Dilma demonstra impaciência e passa a questionar Levy em reuniões

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A presidente Dilma Rousseff e o ministro Joaquim Levy

A presidente Dilma Rousseff e o ministro Joaquim Levy

Joaquim Levy tem recebido pouca atenção da presidente. Recentemente, um funcionário notou que nem os incontáveis e-mails diários ela anda respondendo.

Nas reuniões internas de governo, o ministro da Fazenda passou a ser constantemente questionado pelos colegas e pela própria chefe. A discordância aumentou à medida que a crise econômica acelerou a queda na popularidade de Dilma Rousseff.

Auxiliares definem o “climão”. Há apenas seis meses no cargo, Levy foi parar na “geladeira”. Trata-se de um destino comum para quem convive com a presidente. Quando ela se aborrece com algo, manda o assessor para a “Sibéria”, como se brinca no Planalto, até que sua paciência seja restabelecida.

Ministros explicam que tem sido difícil para ela renegar as suas próprias convicções para devolver, com um ajuste fiscal que fatalmente condenaria em tempos normais, a estabilidade econômica. A situação política, dizem, acentua essa ansiedade.

Quem observa as discussões do Executivo afirma que Levy costumava ganhar a maioria das disputas internas. Agora, tem obtido bem menos vitórias.

Recentemente, foi contrário a diversos pontos do plano de exportações. Não ganhou todos e, incomodado, não foi ao evento do anúncio. O comportamento turrão, contam assessores presidenciais, não vem agradando.

Mais e mais, o ministro tem deixado reuniões de governo antes de elas terminarem. Não raro, aparece atrasado. O hábito surpreende aos que perseguem a pontualidade com medo de pitos da chefe.

Cansada de ouvir “não” do auxiliar, e envenenada por queixas de ministros classificando-o de “arrogante” e “solista”, por nunca dividir a bola, Dilma começou a transparecer alguma insatisfação.

Nos bastidores, Levy já foi visto se referindo ao PT como “aquela agremiação”. Também não esconde, por vezes, o aborrecimento com o partido do governo, contrário a várias medidas do ajuste fiscal.

Em reunião de coordenação, grupo que reúne presidente, ministros e líderes do Congresso, o governo quebrava a cabeça sobre o que fazer com a criação de alternativa ao fator previdenciário, que terá forte impacto futuro sobre os cofres públicos.

Levy, como de hábito, reagiu às propostas. Dilma retrucou no ato. “Estou aqui tentando encontrar uma solução. O que você quer que eu faça, Levy?”, indagou ela ao ministro, conforme contaram três pessoas presentes.

Há meses, o titular da Fazenda repete em conversas reservadas que o governo precisa dar a mensagem de dificuldade, e não de otimismo, pois o cenário é muito difícil.

“Aviso o que dá para ficar de pé e o que não adianta prometer”, disse a um interlocutor ouvido pela reportagem.

PESCARIA

Dono de agenda cheia, Levy imprimiu um ritmo grande de trabalho à sua equipe. Outro dia, liberou os secretários do ministério às 4h. Duas horas depois, estava de volta.

Não por acaso, é frequentemente flagrado “pescando” em reuniões. No governo, há quem relacione tal ritmo com a embolia pulmonar identificada na semana retrasada.

A “pescaria”, contudo, não é a válvula de escape de Levy. Quando está no Rio, e estressado, costuma desaparecer por uma hora. Para encontrá-lo, basta ir à baía de Guanabara. Lá estará o ministro, feliz, com seu “Fusquinha”. Não, Levy não tem um Volks vintage, nem sua nova encarnação modernizada. “Fusquinha” é seu barco a vela.

Outro dia, reagindo a rumores de redução iminente da meta do superavit primário, o dono do “Fusquinha” apressou-se para alertar: “Não pode é deixar o barco bater nas pedras”. FOLHAPRESS

Roberto Brasil