DESAGRAVO AOS IRMÃOS RORAIMENSES

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felix-valois-blogdafloresta_logoÉ muito raro que eu ligue a televisão para assistir a um canal aberto. Parece-me consenso entre as pessoas normais que, no geral, o que se exibe é deplorável, para dizer o mínimo. A introdução é para dizer que não vi a programação de quarta-feira, que foi ao ar na rede SBT. Mas Tadeu Nery, meu amigo e irmão, enviou um vídeo com o acontecido. Confesso que ainda não consegui estabelecer com segurança se fiquei triste ou com raiva. Ou as duas coisas. Ou outras mais que não logrei detectar. Mas tenho certeza de uma: foi deprimente, a ponto de demonstrar o poder maléfico da ignorância e da falta de educação.

Na tela, um cidadão identificado como Danilo Gentili. Trata-se, pelo que consegui deduzir, de um misto de apresentador e artista, conquanto não seja do meu conhecimento em que ramo das artes ele possa dar alguma colaboração. Lia ele a correspondência que lhe chegava através de um laptop. De repente, às gargalhadas, proclama algo mais ou menos assim: “O quê? Estão me convidando para fazer um show em Roraima? Eu vou lá fazer show na bosta desse lugar!” Já seria mais que suficiente em termos de estupidez. Mas não o foi para o senhor Gentili, que parecia decidido a proclamar aos ventos sua alta performance no campo de que se cuida. Por isso, prosseguiu, certo de que estava sendo engraçado e, talvez, muito sutil: “Vocês vão me pagar com quê? Com peixe? Com prostituta”?

Não esclareceu o artista qual a forma de pagamento preferida, já que, como visto, para ele uma simples nota de real não existe em terras roraimenses. Cuido que se lhe fosse dado decidir não optaria pelos peixes. As aquáticas criaturas não hão de fazer parte de sua dieta alimentar, eis que, se fizessem, não teriam permitido a completa destruição dos neurônios, preservando os dois ou três com que a mãe natura o mimoseou. Temos, portanto, que, dentro do elenco das moedas conhecidas pelo senhor Gentili, sobraram as prostitutas. Acontece que as operárias do amor não haveriam de querer servir a tão bizarra personagem, que, de resto está longe de merecê-las. Mas, feita tal opção, ela apenas nos remeteria a um exemplo freudiano, a revelar um processo de regressão à figura materna. É um atrevimento de minha parte pretender ingressar, mesmo superficialmente, nos domínios da psicanálise. Dá-se, porém, que a mim me pareceu a única forma de tentar uma explicação para o absurdo que vi e ouvi. Como se é capaz de cometer tamanho despautério em público, e ao vivo e a cores? Eliminada a sensatez, só o recurso aos mistérios do inconsciente poderá ensejar a compreensão da desavergonhada pilhéria.

Tem lá os seus gostos e preferências o senhor Gentili. Depois das ofensas acima relatadas, arrematou com esta pérola: “Prefiro fazer show no inferno”. Escolha mais do que perfeita. Isto é, se o de que se trata é daquele inferno que me pintavam nas aulas de catecismo, em que o satanás, poderoso e dominador, infligia suplícios infindáveis nas almas dos que se foram em pecado. Mortal, é certo, já que os veniais permitiam o cumprimento da pena em regime menos gravoso, encarcerando os infelizes no purgatório. Resta saber se o coisa ruim estaria disposto a receber tal artista. Acho difícil. O demônio pode ser mau e irrecuperável, mas nada que o impeça de preservar o mínimo de bom gosto. E como, afinal, no inferno não devem existir nem peixes nem prostitutas, o nosso bom Gentili haveria de ser pago com um tição bem ardente, a ser usado no orifício de sua escolha. Qual seria esta, não é difícil de imaginar.

Quanta demência! A sabedoria popular não se cansa de afirmar que “quem não sabe é como quem não vê”. Gentili de nada sabe e, portanto, está incapacitado de ver que somos (e como isso nos custou!) uma só Nação e que a ofensa dirigida a qualquer parte dela, atinge-a no seu todo indivisível. O suposto menosprezo revelado pelo indigente encontra suas raízes no deplorável sistema de ensino adotado no Brasil, que não permite uma visão universal. Quem disse a ele que uma parte do nosso país é melhor do que outra? Quem lhe pode ter transmitido a ideia de que a distância geográfica é fator de insignificância?

Roraima é uma terra deslumbrante. Seus lavrados e suas serras são encantadores. “Água Boa” e Tepequén são monumentos naturais que engradecem qualquer guia de turismo. E sua gente é afável, cortês e educada. Sei disso muito bem porque lá nasceram minha mãe e meus tios e lá ainda vivem incontáveis primas e primos, todos demonstrando o orgulho e o amor da terra natal. Mas não me acusem de sentimentalismo ao escrever esta despretensiosa crônica. Nada disso. É certo que me emociono e me sinto feliz todas as vezes em que tenho podido visitar aquelas plagas. Mas o que me move, na verdade, é a revolta contra uma agressão gratuita e de péssimo gosto. Agressão, como disse, forjada no cadinho da mais pura e requintada ignorância e que se propagou com rapidez, como sói acontecer com tudo o que não presta.

Agora tenho certeza de como me sinto diante da tresloucada idiotice: sinto-me infeliz. Uma infelicidade que brota do fato de constatar que existe um brasileiro capaz de tentar envergonhar sua própria gente. Um brasileiro que está longe de merecer ser recebido pelo povo de Roraima que, altivo e sobranceiro, haverá de jogar o incidente para o lixo da História.

Roberto Brasil