Eduardo Cunha vai do céu ao inferno após seis meses ‘governando’ o Brasil

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Cunha atraiu bancadas conservadoras da Câmara

Cunha atraiu bancadas conservadoras da Câmara

De primeiro ministro do Brasil a acusado de ser chantagista de empresa fornecedora da Petrobras. Provavelmente não foi dessa maneira que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) gostaria de ter comemorado o final de seu primeiro semestre na liderança da Câmara. Pouco mais de 24 horas depois do delator Júlio Camargo ter acusado o peemedebista de receber 5 milhões de dólares em propina, o todo-poderoso do Congresso resolveu se defender atacando. Desqualificou seu acusador, criticou o juiz Sergio Moro e se disse perseguido pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e anunciou que está rompido com a presidenta Dilma Rousseff.

O maremoto provocado por Camargo se instalou antes que o líder da Câmara vá ao ar em rede nacional de TV. Cunha fará um pronunciamento às 20h25 desta sexta-feira para falar sobre suas realizações à frente da casa. Ele poderia até mesmo usar o bordão “nunca antes na história desse país”, tão caro ao ex-presidente Lula, para falar sobre os números de sua gestão: a Câmara bateu recordes de quórum nas sessões e de votações de Projetos de Lei e Propostas de Emenda Constitucionais.

Embora tenha anunciado o rompimento com a presidenta nesta manhã, a presidência de Cunha já havia coroado o divórcio definitivo entre o PT e o PMDB – o vice-presidente Temer já anunciou que o partido terá candidato próprio em 2018 – com todas as derrotas impostas ao Governo, e marcando a posição do seu partido como antagonista do PT.

Mais do que isso, o polêmico parlamentar deixou sua marca registrada nestes seis meses, com a ascensão de uma série de pautas conservadoras na casa. A redução da maioridade penal e a constitucionalização das doações empresariais de campanha são algumas delas. A reforma política alardeada pelo Congresso como uma resposta à voz das ruas, rebatizada de minirreforma eleitoral, pouca coisa mudou.

Empreendeu um ritmo acelerado de votações, o que não foi bem visto por todos os parlamentares. O colega de legenda Jarbas Vasconcelos (PE) subiu à tribuna esta semana para criticar o modelo adotado: “Estamos trabalhando de forma precipitada e desordenada, atropelando discussões”. De acordo com ele, “a pressa e a desorganização passaram a marcar o dia a dia da Câmara”, e o resultado seriam “votações precárias, interrompidas e remendadas”. O parlamentar concluiu seu discurso dizendo que “não é correto trabalhar de forma medíocre e confusa, como foi feito neste semestre”. Alguns leram nessa narrativa de Vasconcelos um prelúdio de que o partido não estaria tão confortável com seu modo de atuação.

Partidos da oposição também criticaram os métodos da presidência. “Em síntese, foi um semestre de retrocessos. Nunca se votou tanto na Câmara? É possível. Mas nunca se votou tão atropeladamente”, disse Chico Alencar (PSOL-RJ). Segundo ele, nunca “se engavetou propostas, projetos e CPIs de maneira tão célere”. O parlamentar cita ainda o “desrespeito às comissões especiais” e o descaso com sindicâncias internas da Câmara envolvendo políticos investigados pela Lava Jato – Cunha é um deles – como uma marca da gestão.

Defensor do parlamentarismo, o peemedebista é visto por muitos como o primeiro-ministro de fato do país por seu protagonismo em impor derrotas ao Governo e a emplacar seus projetos na Câmara. Ele conta com o apoio maciço de algumas bancadas suprapartidárias, como a evangélica, da bala e a ruralista, mas um dos destaques de sua presidência foi uma aliança não declarada com o PSDB, principal partido da oposição. As duas legendas têm jogado junto em várias votações e comissões chaves para impor derrotas a Dilma Rousseff e desgastar ainda mais o Governo, afundado em grave crise econômica e política.

