Das 55 medalhas do Brasil no Pan, 26 são de atletas militares

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Continência nos pódios é defendida pelo COB

Continência nos pódios é defendida pelo COB

O COB (Comitê Olímpico do Brasil) defendeu nesta quarta-feira (15) a prestação de continência no pódio feita por atletas das Forças Armadas e disse que a prática é uma regra militar e uma manifestação de patriotismo.

A continência foi vista em quase todos os pódios do judô, onde chamou mais atenção, mas há militares também na natação, remo e badminton, entre outros. Entre as 55 medalhas do Brasil, 26 são de atletas das Forças Armadas.

São no total 123 atletas militares no Pan, um quinto da delegação. Em Guadalajara-2011, foram 70 –13%.

“Prestar continência para a bandeira é o que eles [Forças Armadas] recomendam e a gente sente orgulho de fazer. Fizemos a iniciação lá dentro. Pegamos o espírito do militarismo”, disse a judoca Mayra Aguiar, terceiro-sargento da Marinha desde 2010.

A inclusão dos atletas nas Forças Armadas se intensificou às vésperas dos Jogos Mundiais Militares de 2011 no Rio. Para obter o apoio militar, que inclui salário em média de R$ 2.300, os atletas têm de ser integrados ao Exército, Marinha ou Aeronáutica.

A seleção dos candidatos é feita por meio de editais. O contrato de militar temporário pode durar até oito anos.

Eles participam de treinamento por uma semana a cada seis meses. A judoca Mayra, prata no Pan, aprendeu a atirar, enquanto o judoca Luciano Correa, ouro, fez curso de sobrevivência na selva.

O general Augusto Heleno, diretor de comunicação e educação esportiva do COB, afirmou que o país se inspirou em experiências de países como a ex-União Soviética para formatar o programa.

“Todos eles fizeram estágios. Fizeram marcha, patrulha, pista de corda, atiraram. Dura dois meses mais ou menos. E a gente percebe que eles incorporaram isso. Muitas vezes, eles recebem medalhas fazendo continência e ninguém dá ordem para isso”, disse o general.

O COI (Comitê Olímpico Internacional) proíbe manifestações políticas nas premiações olímpicas –regra replicada no Pan–, mas o COB diz que não se trata de posicionamento ideológico, mas manifestação de patriotismo.

O COB afirmou também que a continência é prevista no Regulamento de Continências, Honras e Sinais de Respeito, das Forças Armadas.

“O militar da ativa deve, em ocasiões solenes, prestar continência à bandeira e aos hinos nacional e de países amigos. Esses atletas não são militares apenas quando estão fardados, mas sim todo o tempo”, diz nota do comitê.

Para o professor André Capraro, da UFPR (Universidade Federal do Paraná) –que pesquisa a relação entre esporte e ciências humanas–, a tensão política atual no Brasil (com pedidos de volta dos militares ao poder) eleva a polêmica em torno do gesto.

“Não creio que pessoas associem o gesto a um regime autoritário ou que o governo veja como uma ameaça”, diz. Para ele, a prática é mais institucional que política. FOLHAPRESS

Roberto Brasil