Compressa é achada dentro de mulher três meses após o parto

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Marilaine estava grávida de nove meses antes de ter sofrido violência obstétrica (Foto: Divulgação)

No dia 12 de maio, Marilaine Góes da Costa, de 23 anos, fez uma cirurgia para ter seu primeiro filho no Hospital Vó Mundoca, no município de Borba (a 150 quilômetros de Manaus). As condições precárias no atendimento somadas à negligência do profissional que realizou a cirurgia foram pequenas diante do problema causado no corpo dela. Após vários dias sentindo fortes dores e depois de passar por vários exames, foi constatado que o médico havia esquecido uma compressa dentro do abdômen de Marilaine. Ela cobra um posicionamento da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) sobre o caso.

Marilaine usou as redes sociais para contar o ocorrido na noite de sexta-feira (18). Ao Portal A Crítica, ela afirma ter sofrido violência obstétrica há três meses, além de ser destratada pelo médico no hospital do município. “Ele disse que ia fazer cesárea porque já tava ‘cansado de olhar pra minha cara’. O meu filho nasceu quase morto e o médico disse que não tinha mais jeito”, disse ela.

Após ser operada e liberada do hospital dois dias depois, Marilaine passou a sentir fortes dores. Embora ela estivesse tomando medicamentos, o incômodo não cessava. Foi quando ela recebeu a orientação de realizar uma nova cirurgia, dessa vez em Manaus. “Fui internada no dia 9 de junho no Instituto da Mulher. Não tinha leito e chorei horas com dor. Só depois eles começaram a fazer exames de ultrassom e tomografia. Esperei um laudo de quatro dias pra sair que apontou apenas que eu estava com acúmulo de fezes no intestino”.

Ela afirma ter voltado para Borba sem ter passado por qualquer procedimento, e enquanto isso, as dores continuavam. Deixando de andar e até cuidar do próprio filho, Marilaine conseguiu ir até um hospital na cidade de Porto Velho por meio das doações de amigos, já que, segundo ela, a prefeitura e o Estado não deram suporte para a viagem.

Em Porto Velho, ela conta ter ido diretamente para a unidade hospitalar e teve um choque. Ao invés de acúmulo de fezes, as dores sentidas por ela foram causadas por uma compressa deixada pelo médico no dia da cesárea dentro do abdômen. “Aquilo fez apodrecer parte do meu intestino. Fiz uma laparotomia e agora estou usando uma bolsa de colostomia até que o órgão se reconstrua. Isso demora de seis meses a um ano. Os remédios são caros e temos gastado muito dinheiro por causa desse erro”, afirmou.

A jovem disse ainda que pretende tomar todas as medidas cabíveis assim que tiver condições de andar. “Estou reunindo todos os papeis pra isso. A questão é que ainda estou em Porto Velho na casa da minha irmã. Minha mãe ajuda a cuidar de mim e do meu filho. Espero que isso não fique sem uma solução, porque esse sofrimento tem sido cruel comigo”.

Por e-mail, telefone e mensagens, a reportagem tentou contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) questionando os procedimentos adotados com a paciente, mas até agora não obteve retorno.

A vice-presidente da ONG Humanizar, Rachel Geber, explica que o caso é caracterizado como violência obstétrica. Segundo ela, Marilaine sofreu várias ações que se enquadram dentro da prática. “Pelo que ela relata, vários tipos de violência aconteceram como constrangimento, humilhação, danos físicos, entre outros. O fato dele ter deixado ela sozinha enquanto duas enfermeiras terminavam a cirurgia é negligência”.

Ainda segundo a vice-presidente, a ONG entrou em contato com Marilaine oferecendo apoio para acompanhá-la juridicamente. “Não tem como não se entristecer com esses casos. Infelizmente isso é comum no nosso Estado. Trabalhos de partos mal feitos com profissionais sem o mínimo de senso de cuidado com o ser humano… É preciso combater esse tipo de prática”.

Portal A Crítica

Roberto Brasil