Delatores da Lava-Jato estão ameaçados de perder benefício

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delacaopremiadaApós dois anos de investigações, a Operação Lava-Jato enfrenta novo desafio: as mentiras e inconsistências em acordos de colaboração. Das 40 delações assinadas, sete estão sob suspeita. Em três, o Ministério Público Federal tem provas de irregularidades e abriu procedimentos para cancelá-las.

Os lobistas Fernando Moura, Roberto Trombeta e Rodrigo Morales violaram os termos assinados com os procuradores e estão prestes a perder os benefícios. O principal negociador da Lava-Jato, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, alerta:

— Questionamos a cada momento as informações apontadas por um delator. Se percebemos divergência, ligamos o alerta. Aquele que for pego perderá o acordo.

O lobista Fernando Moura foi pego. Ele admitiu que mentiu ao juiz Sérgio Moro em 22 de janeiro. O lobista, ligado ao ex-ministro José Dirceu, disse ao juiz que assinou o acordo de colaboração “sem ler” e insinuou que os investigadores teriam acrescentado informações que não disse. Moura desmentiu ainda a parte da delação em que afirmava que Dirceu o aconselhou a deixar o país durante o escândalo do mensalão. E negou a participação da empresa Etesco no esquema. Seis dias depois, voltou atrás e disse que havia sofrido uma “ameaça velada”.

A hipótese foi descartada semana passada pela Polícia Federal. Após analisar as imagens do circuito de segurança da loteria onde Moura teria sido intimidado, os investigadores concluíram que não houve ameaça.

Nem só mentiras levam ao rompimento do acordo. Os contadores Trombeta e Morales estão ameaçados porque não forneceram documentos que provam crimes que delataram e nem pagaram a multa. Os investigadores descobriram que os dois, que usaram empresas de fachada para lavar dinheiro da OAS e da UTC, podem estar envolvidos em novos crimes.

LOBISTAS, DOLEIRO E EX-DIRETOR SOB SUSPEITA

Outros quatro delatores estão no radar da Lava-Jato: os lobistas Fernando Baiano e Julio Camargo, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef. Deles, quem escapou por enquanto foi Camargo. O lobista ocultou dos investigadores que havia pago US$ 5 milhões em propina ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Os investigadores analisaram um procedimento de quebra de acordo, mas desistiram. A Procuradoria-Geral da República (PGR) aceitou o argumento de que ele corria risco de vida se revelasse o pagamento.

“Não teve nenhuma outra consequência, porque nos convencemos de que ele estava realmente em estado de ameaça, e ele não falou porque tinha receio de sua própria vida. Isso ficou claro”, afirmou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Camargo não perdeu o acordo, mas sua punição aumentou. Inicialmente, pagaria R$ 40 milhões à Justiça. Os novos termos do acordo não foram revelados.

— Não sabíamos (do pagamento a Cunha). Ele foi espontaneamente à PGR e revelou o caso — explicou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, principal negociador da Lava-Jato.

Já as divergências entre Baiano, Costa e Youssef ainda são investigadas. Elas se concentram no papel do ex-ministro Antonio Palocci num esquema de arrecadação de propina para a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010. Para os procuradores, o aprofundamento da investigação revelará quem está mentindo.

— O que é bem claro é a seriedade com que encaramos as colaborações. Exigimos do colaborador um alto padrão de comportamento. Um desvio, uma ocultação e, principalmente, uma mentira não serão tolerados — afirmou Lima.

FONTE: O Globo

 

Roberto Brasil