DOM PEDRO E LULA

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felix-valois-blogdafloresta_logoO texto da semana passada fez referência a D. Pedro I. Dele volto a me ocupar hoje, em razão de um curioso episódio, quase inteiramente desconhecido dos brasileiros (de novo, culpa dos livros didáticos). O caso está relatado no livro “A História do Brasil nas ruas de Paris”, cujo autor é o jornalista carioca Maurício Torres Assumpção. Deu-se o seguinte: tendo abdicado da coroa brasileira, o imperador foi para a Europa, a fim de organizar um exército para a defesa dos direitos sucessórios de Isabel Maria, sua filha, que ele entendia estarem sendo usurpados por D. Miguel, seu irmão. Para isso, teve que visitar as mais importantes casas reais europeias, em busca de alianças e compromissos para a guerra civil que se mostrava inevitável.

Acertando os detalhes de sua chegada a Paris, o ex-imperador enviou carta a um certo José Marcelino Gonçalves, que exercia as elevadas funções de veador. Nada de confusões, meu raro leitor. O homem não era nem vereador nem administrador de veados. Era veador mesmo, tratando-se de “empregado superior que, no paço real ou fora dele, servia à rainha; camarista da rainha; viador” (Houaiss). A correspondência foi vazada nos termos abaixo transcritos:

“Contando que Vossa Excelência conservará para com D. Pedro, quando simples particular, aquele mesmo grau de amizade que mostrava a D. Pedro quando imperador do Brasil, tomo a liberdade, depois de lhe fazer os meus cumprimentos, de lhe pedir que haja de me alugar uma casa na rue de Saint-Honoré (em Paris), se for possível, ou em outra parte perto deste sítio, por seis meses, e também receber e recolher na casa alugada a bagagem, tanto a minha como da minha esposa e de minha filha, a Rainha de Portugal, que em “roulage ordinaire” vai ser enviada. Como poderá pensar que eu desejo um palácio, mister é que o advirta que fui um imperador que só tratou da Pátria, e não de si, e por isso nada possuo; portanto, uma casa barata e decente é o que me convém, onde eu caiba com a minha esposa e a Rainha, que em breve chegará a Brest e que desembarcará debaixo do título de duquesa do Porto”.

Que coisa! Impossível não estabelecer a comparação entre D. Pedro e Luís Inácio Lula da Silva. Não digo em termos de estilo e de correção da linguagem. Seria querer o impossível. Falo apenas da situação econômico-financeira no período subsequente ao exercício do poder. E olha que os do imperador eram, pelo menos teoricamente, muito maiores que os do presidente. Afinal, o século 19 ainda não conhecia as grandes conquistas democráticas que, ao depois, permitiram ao metalúrgico exercer o comando desta grande Nação.

É bem certo que, nos tempos do Império, também não existia a Petrobrás e nem haveria necessidade de comprar votos de parlamentares. Talvez, se contasse com essas duas tentações irresistíveis, Sua Majestade não teria largado a coroa tão facilmente e, ainda que o tivesse feito, não haveria de andar na rua da amargura, procurando casa barata que o acolhesse. Bem feito. Fosse ele um homem de visão e tivesse tido a oportunidade de ler o conteúdo programático das manifestações do PT, haveria de ter dado início ao programa “Minha casa, minha vida” e não teria que estar se humilhando para o veador, em busca de moradia que pudesse ser paga com o apurado na bacia das almas, onde se deposita o produto da caridade pública.

Era pobre o nosso primeiro imperador. “Nada possuo”, queixa-se ele ao camarista da rainha. Mais uma vez, tem-se a falta de visão de estadista. Mesmo sem a estatal gigantesca, poderia ter dado o ponta pé inicial na “síndrome das bolsas”, que, duas centúrias mais tarde, viria a se tornar o paraíso financeiro dos governos petistas. Por que não criou, por exemplo, a “bolsa nobreza”? O governo imperial financiaria os trabalhos de qualquer jovem que, tendo aspirações à aristocracia, não pudesse, com recursos próprios, arcar com as despesas respectivas. Lá teríamos, na “escola de barões”, o burguesinho gordo e mal-educado a aprender, às custas das burras imperiais, todos os protocolos e salamaleques da Corte. Dependendo da dedicação do aspirante a nobre, ser-lhe-ia facultado ascender na escala hierárquica, passando sucessivamente pelas honrarias de visconde, conde e marquês, até a suprema glória de se transformar em duque. A marmota poderia ter rendido ao imperador e ao seu partido alguns trocados. Seriam os albores da vocação franciscana, no governo brasileiro, do toma lá, dá cá. Ninguém é de ferro.

Uma vantagem teve D. Pedro: não se consumiu com preocupações quanto ao futuro do filho. Sendo a sucessão ao trono por linhagem, o pimpolho tinha emprego assegurado no caso de morte do genitor ou, como ocorreu, de abdicação. E aí a história marca a diferença abissal entre o segundo D. Pedro e o Lulinha. Aquele ganhou uma coroa e um cetro de bandeja, apenas por ser filho de quem era. E o outro? O outro, não. Não tendo direito hereditário à presidência do Brasil, teve que ir buscar forças extraordinárias para assegurar a sobrevivência após o período presidencial do pai. E conseguiu. Demonstrando força de vontade hercúlea, saiu, em trajetória meteórica, da zeladoria de um jardim zoológico (lavador de bunda de elefante, segundo meu compadre Jacinto Botinely), para as mais elevadas posições no mundo empresarial. E sem qualquer ajuda do pai. O plebeu venceu o nobre.

Roberto Brasil