Cruz Vermelha Americana é suspeita de desvio de doações no Haiti

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Funcionária da Cruz Vermelha em rua de Porto Príncipe três dias após o terremoto de 2010

Funcionária da Cruz Vermelha em rua de Porto Príncipe três dias após o terremoto de 2010

Reportagem publicada por um respeitado site investigativo dos EUA aponta que a Cruz Vermelha Americana teria usado para outros fins US$ 488 milhões (R$ 1,54 bilhão) arrecadados em uma campanha para ajudar vítimas do terremoto no Haiti, em 2010.

Segundo informou o site ProPublica nesta sexta (5), a situação mais grave é no setor de moradia, para o qual foram destinados US$ 173 milhões, ou 35% do total.

Ao fazer o apelo por doações em 2010, a ONG prometera dar abrigo a 132 mil haitianos. Cinco anos depois, porém, só seis casas foram construídas pela Cruz Vermelha Americana no país. Mesmo assim, a campanha foi mantida, superando a meta inicial de arrecadação.

Em comunicado, a entidade rechaçou as acusações e afirmou que abrigou milhares de haitianos em casas temporárias e que operou por parcerias com outras ONGs.

O projeto habitacional citado no texto faz parte da ação chamada de Lamika (sigla em crioulo para Uma Vida Melhor no Meu Bairro). A intenção era entregar em 2013 moradias completas, com piso, vaso sanitário, chuveiro e sistema de coleta de água da chuva.

Mas no bairro Campeche, na capital, Porto Príncipe, a situação permanece precária como após o tremor de 2010. Os moradores ainda vivem em barracos de madeira e chapas de metal, sem acesso a água potável, energia elétrica e saneamento básico.

Esta não é a primeira vez que uma das organizações abrigadas sob o nome guarda-chuva da Cruz Vermelha é suspeita de desvios. Em 2014, a Cruz Vermelha no Brasil se viu no centro de um escândalo envolvendo o sumiço de doações a vítimas de desastres nacionais e externos.

Em julho do ano passado, a Folha revelou uma auditoria do órgão internacional que apontava que R$ 2,3 milhões doados para ajudar Japão, Somália e Rio foram desviados para uma ONG ligada a funcionários da entidade.

Nos EUA, a organização esteve na berlinda diversas vezes –de questionamentos sobre os altos salários de seus dirigentes, contratados no meio corporativo, ao mau uso de fundos para as vítimas do furacão Katrina, em 2005.

Além da gestão de recursos, a atuação da Cruz Vermelha no Haiti também atrai críticas dos que acompanharam as operações. Em “The Big Truck that Went By” (2013), seu livro sobre o Haiti, o jornalista Jonathan Katz relata problemas de planejamento e eficácia na operação da organização, frequentemente causados pelo desconhecimento da situação local.

Em entrevista à Folha em maio, Katz descreveu a marginalização dos haitianos na operação, lembrando que “quase nenhum dos agentes estrangeiros falava crioulo” – crítica é ecoada por moradores de Porto Príncipe ouvidos pela ProPublica.

OUTRO LADO

Em nota no site da Cruz Vermelha americana, o chefe de operações internacionais, David Meltzer, admite que só foram construídas seis casas, mas afirma que elas integravam um projeto piloto.

Meltzer alega não ter avançado no projeto devido a disputas fundiárias e ao retorno de beneficiários de iniciativas de outras ONGs a favelas de Porto Príncipe. Ele diz, porém, que a entidade fez cerca de 860 mil casas provisórias. FOLHAPRESS

Roberto Brasil