Na CPI da Petrobras, por exemplo, os partidos têm se articulado para blindar Cunha – que foi, inclusive, coberto de elogios tucanos quando foi se defender voluntariamente no início dos trabalhos da comissão – e aprovar a convocação de ministros e réus cujos depoimentos são prejudiciais ao PT. A não convocação do lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, apontado por delatores como o articulador do PMDB no esquema da Lava Jato -, e que agora está no centro da crise com o depoimento de Camargo – foi motivo de críticas na CPI. “Por que não conseguimos convocar Fernando Soares? Por que estão blindando o PMDB?”, indagou Maria do Rosário (PT-RS) durante uma sessão. Parlamentares do PSOL fizeram quase uma dezena de tentativas infrutíferas de convocar o lobista.

Mas se existem as críticas, também sobraram elogios ao parlamentar: “Eu avalio a gestão do Cunha de forma positiva. Ele teve coragem de colocar em pauta matérias que outros presidentes deixaram engavetadas”, afirmou o líder interino da bancada tucana, Nilson Leitão (MT). De acordo com o parlamentar, o presidente da casa “deixou correr a pauta”, e fez o parlamento “de fato funcionar como casa legislativa, e não uma casa a serviço do Executivo”. Quanto à aliança entre os dois partidos, o líder disse que “parte do PMDB sempre nos apoiou”, e que a oposição “tem que cumprir seu papel”.

Para o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), “o PMDB fez um realinhamento tático com relação ao Governo Dilma e ao PT”. Uma consequência desta estratégia é que o partido de Cunha faz um movimento pendular: “ele conseguiu liderar um bloco de líderes e ter uma maioria independente do PT, e com alianças circunstanciais com a oposição”. Na condição de minoria, segundo Pestana, “nós temos que ter habilidade e lucidez para fazer avançar nossos objetivos, nossas estratégias”. Para ele, Cunha “tem muita energia”, e conseguiu impor essa dinâmica na Câmara, se aproveitando do difícil momento vivido pelo Governo.

Outras derrotas de Dilma que contaram com a dobradinha PSDB-PMDB foi a redução da maioridade penal – 49 dos 52 deputados tucanos presentes na sessão votaram pela aprovação, defendida por Cunha – e a reforma política. Tucanos históricos como Mário Covas (morto em 2001) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sempre criticaram a redução.

Além do interesse tucano em fragilizar o Governo petista, um novo fenômeno toma conta da bancada do partido. Com a participação de deputados evangélicos e delegados, ela é mais conservadora e radical do que prega o programa do partido. Pestana não acredita que o PSDB está se tornando mais conservador nessa legislatura: “é natural que o PSDB atraia setores conservadores, por ter uma postura mais centrada que o PT, que namora com o bolivarianismo”. De acordo com ele, isso é uma consequência de um quadro partidário fraco, onde  as “bancadas da segurança pública, evangélica e ruralista muitas vezes têm mais força que as legendas”.

O líder do partido, Nilson Leitão, tem outra visão. “Não concordo que estamos mais conservadores. O problema é que o caos criado pelo Governo no país, é um surto”, afirma. Para ele, a bancada tucana “é ousada, viu que precisava fazer algo”.

Essa dobradinha estaria sob risco com a reviravolta política que se instalou esta semana, segundo alguns observadores. Assim como Cunha se afastou da presidenta Dilma para não colar a imagem a alguém com péssima avaliação popular, o polêmico presidente da Câmara pode provar do próprio veneno nas próximas semanas. O pedido de afastamento do parlamentar do cargo de líder, feito pelo deputado Silvio Costa (PSC-PE), é um primeiro sintoma. O anúncio do vice-presidente Michel Temer de que o rompimento de Cunha não tem respaldo do PMDB seria outro. Mas, Cunha ainda tem o poder de autorizar a tramitação do processo de impeachment contra a presidenta Dilma na Câmara. Pelo menos até o momento. EL PAIS

Roberto Brasil