Conheça o drama de portadores de hanseníase afastados dos filhos

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Ana de Lima e sua filha Zeida: separação, mas reencontro veio anos depois (Fotos: Winnetou Almeida)

As políticas de isolamento de pacientes com  hanseníase no Amazonas, entre os anos 20 e 80 do século  passado, provocaram uma sequela não apenas em forma de chagas físicas, mas no coração de várias famílias que foram separadas de seus entes queridos. Em meio ao tratamento da doença e ao isolamento em locais como a hoje Colônia Santo Antônio, na Zona Leste, e Vila da Paricatuba, em Iranduba, crianças foram arrancadas de seus pais logo após o nascimento, formando uma legião de “pais e filhos da segregação”.

Durante a semana, a Justiça Federal determinou que a União e o Estado do Amazonas promovam, em até 120 dias, a identificação, catalogação, restauração e manutenção dos acervos documentais de estabelecimentos destinados à recepção e manutenção de crianças separadas compulsoriamente de seus pais em razão da política de isolamento e internação compulsória de pessoas atingidas pela hanseníase. A decisão liminar foi concedida em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) para assegurar o reconhecimento histórico das violações aos direitos humanos realizadas em desfavor dos filhos separados de pais com hanseníase, em especial entre as décadas de 1920 e 1980, bem como a reparação dos danos causados.

O coordenador do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase no Amazonas (Morhan), Pedro Borges, sofreu na pele a separação da família tanto como filho, recém-nascido, quanto como pai, aos 33 anos: “Meu pai era hanseniano, eu sou, mas meus três filhos, não. Pra ter uma ideia de como essa separação é sofrida para o pai e filho, em 2007 um dos meus filhos me deu um presente de Dia dos Pais, e começou a chorar, me dizendo: ‘Tenho uma mágoa muito grande pelo senhor não ter nos criado’. Mas não o criei porque ele era sadio e eu doente. Hoje não mais. Mas essa mesma cobrança existe de muitos filhos”.

Outro exemplo dramático ocorreu com a dona de casa Zeida de Paula Pardo, 45, “arrancada” da mãe hanseniana,Ana de Lima, e do pai João Eugênio, ainda recém-nascida. Ela foi adotada por um outro casal, Mercedes e Raimundo Pardo, que moravam no bairro São Jorge e que nunca esconderam dela e de uma irmã mais velha que eram adotivas. “Nós tivemos amor, mas outros foram para outras famílias, educandários, famílias estranhas, mas não foram criados como filhos, e sim como empregados”, conta. Quando fez 10 anos, Zeida voltou ao convívio da mãe biológica, a quem nutre carinho e cuida até hoje.

A CRÍTICA tentou contato com a Secretaria de Estado da Assistência Social (Seas), mas a assessoria informou que até o momento o órgão não recebeu documentação oficial acerca do assunto, mas que iria reunir com o departamento de Proteção Social para buscar mais dados.

Raimundo Barreto Matos, 77 anos, hanseniano

Um dos mais conhecidos vitimados pela hanseníase do Amazonas, Raimundo Barreto Matos, o “Barretinho”, de 77 anos, morava no Município de Coari quando foi diagnosticado com a doença aos 8 de idade. O relato dele é dramático. “Fui retirado da sala de aula e não retornei mais. Minha mãe me trouxe, me deixou aqui e sumiu. Só fui reencontrá-la uns 25 anos depois. Passei dois dias em sua casa, mas não havia mais aquele afeto de mãe para com um filho. A lepra foi a responsável pela separação”, garante ele, que disse ter passado privações durante o tratamento na Colônia Antônio Aleixo, onde mora até hoje, como na época do nazismo.

“Nós ficamos aqui como que em um campo de concentração. Fomos obrigados a comer feijão estragado com gordura, bem como arroz, macarrão e jabá (charque) que não prestavam. Toda alimentação que vinha para nós era imprópria. E nós, para não morrermos, tínhamos que comer”, disse ele, pai de um filho adotivo.

A política de isolamento no Amazonas

Um acordo celebrado entre o Estado do Amazonas e a União, em 1920, implantou o Serviço de Profilaxia e Saneamento Rural no Amazonas. A política de isolamento compulsório das pessoas com hanseníase somente se efetivou no Estado com a inauguração do Leprosário de Paricatuba, em dezembro de 1930.

A primeira instituição com a finalidade de receber as crianças retiradas dos pais com hanseníase logo após o nascimento foi a creche Alice Sales, criada em 1926, localizada no bairro da Cachoeirinha, no período da gestão do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural do Amazonas.

Posteriormente, no dia 6 de julho de 1939, foi criado o Educandário Gustavo Capanema, que também tinha como objetivo acolher os filhos sadios de pais portadores de hanseníase internados no leprosário. Foram realizadas diversas campanhas para a construção do Educandário, oficialmente inaugurado em 1942, como instituição de apoio ao controle da hanseníase no Amazonas com o objetivo principal de amparar os filhos dos doentes nascidos nos leprosários Belizário Penna e Colônia Antônio Aleixo.

As instituições responsáveis pela execução da política contra a doença foram Umirisal (1868-1931), Linha do Tiro (século XIX-1930), Dispensário Oswaldo Cruz (1921-1950), Hospital-Colônia Belisário Penna – Vila Paricatuba (1931-1967), Leprosário Colônia Antônio Aleixo (1942-1978), Fundação Alfredo da Matta (1950-dias atuais), e Educandário Gustavo Capanema (1949-dias atuais). Fonte: PORTAL A CRÍTICA

Roberto Brasil