Crise na Venezuela também ameaça o Amazonas, diz OEA

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Documentos da Organização dos Estados Americanos (OEA) mostram como a crise na Venezuela pode contaminar toda a região, criando instabilidade e dificuldades sociais fora do país caribenho. De acordo com o relatório, produzido pela secretaria da entidade com sede em Washington, Brasil, Colômbia e países do Caribe podem ser os principais afetados pela turbulência em Caracas, segundo publicado, ontem, pelo site do jornal O Estado de São Paulo. Na região Norte do Brasil, os Estados de Roraima e Amazonas são as portas de entrada do País, por via terrestre, dos migrantes venezuelanos. Somente em Manaus, a Pastoral do Migrante da Arquidiocese da capital estima que haja 2 mil venezuelanos.

Os documentos da OEA apontam que o impacto da crise não se limita às fronteiras da Venezuela e toda a região pode ser afetada se a situação do país continuar a se deteriorar. De acordo com os documentos, um primeiro impacto seria econômico. Em Manaus, atuando na Pastoral do Migrante, a irmã religiosa Arceolidia Silva da Souza afirmou que, ao chegar na capital amazonense, os venezuelanos refugiados tentam conseguir emprego e buscam emissão de carteira de trabalho e aulas de português para facilitar a obtenção de emprego no Brasil. “Aulas de português representa empregabilidade e eles precisam dominar o português para conseguir emprego mais facilmente”, afirmou a religiosa.

Conforme a OEA, até recentemente, a Venezuela era o destino de milhares de imigrantes de ilhas caribenhas, em busca de trabalho. No entanto, “à medida que a crise piora, questiona-se para onde vão agora todos esses imigrantes”. Levantamento da gerência de migração da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc-AM), atualizados até ontem, mostra que só de migrantes indígenas da etnia Warao havia 451 morando em seis abrigos, em Manaus. O levantamento aponta que o movimento de migrantes é pendular e os índios chegam ao Amazonas e retornam à Venezuela para levar mantimentos e ajuda financeira para os parentes que estão no país caribenho. Só no mês de julho, 73 indígenas venezuelanos da etnia retornaram ao país de origem.

De acordo com os documentos da OEA, desde o ano 2002, quando Hugo Chávez ainda comandava a Venezuela, “dois milhões de venezuelanos abandonaram o país”. Citando relatórios da ONG Human Rights Watch, a entidade destaca que Brasil e Colômbia já sentem o impacto desse fluxo. “Os hospitais perto das fronteiras estão lotados de pacientes venezuelanos que querem atenção médica de emergência”, apontou. Em maio deste ano, crianças da etnia Warao foram diagnosticadas com pneumonia, em Manaus.

O levantamento da Sejusc-AM apontou que cinco indígenas venezuelanos Warao morreram desde o mês de janeiro, quando os índios começaram a chegar a Manaus, até o último dia 1º de julho. No Terminal Rodoviário de Manaus, segundo informou a gerência de migração, o fluxo de chegada e saída dos índios pode variar, culminando em picos, como a chegada de 107 indígenas venezuelanos entre 24 de junho e 4 de agosto.

Conforme os documentos da OEA, entre janeiro e abril, o número de solicitantes de asilo no Brasil dobrou em comparação a 2016, chegando a 8,2 mil. “Os sistemas de apoio do Brasil estão sobrecarregados”, mostra o documento. Na Colômbia, segundo a OEA, apenas em janeiro foram 47 mil venezuelanos que cruzaram as fronteiras. “Segundo estimativas mais recentes, o número de venezuelanos que residem, hoje, ilegalmente na Colômbia poderia oscilar entre 400 mil e 900 mil”.

De uma forma mais abrangente, a OEA também alerta que a crise venezuelana pode significar uma ameaça à segurança regional, principalmente se houver dificuldade em controlar o destino das milhares de armas que o país importou nos últimos anos. “Entre 2011 e 2015, a Venezuela gastou mais em armamentos que qualquer outro país latino-americano”, alertou a OEA.

No período entre 2006 e 2016, o gasto total chegou a US$ 137 bilhões. Em comparação, a Colômbia – com uma população 30% superior à da Venezuela e com um grave conflito armado – gastou US$ 92 bilhões. “Dessas compras, o grande número de armas leves, assim como sistemas portáteis de defesa aérea (Manpads), são os que despertam maior preocupação”, indicou.

A OEA também colocou na lista de preocupações regionais o perigo de o Exército venezuelano passar a estar cada vez mais implicado “na dinâmica do comércio de drogas no país”.

Atuando frente à problemática dos indígenas venezuelanos em Manaus, o procurador da República Fernando Soave afirmou que os impactos social, ambiental e econômico da migração de venezuelanos pelos Estados da Região Norte brasileira é resultado da ausência de políticas públicas de migração em nível nacional, estaduais e municipais no Brasil.

“No Amazonas, apesar da migração dos haitianos, de certa forma, estamos engatinhando nesse contexto e os impactos tendem a ser maiores com uma imigração em massa”, disse Soave, mencionando a migração de milhares de haitianos que chegaram ao Amazonas fugindo da destruição do Haiti após a ocorrência de um terremoto, em 2010.

Segundo o procurador da República, a existência de planos de migração desestimula a ilegalidade e amortece os impactos, como a redução do uso de coiotes para fazer as fronteiras terrestres. “Isso é fruto da falta de regulamentação e não podemos deixar nossos irmãos do país vizinho passar fome”, disse. Soave acrescentou que a Sejusc-AM está produzindo um plano estadual para a migração no Amazonas.

D24AM

Roberto Brasil