DILMA DIUTURNA

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felix-valois-blogdafloresta_logoO presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tirou do fundo do baú uma retórica dos anos sessenta do último século e proclamou ao mundo que os governos esquerdistas da América do Sul estão sob ameaça de golpe. Listou, entre os ameaçados, seu próprio país, a Bolívia, o Equador e, por incrível que pareça, o Brasil. Por que manifesto a surpresa. Ora, é muito simples: o Brasil pode ter de tudo, menos um governo de esquerda. Disso tenho certeza, forjada na convicção de quem vivenciou aquela época e ainda tem muito presente na memória a batalha contra o imperialismo norte-americano, com sua política anticomunista, fascista, de espionagem e inegavelmente golpista, que redundou na implantação de ditaduras militares espalhadas por todo o Continente.

A duração delas variou, assim como variadas foram as formas de enfrentamento. A partir dos conceitos então vigentes e válidos, indiscutível que todas essas ditaduras eram fundadas na ideologia da direita mais retrógrada, sendo possível concluir, por simples ilação, que as forças de esquerda se situavam no contraponto, sofrendo, pois, as piores represálias e sendo, por via de consequência, as responsáveis pela resistência, independentemente do modo como esta se tenha manifestado. Aqui e ali, a luta armada, como ocorreu, em solo pátrio, com a guerrilha do Araguaia; nas mais das vezes, a luta silenciosa pela conscientização das massas, de forma a desmoralizar e enfraquecer as bases mesmas do sistema ditatorial.

Assim agiu, por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro, para o qual o recurso à guerra de guerrilhas não encontrava ambiente favorável e não tinha condições objetivas de se desenvolver a contento. A História provou a correção dessa postura, eis que, desgastada por vinte e um anos de sandices, a ditadura brasileira se esvaziou em seus próprios erros e desmandos, vindo a sofrer a derrota definitiva quando um Colégio Eleitoral, por ela própria forjado, lhe impôs revés acachapante, ao rechaçar a candidatura oficial e eleger Tancredo Neves para a Presidência.

O que se passou posteriormente a isso veio a pôr em xeque os conceitos de direita e esquerda, a partir, principalmente, do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que se esfacelou no ano de 1991. Mas se tais conceitos foram abalados no plano imediato, é evidente que não pode ter havido ranhuras nas bases ideológicas em que se firmavam. Quem tinha convicções marxistas, por exemplo, não pode ter cometido a leviandade de, por um simples episódio, abandoná-las, passando-se de armas e bagagens para o outro lado.

Já restabelecido o Estado Democrático e de Direito, mormente a partir da promulgação da Constituição de 1988, as relações institucionais no Estado brasileiro passaram a se moldar pelo figurino de todas as democracias burguesas do mundo. A ilusão da pluralidade partidária, como pano de fundo, veio a comandar a luta pelo poder, sucedendo-se eleições presidenciais em que os escolhidos o foram não por qualquer programa partidário, mas, antes, por maior eficiência no uso da máquina publicitária, sem que se possa cogitar, em nenhum deles, uma visão política efetivamente republicana e voltada para o bem comum. O que, de resto, é da essência desse tipo de regime político-eleitoral.

Nesse quadro, surge o Partido dos Trabalhadores. Nunca me enganou e jamais lhe ouvi o canto de sereia. De esquerda não era. Nada na sua estrutura programática podia indicar que o fosse. Foi forjado numa ideia de sindicalismo de resultado e, como apregoava honestidade e respeito aos direitos dos assalariados, logrou congregar grande parte da intelectualidade brasileira, aquela que namorava com os conceitos marxistas, mas não tinha coragem de com eles contrair matrimônio. Por que? Não me perguntem. A resposta está muito além dos meus parcos conhecimentos.

Esse Partido conseguiu chegar à Presidência nas eleições de 2002. Seu líder maior, o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, já havia amargado duas derrotas, mas, com incansável dedicação, superou os obstáculos e acabou por conquistar a vitória, derrotando ninguém menos que Leonel Brizola. No poder, a máscara caiu e uma política paroquial, assistencialista e imediatista passou a ser posta em prática. Começou a era das bolsas e das cotas, a par da mais desenfreada corrupção, naquele instante representada pelo escândalo do mensalão. Apesar disso, reelegeram o Lula que, à vontade, prosseguiu no mesmo ritmo e no mesmo caminho, conseguindo o que aos de bom senso parecia impossível: eleger Dilma Roussef como sua sucessora.

É esse governo que o senhor Maduro considera de esquerda? Ora faça-me o favor. Na minha insignificância, sinto-me pessoalmente ofendido com a designação, que vem de encontro a tudo aquilo por que sempre lutei na vida. De esquerda, uma ova. Esse é um governo de corruptos e incompetentes. E essa senhora que o comanda deveria ter a decência de não nos humilhar com sua arrogância e despreparo. Depois de confundir “tubo de pasta” com “dentifrício”, agora ela produziu outra patacoada, confundindo “diuturno” com “diurno”, para afirmar que vai trabalhar “diuturnamente” e “noturnamente”. Deveria trabalhar também matinal e vespertinamente para encontrar um meio de nos deixar em paz.

Roberto Brasil