pitadas de rancor nacionalista, como bem soube explorar Charles de Gaulle nos anos 50 e 60.

É sobre essa visão nostálgica de primor perdido que se baseia a Frente Nacional, a sigla de Marine Le Pen, orientada mais ao passado.

“Os partidos populistas são marcados por essa noção de decadência, de que o país está em um declínio econômico e cultural”, afirma Gilles Ivaldi, do Centro Nacional de Pesquisa Científica.

O saudosismo remete ainda a tempos mais recentes, quando franceses viviam entre menos desigualdade. Hoje há desemprego de 10%.

Ao lado do irmão com bigode de Asterix e camiseta autografada por Marine Le Pen em comício da candidata na quinta (4) no interior do país, o feirante Christophe Roland, 54, dá o tom do sentimento de abandono da “França esquecida”, como repete a ultranacionalista.

“As pessoas que estão bem são os que não precisam de nada, os ricos. Não são representativos do povo”, diz. “Tentamos de tudo, nos decepcionamos. É hora de dar uma chance a ela.”

As pesquisas de opinião sugerem, porém, que a maioria do eleitorado vai apostar em um registro mais otimista: Macron deve receber 63% dos votos contra 37% de Le Pen, segundo uma pesquisa realizada na sexta-feira (5).

O instituto Ipsos ouviu 8.200 pessoas. A margem de erro é de 1,1 ponto percentual em ambas as direções.

Enquanto Le Pen se aproxima dos russos, Macron exalta a importância da União Europeia, outro tema central da disputa. A candidata da FN quer mais controle na circulação de pessoas e mercadorias, além de proteção para as empresas francesas.

Yves Bertoncini, do Instituto Jacques Delors, compara a gravidade de uma eventual saída da França da UE com a do Reino Unido.

“O ‘brexit’ é uma amputação de um braço, que compromete mas permite andar. Com o ‘frexit’, amputa-se a perna. A União Europeia poderia até existir, mas fica muito difícil para ela andar.”

À primeira vista, a vitória de um liberal na França pode parecer uma boa notícia para países interessados em mais acesso aos mercados franceses, como o Brasil. Um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia está travado há anos.

Mas Olivier Compagnon, diretor do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3, pondera que, embora “um neoliberal em todo o seu esplendor”, Macron priorizará a Europa, e não a América Latina.

No caso de Le Pen, fora toda a agenda protecionista, o desinteresse em buscar laços com o subcontinente é maior. “Acho que ela nem se dá conta da existência da América Latina, é um mundo que não existe para ela.”

(DO FOLHAPRESS)

Roberto Brasil