Detento do Amazonas é aprovado no Sisu para ensino superior em instituição federal

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Mário Fernando Oliveira de Souza

Mário Fernando Oliveira de Souza

Quando escreveu uma redação em defesa da valorização do professor no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para Pessoas Privadas de Liberdade (PPL), o detento Mário Fernando Oliveira de Souza, 59 anos, da Unidade Prisional de Maués (UPM), nem imaginava que estava, praticamente, dissertando em causa própria. Isso porque ele é o único detento do sistema prisional do Amazonas que conseguiu ser aprovado no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e, em 4 anos, no mínimo, pretende voltar às salas de aula como professor após cursar o ensino superior em uma instituição federal.

Das oito vagas ofertadas para o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), uma é de Mário Fernando, que já tem planos de percorrer os 356 quilômetros por via fluvial que distancia o município de Maués da capital Manaus.

O Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) e da Escola de Administração Penitenciária (Esap), foi  responsável pela inscrição em todo o processo e está fazendo o acompanhamento para que Mário consiga cursar a faculdade. A Seap está em contato com o juiz da comarca para que ele possa decidir a favor de Mário e qual a melhor maneira de cumprir o restante da pena.

Para avançar na disputa pela vaga no ensino superior, Mário e outros 15 detentos do Amazonas, ultrapassaram o mínimo necessário para que o candidato do Enem possa disputar uma vaga no Sisu. A maior nota de Mário foi da Redação, na qual ele alcançou 800 pontos com uma dissertação que seguiu o tema “O histórico desafio de se valorizar o professor”.  “Estou preso há dois anos e durante todo esse tempo tenho estudado e lido bastante. Sou viciado em leitura, desde criança leio muito e agora vi o resultado desse bom vício. Comentei com meus colegas que foi essa leitura que fez a diferença na redação”, conta Mário, que está na Unidade Prisional de Maués há dois anos e é condenado a 11 anos de prisão.

Há dois anos ele é o responsável pela administração da biblioteca do presídio que hoje tem em seu acervo mais de 5 mil livros. “Sou eu quem cuido da biblioteca da unidade prisional e, graças ao diretor, tenho esse trabalho que só me ajuda a crescer como cidadão. Agora, estou pronto para continuar e pretendo conseguir a autorização do juiz para ir até Manaus fazer o curso. Estou aberto a qualquer proposta que me ajude a ser uma pessoa melhor”, disse. Mário é reincidente e já cumpriu pena de oito anos em Maués.

O diretor da unidade, Ademar Gruber, que foi um dos principais incentivadores de Mário, conta que a história do detento tem servido de inspiração para os mais de 187 homens que cumprem pena no local. “Nossa biblioteca tem nos dado bons frutos. Desde 2013 eu incentivo a todos que estudem e fico feliz em saber que estamos avançando aos poucos porque já tivemos bons resultados antes, mas só agora uma aprovação de fato”, ressaltou Gruber.

Aprovações – Para avançar na disputa pela vaga no ensino superior, Mário e outros 15 detentos do Amazonas ultrapassaram o mínimo necessário para que o candidato do Enem possa disputar uma vaga no Sisu. No entanto, a Esap conseguiu efetuar a inscrições de quatro desses candidatos.

Segundo a diretora da Esap, o site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), teve problemas e, em todo o país, detentos que alcançaram a nota foram prejudicados. “Nós não conseguimos porque houve atraso na divulgação das notas e o prazo foi curto”.

Entretanto, os 12 detentos que não puderam ter a inscrição efetivada por conta do problema tiveram seus casos informados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), que busca solucionar o problema para que os candidatos não sejam prejudicados. O secretário de Estado de Administração Penitenciária, Pedro Florêncio, reforça que a Seap irá acompanhar de perto a questão dos outros internos para que suas inscrições sejam aceitas. “O problema foi identificado e já entramos em contato para que esses internos que se dedicaram, estudaram e se superaram possam ser reconhecidos. O esforço deles não será em vão”, disse o secretário.

Pedro Florêncio ressalta que o incentivo aos estudos tem sido reforçado em todas as unidades do sistema prisional da capital e do interior. “O Governo do Amazonas, através da Seap, está em busca de promover espaços e oportunidades de estudo para todos os internos do sistema. O objetivo é motivá-los em busca de uma capacitação para alcançar novos objetivos quando retornarem ao convívio social fora das prisões”.

Mario Dantas